Caos-América: um diário de viagem e pesquisa

Por Fábio Zuker*

Esta seção explora a viagem de pesquisa e trabalho que estou realizando pela América Latina. Inicio com uma estadia no México, onde desenvolvo parte de minha dissertação de mestrado como forma de uma programação cultural aberta. Em seguida, encaminho-me para a Colômbia – país em que fui aprovado para uma residência como curador para desenvolver um projeto em São Paulo, com duas pesquisadoras parceiras, em 2015. Entre estes dois pontos (e depois), não sei o que poderá vir.

Aqui é o espaço para escrever sobre as pesquisas, compartilhar dúvidas, divulgar trabalhos e reflexões que dificilmente chegam ao Brasil, bem como tentar dar um tom narrativo às minhas experiências pessoais ao longo da viagem. Vale deixar claro que a plataforma está aberta para colaboração de outras pessoas, que podem propor maneiras de participar da plataforma – além da divulgação de textos de outras pessoas que ocorrerá por aqui.

América invertida (1943). Joaquín Torres García

América invertida (1943). Joaquín Torres García

 

Sobre o título

Caos-América nada tem a ver com uma suposta caoticidade inerente ao continente. Trata-se de uma pequena homenagem ao pensamento do intelectual martinicano Édouard Glissant, que defendia a ideia de caos-mundo, conceito contrário a qualquer tipo de amálgama uniformizador. O caos-mundo só poderia ser entendido como desordem diante de um pensamento que pressupõe a ordem, a ser mantida por uma determinada concepção de poética. A estética do caos-mundo parte justamente da refutação dessa suposta ordem, diante de um mundo e novas ligações a serem exploradas. Daí valer-me dessa ideia para essa viagem que se inicia pelo continente americano.

30/11/2014: “Não contavam com minha astúcia”: Chaves, Chapolin, Afeto e Televisa

Não fui um fã de Chaves e Chapolin qualquer. Quando pequeno, fui completamente aficionado, a ponto de não ir às aulas – com a cumplicidade ativa de minha mãe – para ficar vidrado em frente à televisão, assistindo às trapalhadas ”inocentes” dos personagens criados por Roberto Bolaños (…)

11/11/2014: Jogando com o vídeo: Beatriz Santiago Muñoz

Outros são os jogos propostos por Beatriz Muñoz ao longo da exposição. Em Post-Military Cinema (2014), uma base militar norte americana abandonada (não fica claro se a mesma na qual foram encontrados os diapositivos ou outra) é filmada durante o anoitecer. Em um procedimento quase impressionista, durante os pouco mais de dez minutos do vídeo, a mudança de luz apresenta também uma mudança em tudo aquilo que se vê, quase como se por esse procedimento fílmico intensificasse a sensação de passar do tempo, e de transformação do local.

30/10/2014: Cidade do México: onde inexistem linhas planas

No ônibus que tomei, dessa vez sozinho, de San Cristóbal de las Casas (Chiapas) à Cidade do México, um sonho muito estranho me acompanhou durante o longo percurso de 16 horas. Uma imagem nada convencional de uma cidade moderna sobreposta à cidade antiga Azteca. Embaixo da Catedral Central encontravam-se enormes templos, preservados, como aqueles que eu acabara de ver dois ou três dias antes, em Palenque, com turistas subindo as escadas frontais. Tudo estava mais ou menos nublado, chovia e relampejava. Eu não conseguia entender direito se estava caminhando em uma cidade moderna ou se caminhava por ruínas. Tudo se confundia, e era ao mesmo tempo muito real (…)

09/10/2014: Massacres estudantis no México: 1968 e 2014

25 de setembro de 2014, Iguala, estado de Guerrero, México. No estado com maior taxa de homicídios no país, quarenta estudantes da Escola Normal de Ayotzinapa desaparecem após, além de enfrentamentos com a polícia, tomarem três ônibus sem pagar. Nesta semana, foram descobertas as covas com quarenta corpos e sinais de tortura. Não se sabe ao certo o que aconteceu, mas tudo indica que os jovens tenham sido assassinados por policiais de Guerrero ligados ao narcotráfico. Manifestações populares em apoio aos estudantes estão marcadas para essa semana, em meio ao clamor por uma investigação por parte do governo mexicano (…)

24/09/2014 – Chiapas, Zapatistas e mais ruínas

Os momentos de solidão e introspecção, de me sentir senhor do meu tempo, aristocraticamente sentado diante de uma linda praia semi-deserta que muito pouco contribuía para tirar-me da inércia, de decidir fazer algo além de contemplá-la, e pensando nos momentos em que estava vivendo, terminou com a mesma brusquidão que começou (…)

07/09/2014 – De volta para as américas, ou mais um pantoprazol, por favor!

Muito provavelmente, mesmo para alguém que nunca tenha acampado sozinho em uma bela praia, não deve ser muito difícil imaginar o gênero de situações  pouco habituais às quais o acampante se encontra sujeito. Entre elas, chamo atenção para a que mais me marcou nesses três dias: estar sozinho. O que se agrava diante do fato de a viagem ter sido extremamente mal organizada, pois estava mergulhado em livros e mais livros do meu mestrado, e não pensei em comprar repelentes, nem lanterna (…)

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

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