O apartheid de nossa era

Por Alexandre Branco Pereira*

“Há aproximadamente um ano, Israel iniciava seu bombardeio intensivo a uma cidade sitiada, isolada e parcamente armada, de população majoritariamente civil”, seria o início padrão para o relato de mais um conflito (unilateral) ocorrido entre Israel e seus ‘colonos’ palestinos. Entretanto, expor o problema dessa forma seria amputá-lo de sua real dimensão – afinal, bombardeios e ataques têm completado aniversários na Palestina desde 1948, e até antes, se considerarmos os grupos terroristas judeus (como o Hanagá e o Irgun). Eles se incumbiam de abrir caminho para o sionismo antes mesmo da fundação do Estado de Israel, matando e expulsando árabes de suas terras (mesmo que fossem árabes-judeus), e, posteriormente, dominariam a política israelense através do Likud, partido da direita sionista.

A operação “Margem Protetora”, de 2014, durou 50 dias e expôs numa escala inédita o sadismo das Forças de Defesa Israelenses. A repercussão do número de civis palestinos mortos, 2.150, e em especial o de crianças mortas, 550, foi impossível de ser contida por qualquer simpatia pré-construída em direção ao projeto sionista. Era difícil ignorar a justificativa de punição coletiva imposta aos “árabes terroristas” – afinal, por que toda uma cidade deveria pagar por algo que nem todos fizeram?[1] As redes sociais se inundaram com fotos e vídeos, declarações de solidariedade, pedidos de explicação a Israel, obviamente ignorados e respondidos com tergiversações. Grupos midiáticos notoriamente influenciados por lobbys sionistas não puderam deixar de mostrar o desequilíbrio monstruoso do número de mortos palestinos e israelenses (especialmente os civis), nem a frieza da sociedade israelense, que municiava-se de cadeiras de praia para assistir – e comemorar – enquanto a Força Aérea fazia bombas choverem sobre a Cidade de Gaza. Foi o maior massacre desde 1967, quando da Guerra dos Seis Dias.

A cidade, de onde ninguém entra ou sai há oito anos (nem mesmo comboios de ajuda humanitária), teve 38 mil moradias severamente danificadas e 17 mil destruídas, deixando 100 mil pessoas desabrigadas. Cerca de 216 escolas foram parcial ou completamente destruídas, e 58 hospitais ou postos de saúde derrubados ou atingidos parcialmente por bombardeios (apenas um hospital funciona em Gaza atualmente, atendendo a uma população de 1,8 milhão de pessoas). Além disso, a única usina de energia de Gaza foi severamente danificada pelo exército israelense, deixando a cidade no escuro por 18 horas diárias. Sem comida, teto, luz, atendimento médico, remédios, dignidade, a Faixa de Gaza se transformou, ao longo do nosso período de vida, no maior campo de concentração da história da humanidade. Porque escolas e hospitais estavam na linha de tiro das Forças de Defesa Israelenses? Podem-se usar as explicações oficiais ou o depoimento de ex-soldados israelenses para responder a esta questão.

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Manar, de 11 anos, e colegas da escola. A volta às em Gaza seis meses após os bombardeios. (Foto: Anas al Baba/OXFAM, Janeiro de 2015)

O absurdo de 2014 ainda continua visível, seja através das práticas do governo e da sociedade israelenses, seja através do rastro de destruição deixado em Gaza e ainda não apagado. A reconstrução caminha a passos de tartaruga, e a empatia internacional despertada à época, desapareceu. Após a comunidade internacional ter condenado veementemente a truculência de Israel nos ataques, prometeu-se uma ajuda financeira equivalente a US$ 3 bilhões. Um ano depois, apenas 30% dessa ajuda foi efetivamente doada, segundo a UNRWA (Agência das Nações Unidas para Refugiados da Palestina no Oriente Próximo). Máquinas e ajuda humanitária são constantemente impedidas por Israel de entrar, como mencionado acima.

Somos tão cínicos que boicotamos Gaza e a população palestina sob o pretexto de estarmos boicotando o Hamas, e nada fazemos quando Benjamin Netanyahu, o executor desse e de outros massacres (Netanyahu lançou fósforo branco sobre Gaza em 2009, armamento químico proibido por leis internacionais de guerra), é reeleito em Israel junto a correligionários que advogam a extinção do povo árabe-palestino. Mais: prometemos ajudar os palestinos a reconstruir suas vidas após devastação israelense apenas como estratégia de relações públicas. Somos tão hipócritas, que fechamos os olhos para os desmandos colonizadores dos israelenses sob a justificativa de que eles elegeram representantes com os quais não queremos dialogar (e já o fazíamos antes mesmo da eleição do Hamas). Somos repulsivos a ponto de negar a influência que temos no tempo histórico presente para influenciar nessa situação (muitas vezes negando a sua existência), dando de ombros para o que fazemos com qualquer população que consideramos “removíveis, silenciosas e politicamente neutras” (SAID, Edward, 1992). Neutras até estarem em nosso caminho.

"Mate todos os árabes", pichação feita por colonos judeus no portão da garagem de uma família árabe em Al-Khalil/Hebron

“Mate todos os árabes”, pichação feita por colonos judeus no portão da garagem de uma família árabe em Al-Khalil/Hebron

Um bom exemplo disso é o quão pequena é a adesão à campanha de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel em terras tupiniquins. A maioria, na realidade, não faz ideia do que se trata, ou, se faz, acha “desproporcional”. A campanha, cujas articulações políticas começaram a ser feitas em 2002, parte de um pressuposto muito simples: a intenção colonizadora e genocida de Israel direcionada à população árabe é bem semelhante àquela que a elite branca sulafricana direcionava à população negra do país. Portanto, urge que comecemos a tratar o regime sionista do Estado israelense como um regime de apartheid, onde os únicos cidadãos com direitos plenos são judeus (e judeus brancos/europeus, vide a última crise envolvendo judeus etíopes, discriminados em Israel). É necessário que vejamos que estamos diante de uma questão étnico-racial de intenção colonizadora: o árabe, bárbaro e incivilizado, é menor do que o judeu, branco e ocidentalizado. E, como à época do apartheid da África do Sul, usar a pressão política internacional para mudar a situação.

As ações do movimento baseiam-se em estruturar um boicote comercial, cultural, intelectual e político contra o Estado de Israel até que 1) se acabe a ocupação e a colonização de todas as terras árabes ocupadas em junho de 1967; 2) se reconheça os direitos fundamentais dos cidadãos árabes-palestinos no mesmo nível dos direitos fundamentais dos cidadãos judeus-israelenses; 3) que o direito de retorno dos árabes-palestinos expulsos de suas terras e casas ilegalmente seja protegido, respeitado e incentivado, como estipulado pela resolução 194 da ONU.

Dois de nossos artistas mais conceituados, Caetano Veloso e Gilberto Gil, são dos que acreditam que há como se relativizar a postura do Estado e da sociedade israelenses perante os palestinos. Caetano, justificando sua posição, primeiro diz que não conseguia ver “preto-no-branco” (o uso da expressão parece espontâneo, mas infeliz) um sistema de apartheid na Palestina como houve na África do Sul. De fato, não há registros de caças F-14 bombardeando civis, adultos e crianças, em Soweto. O apartheid israelense, colonizador, se dá ao privilégio de ser bem menos sutil em sua guerra étnica.

Caetano argumenta depois que “tocou nos EUA de Bush, o que não quer dizer que apoiou a invasão do Iraque”. Há, no mínimo, má fé na afirmação. Mas se os artifícios retóricos são permitidos, me permito imaginar um mundo que tivesse peito o suficiente para clamar por um boicote aos EUA à época dos movimentos pelos direitos civis. Se Martin Luther King ou Malcom X houvessem colocado em moção um movimento de boicote ao seu país, teria Caetano furado o boicote aos EUA?

Mas os mundos hipotéticos são outro privilégio daqueles que não são violentados diariamente pela realidade. Todxs nós, eventualmente, descobrimos pertencer a contragosto a estruturas carcomidas pelo que de pior existe nesse mundo. Nós, aqui, também guetizamos favelas, criminalizamos etnias, excluímos e exterminamos todxs aquelxs que não passam nos projetos do futuro[2]. É menos uma questão de classe que uma questão simbólica: quem consideramos descartáveis, quem consideramos invisíveis, quem consideramos removíveis. Se ainda nos falta sensibilidade para perceber algo ao qual reservamos a distância de um oceano e um continente, quanto faltará para que vejamos que nós, também, somos algozes?

Caetano e Gil foram a Tel Aviv e se apresentaram. Se reuniram com Shimon Peres, ex-primeiro ministro israelense, para dizer que estavam contentes por se apresentaram em um lugar onde há esperança e paz, além de, reunidos com um político, afirmarem que sua visita não era política, mas musical, e por isso não podiam se pronunciar. Caetano se limitou a dizer que “a ocupação tem que parar”. Talvez, estando lá, os dois continuassem certos de que não poderiam “punir boa parte do povo de Israel” e, por isso, era imperativo que se apresentassem. Talvez não.

Enquanto isso, outros aniversários se completarão sem que Gaza e o povo palestino deixem de agonizar. Parece ser mais fácil se antagonizar com projetos de colonização, extermínio e apartheid de povos inteiros quando eles se limitam aos livros de história.

Alexandre Branco Pereira é formado em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia pela Universidade de Brasília. Desenvolveu pesquisas sobre Antropologia da Saúde, Gênero e Trabalho, Gênero e Política, Racismo Institucional e Segurança Pública. É autor do livro “Mas é só você que vê?” e mantém o blog http://maisqueousual.wordpress.com/.

Notas:

[1] A Operação foi desencadeada depois de três jovens israelenses terem sido seqüestrados e mortos. Israel imputou a responsabilidade sobre árabes residindo na Faixa de Gaza. Na primeira incursão, as FDI mataram 10 palestinos e prenderam outros 400. Além disso, um grupo de extremistas judeus seqüestrou e queimou vivo Muhamed Abu Khdeir, jovem palestino. A resposta de Gaza veio por protestos em Gaza e na Cisjordânia, além de lançamento de foguetes em direção ao sul de Israel. O governo sionista, então, respondeu com a Operação Margem de Segurança.

[2] O Brasil, além de tudo, é o maior parceiro comercial de Israel na América Latina, fluxo financeiro que inclui cooperação militar.

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Categorias: Mundo, Política, Sociedade

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