Quem ganha e quem perde na política com o acordo nuclear?

*Por Anna Paula Ferrari Matos

Os maiores meios de comunicação mundiais estamparam como manchete de capa na terça feira, 14 de julho, o acordo firmado entre o Irã e os membros do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha – grupo popularizado como P5+1. Apesar das negociações terem ganhado maior espaço na mídia internacional no começo desse ano, o acordo é resultado de um esforço diplomático efetivo de 19 meses – e de um conjunto de sanções impostas pelos Estados Unidos, União Europeia e a ONU, que se tornaram paulatinamente mais severas a partir de 2006 e forçaram o Irã a dialogar. Elas não apenas enfraqueceram a economia doméstica iraniana pela brutal desvalorização do Rial graças ao embargo financeiro, como afetou drasticamente a balança corrente do país [1].

O acordo, no entanto, nunca visou reatar relações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irã, interrompidas em 1979, após a Revolução Islâmica Iraniana. Ou, o que seria mais improvável, voltar a reconhecer o Estado de Israel [2]. Ele somente busca suprimir meios do Irã obter a bomba atômica e, se o restante se mantiver, a política externa do Irã continuará a mesma – os discursos belicosos e ameaças agressivas, tornados emblemáticos ao país pela grande mídia, serão proferidos por pessoas públicas como o próprio Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, e políticos controversos como Mahmoud Ahmadinejad. Mesmo não mirando a esfera política iraniana, o acordo foi capaz de provocar extensas discussões além de seu escopo militar, principalmente no Oriente Médio, e grandes expectativas de mudança e desenvolvimento dentro do próprio Irã.

Não apenas Hassan Rouhani, atual presidente do Irã – um clérigo de visão moderada nas questões sociais – pode se beneficiar do acordo, como toda a ala progressista iraniana. Os conservadores vêm há anos perdendo apoio em grandes centros. Eles são donos de uma fala pró-soberania convergente com o idealismo da revolução islâmica, a ponto de isolar Irã no cenário internacional. Há frustração conservadora com a conclusão do acordo, ainda mais por Ali Khamenei refrear seu próprio discurso revolucionário em prol do acordo nuclear.

A população de grandes centros urbanos, tipicamente mais secular e cosmopolita, é favorável a políticos moderados como Rouhani e não raras vezes insatisfeita com o regime que tolhe liberdades, causa o maior brain drain do mundo, não sabe lidar com a corrupção e que dá má imagem aos iranianos. Quando a apuração das urnas em 2009 mostrou Ahmadinejad como reeleito e a derrota do popular adversário reformista, suspeitas de fraude foram levantadas e todo o país foi tomado por protestos – que por sua vez, foram duramente reprimidos pelo regime. Esses mesmos eleitores que lotaram a internet com fotos comemorando o acordo provavelmente não quererão que o país recaia em isolacionismo novamente no futuro, deixando as decisões do país nas mãos de conservadores. Se mantiverem o espírito de 2009, estarão ainda mais dispostos a exigir reformas.

Já para o lado norte-americano, uma solução diplomática com o Irã pode ser recebida de forma dúbia. A guerra do Iraque é tida como um erro por notória maioria nacional. Custosa, tanto para o tesouro nacional quanto em vidas americanas, é também vista como uma tragédia para o próprio Iraque que hoje se encontra instável e frágil permitindo o surgimento de aberrações como o Estado Islâmico. Mesmo políticos republicanos e celebridades conservadoras admitem o mal da guerra – e aqueles que apoiaram e a possibilitaram no passado adotam um discurso de mea culpa. Isso não significa exatamente que uma alternativa diplomática para lidar com um inimigo nacional seja vista com bons olhos. O problema, neste caso, reside na grande desconfiança do publico norte-americano nos líderes iranianos em cumprir sua parte do acordo.

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Entre o eleitorado republicano, reina o pensamento que o presidente Barack Obama tem uma política externa pouco contenciosa, que diminui a influência americana no Oriente Médio e no mundo. Como a desconfiança no nicho republicano é muito maior, conclui-se que a participação de Obama no Conselho de Segurança das Nações Unidas apenas atrasa uma pressão rigorosa necessária sobre o Irã, ou até uma intervenção militar, mas que serão necessárias quando o país estiver mais poderoso do que agora. Desta forma, a decisão do presidente estaria colocando os Estados Unidos e seus aliados em perigo. Esse é um dos principais motivos pelo qual deputados do atual Congresso americano, de maioria republicana, foram tão enfáticos em dizer, enquanto as negociações estavam em andamento, que o acordo poderia ser anulado no futuro.

Caso a média dos norte-americanos aprovarem a solução diplomática do que recair em incerteza, os democratas podem conseguir uma margem maior de votos nas eleições presidenciais de 2016. Como a administração democrata hoje enfrenta uma reprovação de 49% e uma aprovação de 46% [3], qualquer decisão executiva de grande importância que leve a marca do partido Democrata em contraposição clara a ideias republicanas, como a invasão do Iraque, pode ser decisiva. Caso contrário, quem leva a aprovação é o partido Republicano. Um exemplo de como a discussão será importante em 2016 é de como ficou lembrada a falha de Jeb Bush – irmão de George W. Bush e até então candidato republicano com maiores chances de vitória nas prévias – ao responder uma ácida pergunta sobre a Guerra do Iraque, indo além e dizendo que foi um erro da administração Obama ter retirado tropas. Sem dúvidas esse erro será muito explorado nos debates dos presidenciáveis.

Olhando além do lado doméstico americano e iraniano, há de maneira geral uma grande incerteza em relação ao que tal acordo pode trazer para o Oriente Médio. No caso de Israel, o primeiro ministro Benjamin “Bibi” Netanyahu, líder da coligação de direita no Parlamento, vem há anos fazendo discursos enfáticos sobre o programa nuclear iraniano. E suas manifestações se intensificaram em proporções inimagináveis após a formação do acordo base de 19 meses atrás. Por exemplo, o icônico episódio do discurso em um Congresso americano majoritariamente contra a agenda presidencial, a convite do líder da casa, o republicano John Boehner. A mensagem do Irã como uma potência do mal precisava ser relembrada, mesmo desafiando o próprio presidente americano em sua casa e azedando as relações entre Israel e Estados Unidos. Mesmo assim os apelos de Bibi para incluir Israel no acordo foram, em última instancia, desconsiderados.

O interessante na política israelense, no entanto, é que a opinião sobre o acordo nuclear é a mesma entre os líderes dos maiores partidos. Seja dentro da coligação atual no poder formada por partidos de extrema direita, que compõe personalidades como Naftali Bennett, líder do partido ultranacionalista Lar Judaico, ou Isaac Herzog, de esquerda, maior oposicionista a Bibi e líder do Partido Trabalhista, o consenso é que se trata de um mau acordo. A diferença nas opiniões recai na culpabilidade. Bennett foi claro no passado ao dizer que um mau acordo levaria à guerra – e sua ideia de um bom acordo era muito estrita. Já Herzog parte do princípio que o acordo só não tomou outra forma pelas sucessivas más campanhas de política externa de Bibi que isolou Israel no cenário internacional a ponto de ter sua opinião excluída nas decisões finais. Invariavelmente, opositores continuarão opositores e a controversa coligação de direita permanecerá como está já que as próximas eleições estão distantes. Quanto ao primeiro ministro, que tem de longe como principal característica seu apoio à defesa nacional, as chances são de explorar o acordo nuclear em benefício político próprio. Mas, com certeza, terá que lidar com o desgaste diplomático que produziu ao longo do caminho e uma imagem mais desfavorável de Israel no resto do mundo.

O restante do Oriente Médio é palco de uma pequena guerra fria regional protagonizada justamente pelo Irã de maioria xiita e a Arábia Saudita de maioria sunita. Essa desavença entre as duas potências regionais gera disputas por influência e, suspeita-se sempre, é a razão por detrás de vários dos conflitos da região ou apoios inexplicáveis.

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Para os países da península arábica que fazem parte do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), sob influência saudita, o maior problema do acordo não é o Irã de fato ter poder nuclear ou não. E sim aumentar sua influência regional, pois a suspensão das sanções permitirá uma injeção de bilhões de dólares no país. Discursos de que um Irã mais poderoso irá se expandir e dominar o Iraque de maioria xiita são comuns entre os árabes da península. Vale ressaltar que os países do CCG são muito ricos e tem bons amigos, diferente do Irã [4]. Houve e há conforto em saber que o rival está em piores condições nesses dois quesitos e, qualquer alteração para melhor, causa uma preocupação de perder o poder regional, mascarado de temor pelo empoderamento um país politicamente hostil. Medindo comportamentos condenáveis, ambos Irã e Arábia Saudita têm esqueletos no armário. Efetivamente, um Irã sem sanções não vai poder parar a missão militar saudita no Iêmen ou secar a fonte de petrodólares dos países da península arábica. Os países árabes também não perderão o apoio americano por conta do alívio de sanções impostas pelos Estados Unidos. No cenário político, prejuízos são praticamente impossíveis, uma vez que a Arábia Saudita é uma monarquia absolutista de alto apoio popular. Simplesmente, o equilíbrio de poder no Oriente Médio será alterado.

*Anna Paula Ferrari Matos é economista formada pela FEA-USP.

[1] Logo após a imposição de sanções pela União Europeia em janeiro de 2012, que congelou ativos do Banco Central iraniano em bancos europeus, o câmbio passou de 10.800 IRR/US$ para 24.770 em questão de dias após o anúncio e a inflação anual avançou de 12,4% em 2011 a 34,7% em 2014. A variação do valor exportado, entre 2014 e 2013, chegou a cair 15% para o mesmo período. Segundo a Organização Mundial do Comércio, o Irã teve uma queda de 21% nas exportações entre 2012 e 2013, uma das maiores do mundo.

[2] O Irã foi um dos primeiros países do mundo a reconhecer o governo provisório de Israel em 1948. O país deixou de reconhecer Israel após a Revolução Islaâmica Iraniana de 1979.

[3] Pesquisa feita periodicamente pelo Gallup Poll.

[4] O Qatar tem a maior PIB per capita do mundo, de US$ 146.000 anuais. O Kuwait segue em 5º lugar, os Emirados Árabes Unidos em 7º, a Arábia Saudita em 11º, o Barhain em 12º e o Omã em 26º. Todos têm fortes relações diplomáticas com os Estados Unidos, sendo considerados aliados no Oriente Médio. Israel, detentor do melhor IDH da região, posiciona-se em 34º lugar no ranking mundial de PIB per capita. Por sua vez, o Irã se posiciona em 70º, 4 posições acima da brasileira (FMI, 2014). Vale lembrar que as massivas reservas e atividade exploratória de petróleo em tais países distorce suas medidas de PIB per capita.

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um comentário em “Quem ganha e quem perde na política com o acordo nuclear?”

  1. 28/07 às 14:25 #

    O acordo é ruim por um motivo bem simples: depende da confiabilidade do Irã… o que, na minha opinião pessoal, é o similar dos acordos fechados com os nazistas. Israel está fora disto. Planeja e tomará as atitudes que forem necessárias para sua própria defesa, apesar das várias teorias sobre a região, existentes em toda parte do mundo.

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