O PMDB e a crise política

Por Rafael Moreira Dardaque Mucinhato*

Vice-Presidente da República, Michel Temer, Presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, no Congresso FUG (Foto: PMDB Nacional/flickr)

Vice-Presidente da República, Michel Temer, Presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, no Congresso FUG, 17/11/2015 (Foto: PMDB Nacional/Flickr)

Engana-se quem acha que os partidos mais fortes do Brasil, hoje, são PT e PSDB.

O partido mais forte do Brasil é o PMDB.

Conta com o maior número de filiados registrados, o maior número de prefeitos eleitos, a maior bancada tanto da Câmara dos Deputados quanto do Senado (assim como a presidência de ambas as casas), o maior número de governadores e a vice-presidência da República. Mas como chegou à tal condição?

Dois aspectos devem ser ressaltados para se chegar a uma resposta e nos permitir entender a posição atual do partido em relação à crise política: o primeiro deles é a estrutura física do partido. O PMDB conta com a maior rede de diretórios do País, uma capilaridade que se estende até aos menores municípios do Brasil (uma herança tanto do MDB quanto do antigo Partido Popular, incorporado ao PMDB em 1982). Como consequência, a partir do momento em que há uma estrutura física, recursos e mão-de-obra disponível para trabalhar em suas campanhas, o PMDB logra eleger o maior número de prefeitos, deputados e senadores quase que a cada eleição (em poucas ocasiões o partido não deteve em suas mãos a maior bancada do Congresso). Esta estratégia, atrelada ao fato do partido não lançar candidatos à presidência desde 1994 (o último foi Orestes Quércia, numa condição muito mais de ambição pessoal do que de projeto partidário) se dá pela leitura que o partido fez do chamado presidencialismo de coalizão.

O PMDB provavelmente seja o partido que mais se beneficiou do funcionamento das instituições brasileiras que emergem a partir da Constituição de 1988. Logrou manter-se no pano de fundo da política brasileira nas últimas duas décadas, apoiando tanto os governos psdbistas quanto os governos petistas, elegendo sempre bancadas fortes, sem as quais nenhum partido, até então, conseguira governar com sucesso (Fernando Collor que o diga).

Assim, com bancadas fortes em ambas as casas legislativas, o poder de barganha do partido aumenta no momento posterior às eleições, fazendo com que seja bastante difícil a manutenção da governabilidade do sistema político sem contar com o PMDB na coalizão governista.

O segundo aspecto é a transformação interna pela qual o partido atravessou desde sua fundação. No momento da publicação de seu Manifesto de Fundação, no final de 1979, o PMDB era um partido bastante diferente do que ele é hoje em dia. Com uma composição interna que mantinha o partido no campo da centro-esquerda (vale lembrar que os comunistas só saem do PMDB em 1985), o “herdeiro” do MDB tinha muito mais “autênticos” do que “moderados”. Porém, já em 1982 ele começa a se transformar.

O primeiro passo nesse sentido foi a incorporação do Partido Popular em 1982, que trouxe para dentro do partido uma espécie de “Cavalo de Tróia”: uma ampla gama de moderados emedebistas e de ex-arenistas, que buscavam se desvincular do Regime Militar.

– o segundo foi a nova legislação partidária, de 1985, que permitiu a legalização dos partidos comunistas (PCB e PCdoB) e do PSB, que retiraram quadros de esquerda do partido, e a queda da regra de fidelidade partidária, que permitiu o ingresso de mais arenistas no PMDB.

Um terceiro aspecto, este mais lembrado pela memória política dos brasileiros, foi a dissidência interna em meio à Assembleia Constituinte que acabou culminando na fundação do PSDB. Mais uma vez, o PMDB perdia parte de seus quadros mais ideológicos.

Como se pode notar, essa perda de quadros ideológicos ao longo dos anos 1980 foi “compensada” pela entrada de quadros mais pragmáticos, menos ideológicos, o que alguns chamariam de políticos profissionais. Esse processo se manteve ao longo dos anos 1990 e 2000, e é este novo perfil interno de seus políticos que permite ao PMDB estar tanto em um governo com o PSDB quanto em um governo com o PT, movendo-se de acordo com a maré da opinião pública.

Retomando a pergunta inicial deste artigo, percebe-se como a conjuntura política atual é uma exemplificação perfeita de como o pragmatismo de seus políticos e o atrelamento ao governo (qualquer que seja ele) tornaram-se a marca predominante do PMDB.

Num momento em que a aprovação do governo Dilma começa a cair, o partido começa a se descolar do governo e se aproximar da oposição, preparando-se para uma composição futura caso haja uma queda do governo atual. A propaganda nacional partidária do PMDB, que foi ao ar em 25 de fevereiro, é o melhor exemplo disso. Quem assistia tinha a impressão de que se tratava de um partido muito mais de oposição do que de governo.

Em síntese, na conjuntura política atual, apenas uma coisa é certa: qualquer que seja o desfecho da crise política, o PMDB vai estar onde sempre esteve: no governo.

*Rafael Moreira Dardaque Mucinhato é doutorando e mestre em Ciência Política pela USP, bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela mesma Universidade. Tem vários artigos publicados sobre os mais variados temas, sobretudo sobre os partidos políticos brasileiros e o perfil dos Deputados Federais brasileiros pós redemocratização. Facebook: fb.com/rafaelpolitica

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Categorias: Política

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