Um olhar à esquerda, entrevista com Guilherme Boulos

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O ato político do primeiro de Maio reuniu, no Vale do Anhangabaú, um amplo espectro da esquerda (CUT, CTB, MST, MTST e outras), o que pode ser visto como uma “frente de esquerda” que vai as ruas. Em sua opinião, que contribuição uma frente como essa traria para o País?

É necessário construir uma frente que unifique os movimentos sociais brasileiros num duplo enfrentamento. De um lado, enfrentar a pauta conservadora do Congresso e o avanço da direita na sociedade. De outro, enfrentar o ajuste fiscal do governo Dilma, que faz os trabalhadores pagarem pela crise. Esta frente precisa apresentar um programa de saída da crise pela esquerda, com reformas estruturais e populares. Achamos que esta é a frente que precisa ser criada, não uma frente eleitoral ou de sustentação de governabilidade.

O que falta para uma frente com esta composição ganhar corpo e influir mais diretamente no cotidiano das disputas sociais e políticas do Brasil?

A frente ainda não está consolidada. Existem debates e iniciativas. Achamos que a via principal é pela ação comum. Não adianta intelectuais sairem escrevendo manifestos e achando que vão unificar a esquerda dessa forma. Podem unificar um pensamento, mas não os movimentos reais. Unidade vai se construir na luta, como foi no 15 de abril e no 29 de maio.

Quais seriam as perspectivas concretas de uma frente de esquerda com essa composição?

A perspectiva central é construir um caldo de mobilização popular que respalde uma saída pela esquerda, que garanta sustentação social a um projeto de reformas. Temos que alterar a correlação de forças. Isso se faz com luta e trabalho de base.

Marta Suplicy, que tinha base na periferia e nos movimentos LGBT, deixou o PT, de que era quadro histórico e deverá encontrar nova morada no resultado da fusão PSB-PPS, movimentação que tem a simpatia de Geraldo Alckmin e do PSDB paulista. Caso seja lançada candidata a prefeitura de São Paulo em 2016, deverá concorrer com Fernando Haddad, que também tem sua base eleitoral na periferia. Na sua opinião, a reeleição de Haddad depende do fortalecimento de sua relação com os movimentos sociais e populares?

Haddad tem feito uma gestão com vários pontos positivos, apesar de também muitos limites e deslizes. Destacaria a disposição de parceria com movimentos para construir habitação, a notificação de terrenos ociosos para IPTU progressivo e o investimento em faixas exclusivas de ônibus. Mas o contexto de São Paulo é adverso, com grande força do antipetismo. Marta embarca nessa onda de forma oportunista. E esse contexto torna muito difícil a reeleição de Haddad.

Algumas organizações sociais, sobretudo movimentos de habitação, identificam que a gestão Haddad estaria muito mais preocupada em implantar em São Paulo o Programa Minha Casa Minha Vida, baseado em verbas federais e na doação de terras municipais, com subsídios estaduais, do que na construção de unidades habitacionais pela própria COHAB ou na reforma de edificações vazias para habitação de interesse social. Qual é sua avaliação sobre a política habitacional da gestão Haddad?

Veja, todas as prefeituras do país deixaram de lado os programas próprios para desenvolver parcerias com o MCMV. É natural, na medida em que há um grande aporte de recursos. O problema, também em São Paulo, é que incorporaram o MCMV – inclusive fazendo aportes complementares – mas sem nenhuma proposta de qualificação. Recebem o programa e aplicam, deixando de lado a oportunidade de incidir na localização e qualidade das habitações. Reproduzem portanto os mesmos vícios do MCMV.

Em 2014, após muitos meses de discussão e tramitação, o novo Plano Diretor de São Paulo foi aprovado e previu mecanismos como a tributação progressiva de imóveis vazios e a criação de Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) em áreas residenciais consideradas nobres, ou de classe média-alta. Em 2015, está em discussão a revisão da Lei de Zoneamento e Uso e Ocupação do Solo. Em sua avaliação, essa nova lei manterá as conquistas do novo Plano Diretor, ou não, e em que medida?

Creio que os vereadores, depois da mobilização intensa de 2014, não vão querer comprar briga de mexer em ZEIS. Se fizerem isso encontrarão uma resistência ainda maior. Estamos atentos.

Na visão do MTST, em que a atual gestão avançou e no que está devendo na relação com os movimentos sociais e populares como um todo?

Já mencionei alguns dos avanços. Poderíamos acrescentar também que melhorou o diálogo com os movimentos. Agora, os problemas também são muitos. A começar pelo secretário de habitação, indicado do Maluf. Não entende nada de movimento social e burocratiza todas as iniciativas. Trabalha para que não avance. É dono de construtora de médio porte do interior e nem conhece a cidade direito. Além disso, há a insistência em políticas privatistas como as PPPs e as OS na saúde e educação. A manutenção da operação delegada com a PM. Outro tema foi não ter revisto até agora os contratos do transporte público e seguir na política de reajuste das tarifas.

Qual sua posição sobre a necessidade de uma contração fiscal por parte do governo na conjuntura econômica atual? Caso esta medida seja mesmo necessária, qual seria uma rota alternativa à proposta pelo governo?

Defendemos que o ajuste teria que ser feito para o outro lado. Ajustando os que nunca foram ajustados. Por exemplo com avanço de medidas como taxação das grandes fortunas, taxação dos lucros dos bancos e de remessa ao exterior, aumento de IOF. Outro caminho é redução dos juros e auditar a dívida pública, maior sangria dos recursos do Estado brasileiro. Mas o governo Dilma tomou o caminho inverso, o do ajuste neoliberal, que precisa ser combatido com decisão pelas forças populares.

O que o Brasil precisa fazer para retomar a trajetória de crescimento econômico com distribuição de renda e redução da pobreza?

Precisamos mexer nas estruturas distributivas da sociedade brasileira. Só estímulo ao crescimento não resolve o problema dos trabalhadores. Crescimento pode vir junto com aumento da desigualdade. Precisamos de reformas estruturais, como a tributária. Hoje os ricos pagam proporcionalmente menos impostos que os mais pobres no país, porque a massa de impostos incide sobre o consumo e não sobre a renda. O sistema tributário brasileiro é regressivo, ampliando a concentração e os privilégios. Este é um ponto chave. Sem mexer nisso, assim como na regulação do sistema financeiro, o Estado brasileiro continuará funcionando como um Robin Hood às avessas, que tira do pobre para dar ao rico.

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Categorias: Política, Sociedade

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