Na escada da Fernão

Por Caetano Patta e Vinicius Saragiotto M. do Valle[1]

 “Aqui não vejo nenhum clube poliesportivo
Pra molecada frequentar, nenhum incentivo
O investimento no lazer é muito escasso
O centro comunitário é um fracasso

(Racionais MC’s, 1993. Fim de semana no parque)

9123390648_dc40148b1c_b

 Na última quinta-feira estivemos na ocupação da Escola Estadual Fernão Dias. A Fernão é localizada na zona oeste da capital paulista. Fomos movido pelo “ofício” de cientista social e pela vontade de dar ao menos uma palavra de apoio a luta das meninas e dos meninos da ocupação.

A Fernão se converteu numa espécie de vitrine de uma onda de ocupações de escolas cujo objetivo é barrar a chamada “reorganização escolar” promovida pelo Governo do Estado de São Paulo. Pelas contas do comando das ocupações, já são mais de 90 escolas ocupadas, causando fortes dores de cabeça ao tucanato, que parece mais exposto pelos meninos que pela má gestão hídrica, pela violência de Estado promovida pela PM-SP e pelas denúncias de corrupção no Metrô. O governador Geraldo Alckmin e Herman Voorwald, seu secretário de Educação, insistem em fechar 94 escolas em todo o Estado, impactando a vida de 700 mil alunos. A justificativa oficial é separar as escolas por ciclos (1º ao 5º ano; 6º ao 9º ano; e 1º ao 3º ano do ensino médio), tomando como base dados do Saresp, que apontam um rendimento supostamente melhor (14%) entre os alunos que estudam em escolas restritas a um único ciclo; as autoridades também apontam que algumas escolas estavam funcionando com número reduzido de alunos.

                Logo de início, o anúncio da medida gerou incomodo entre pais, alunos, entidades, pesquisadores e movimentos ligados à educação. Entre os motivos do amplo receio, a possibilidade de separar irmãos, tornar maior a distância casa-escola, o provável agravamento do problema de superlotação de salas de aula e aumento do número de alunos por professor. Ao mesmo tempo que essas consequências negativas da reorganização foram elencadas, diversos especialistas apontaram falhas sérias no estudo utilizado como base para a mudança pelo governo do estado. Esses especialistas mostram que o estudo comparou escolas considerando só a característica de possuir ou não o ciclo único, desconsiderando características mais importantes como o número de alunos por escola, o índice socioeconômico, o tamanho da escola e a infraestrutura. Baseado nesses motivos, o professor da Faculdade de Educação da USP, Ocimar Alavarse, chegou a dizer que “tudo indica que são outros interesses [para a reorganização]. Uma racionalização no sentido de se ter menos professores”[2].

                O receio se manifestou na indignação dos próprios alunos que promoveram passeatas pelas ruas da capital durante algumas semanas. No entanto, as já convencionais passeatas nas ruas de São Paulo foram consideradas pelos estudantes como insuficientes incomodar o governador e para chamar a atenção da população ao problema. Com isso, elas deram lugar a um movimento surpreendente e potente, de meninas e meninos de pouca idade, mas dotados de muita rebeldia coletiva e consciência de sua causa e dos meios de que dispõem. A mobilização adolescente sensibilizou setores mais amplos que os demais movimentos reivindicatórios vêm conseguindo nos últimos tempos e criou “1, 2, 3… Vietnãs” de crianças e adolescentes, tornando difícil a estratégia consagrada do Governo do Estado de São Paulo, de sufocamento e repressão – desqualificação midiática, violência policial e enquadramento jurídico – utilizada com categorias do funcionalismo público em greve e universitários.

Há muito a ser dito em relação a tudo o que está acontecendo nas ocupações. A organização das meninas e dos meninos desafia a imagem do estudante como um elemento passivo e desinteressado, tão presente no discurso que pretende projetar a escola pública como formadora de mão-de-obra barata e, portanto, merecedora de poucos recursos e disciplina mais afim ao sistema carcerário que à educação. A onda de ocupações vêm mostrando sujeitos que não se encaixam na caricatura perversa do jovem pobre promovida por setores conservadores, cujo resultado é o fechamento de escolas e a redução da maioridade penal. Não é necessário muito esforço para lembrar de reportagens mostrando alunos agredindo professores em sala de aula da rede pública, escolas públicas como pontos de venda e uso de drogas e de resultados de aprendizado sofríveis. A imagem que se constrói cotidianamente da rede pública nos grandes meios de comunicação é de terra arrasada, de caso perdido. Os secundaristas estão invertendo os papeis desta narrativa. Ao pintarem paredes, lavarem banheiros e capinarem pátios que não vinham recebendo a devida manutenção, além de mostrarem alta capacidade de organização, disciplina, compromisso, criatividade e consciência, tomam para si o papel de principais interessados no futuro e passam para o governo a carapuça do descaso, do desinteresse e da irresponsabilidade. A pergunta que lateja na cabeça é: quem não dá o devido valor à educação, os meninos e meninas ou o governo do Estado?

No entanto, a nossa visita foi menos motivada pela visão macro da mobilização e mais interessada em ouvir um ou outro jovem contando o que está sentindo. O que os levaram a tomarem para si tal compromisso, como é seu dia-a-dia, o que pensam de política, dos políticos, dos partidos e do que mais surgisse na conversa…

Foi assim que sentei para papear na escadaria do Fernão com Leandro[3]. Ele é estudante do primeiro ano do ensino médio, 15 anos, negro, período noturno e tem um irmão estudando na mesma escola. Primeiro ficou “meio assim” de conversar com a gente. Disse para falarmos com o “porta-voz” do movimento. Já tínhamos conversado com o “porta-voz”, que nos apresentou em tom mais “oficial” a ocupação. Depois de insistir um pouco e dizer que não estávamos querendo posicionamentos e informações da ocupação e que não éramos da imprensa ou de outros movimentos organizados (?), Leandro topou conversar conosco, sobre ele mesmo.

Quem é o Leandro? Porque o Leandro não arreda o pé da ocupação, participa ativamente e vê tanta importância no movimento?

Leandro morava na Raposo Tavares, lá pelo quilômetro 13. Aos fins de semana, trabalha em um restaurante (bem) mais adiante na rodovia. Mudou-se recentemente para o Tucuruvi, Zona Norte da capital.

E não é muito longe? Não preferia estudar mais perto de casa? “Não!”

Logo de cara, Leandro já abriu uma imensa janela para compreender o que possivelmente está em jogo para parte considerável destes meninos. É longe sim. “Eu diria que 10% dos alunos moram aqui mais no centro. O resto tudo mora no Rio Pequeno, Raposo, jaguaré…”. Além disso, serviço de transporte é complexo. Ele leva menos tempo da Zona Norte para a escola localizada em Pinheiros que levava quando morava na Raposo, que está na mesma zona da cidade que a escola. Isto porque do Tucuruvi para Pinheiros dá para ir de metrô. Mas a questão da distância dá lugar a outras questões quando Leandro começa a explicar porque não quer perder a escola. Leandro estuda à noite, mas chega mais cedo. Pinheiros é da hora. Joga bola nas quadras do BNH da Vila Madalena. Vai na FNAC e no Shopping com os amigos. Sempre tem coisa rolando no largo da Batata. E tem algo mais tenso: em Pinheiros o enquadro da PM é diferente que na Raposo. “Aqui eles não batem, sempre tem gente em volta”. “Se fecharem a minha escola eu vou ter que estudar perto de casa”.

Pode crê…

Leandro leva enquadro sempre. Inclusive, saindo à noite para comprar mantimentos para a ocupação ele tomou um enquadro. Os policiais anotaram nome, documento e gravaram o rosto do menino. No outro dia, o mesmo policial estava no cordão de PMs do lado de fora do Fernão e começou a chamar Leandro e outros dois colegas pelo nome. Disse que quando eles entrassem lá, seriam os primeiros a serem levados.

Leandro contou também que antes de estudar no Fernão estudava no Godofredo Furtado, outra escola no bairro de Pinheiros. Lembrei de uma matéria que vi no Globo[4], de 2008, que tratava desta escola. A matéria dizia que a escola tinha poucos alunos, 15 por sala, por não haver demanda por escola pública na região… quando os pais tinham mais dinheiro, colocavam os filhos nas diversas escolas privadas do bairro. Isso era o que dizia a matéria. Perguntei o que ele achava. Leandro via de outro jeito, relevante para pensar o que está havendo: quando estudava lá, sugeriu a vários amigos que mudassem para a escola, mas quando os pais tentavam a matrícula, a diretoria dizia que não tinha vaga. Chegaram a fechar salas e períodos. Dá o que pensar. Quanto do “esvaziamento” das escolas é “natural” e quanto foi planejado? Será que querem o Leandro e 90% de seus colegas que moram para lá da ponte frequentando aquele pedaço?

E quando foi que Leandro se envolveu pela primeira vez com política? Foi pelos 20 centavos, em Junho de 2013, com 13 ou 14 anos. Foi na passeata, encontrou um antigo professor da escola por lá e ficou empolgado. Seguiu indo aos atos contra o aumento da tarifa e para ele se envolver com “protesto” começou ali. O professor que havia encontrado na passeata foi com quem Leandro e seus amigos discutiam a política, a sociedade, o Brasil. Sua saída da escola, no entanto, como vimos, não minou a participação e o espírito crítico de Leandro e seus colegas. Hoje são eles próprios os dirigentes de um dos movimentos mais significantes do país.

Nossa conversa foi interrompida por uma notícia da Folha de São Paulo que dizia que todos os fechamentos haviam sido cancelados. Meninada pulando, cantando “escola de luta…”, teve uma menina chorando de felicidade. “Acabô! A gente conseguiu”. Um colega vem correndo e abraça o Leandro, olha para ele e diz “A gente é foda, muleque! Eles deram pra trás! A gente é foda”. Nesse momento, ligaram o som, que passou a tocar rap nacional, funk e pop, e o lugar que antes tinha um tom sério ganhou ares de festa. Leandro foi comemorar com os amigos, mas o clima de descontração durou pouco, e logo todos ergueram a guarda novamente. Um dos estudantes ligou o celular na caixa de som e repassou o áudio que uma colega havia mandado por whats app, dizendo que a chamada era um erro e tudo continuava como antes. A Folha havia feito uma “confusão”. A “reorganização” segue de pé e o governador continua dizendo que é um “movimento político” e que não vai recuar. O número de ocupações cresce e a Fernão está lá, com sua aguerrida mobilização, que virou xodó de movimentos de esquerda, intelectuais e artistas progressistas de classe média, mas também exemplo e apoio para a luta em escolas públicas por toda a cidade. Quem está fazendo isso são meninos e meninas, entre 11 e 17 anos.

Há muito o que pensar e tentar compreender de tudo isso. A chave que Leandro me emprestou para compreender uma dimensão a mais do impasse criado pelo governo estadual foi a do direito a cidade. Além de uma escola boa, de um bom emprego e um bom salário, o Leandro quer quadra igual a do BNH, quer FNAC, quer Shopping, quer os eventos que acontecem no Largo da Batata e não quer apanhar e nem ficar com medo de sumir na mão da PM. Aquela conversa na escada do Fernão não cabe na equação que o governo estadual insiste em repetir para justificar a “reorganização” que, aos olhos dos alunos, parece bagunça. Tirar tudo isso do Leandro é bagunçar sua vida. Leandro é nome próprio, não estatística.

[1]             Caetano Patta é mestrando em Ciência Política na USP e Vinicius Saragiotto M. do Valle é mestre e doutorando em Ciência Política na USP.

[2]                     http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,documento-indica-que-sp-usa-so-um-criterio-para-mudar-rede,10000002055; http://www.todospelaeducacao.org.br/educacao-na-midia/indice/35987/documento-indica-que-sp-usa-so-um-criterio-para-mudar-rede/?pag=ultima; http://avaliacaoeducacional.com/2015/11/23/entrevista-sobre-a-reorganizacao-em-sp-2/

[3]             Leandro é um nome fictício.

[4]             http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/escolas-estaduais-de-bairros-nobres-de-sp-importam-alunos-da-periferia-para-nao-fechar-3825712

Categorias: Base, Política, Sociedade

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: