A hipocrisia do debate sobre imigração no Brasil e suas oportunidades

Por André Castro*

 

O debate sobre a imigração para o Brasil vem esquentando nos últimos meses. Segundo o último Censo de 2010, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse número aumentou 86% na última década, chegando a mais de 280 mil pessoas, o que na época representava apenas 0,15% da população composta por estrangeiros – o que é irrisório, se comparado com os níveis observados na Europa, América do Norte e Austrália, por exemplo, que chegam a ultrapassar 10%[1]. Frequentemente, ouve-se o bordão de que os imigrantes “estão roubando o trabalho dos brasileiros”, ou então que não deveríamos receber pessoas que “se tornarão mendigas”, mas apenas trabalhadores qualificados.

Percebe-se que o centro nevrálgico do preconceito são os imigrantes vindos de países menos desenvolvidos (LDCs[2]), como por exemplo, Bangladesh, Nigéria, República Democrática do Congo e o Mali, incluindo outros países africanos, muitos deles enviando populações em situação de refúgio. Mas, principalmente, o que parece preocupar os governantes e parcelas da classe média brasileira é o recente fluxo de haitianos, que vem crescendo bastante e se deve a dois principais fatores: 1) apesar de ter melhorado muito na última década, o Haiti, se não beira o caos socioeconômico, ainda vive imerso em uma crise de subdesenvolvimento que não permite ao povo aspirar a condições melhores de vida; 2) a liderança brasileira na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), em operação desde junho de 2004, permitiu ao povo local se identificar com os soldados e o povo brasileiro, tornando o país um destino idealizado. A arte criada pelo Ministério da Defesa que segue abaixo ajuda a ter uma ideia do papel fundamental do Brasil nesta importante missão.

Minustah

Infelizmente, essa idealização não encontra um reflexo perfeito na realidade, uma vez que, por mais que o Brasil esteja em uma condição de desenvolvimento muito mais favorável que o Haiti, ainda assim somos um dos países mais violentos do mundo: segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), o Brasil é o país do mundo onde mais se mata (mais de 50 mil assassinatos por ano) e é o 18º em termos de índice de assassinatos por 100.000 habitantes (25,2) – o Haiti é o 58º (10,2). Além disso, a recente crise econômica levará a uma queda do produto interno bruto (PIB) em 2015 e a um aumento do desemprego que provavelmente se estenderá até meados de 2016, quiçá até o começo de 2017, quando se projetam que os efeitos recessivos do ajuste fiscal em curso terão se dissipado, podendo o país retomar o curso do crescimento econômico sustentado.

No aspecto demográfico, a população brasileira vem apresentando taxas de crescimento cada vez menores, conforme o gráfico, o que significa que em 2050 o país atingirá seu pico populacional com cerca de 230 milhões de habitantes, e a partir daí haverá uma queda populacional; o que não significa que este momento deva ser esperado para que que haja uma maior abertura das fronteiras. Além disso, em um futuro próximo a Previdência Social enfrentará pressões significativamente maiores, ainda mais considerando que seu déficit (a diferença entre a arrecadação líquida e os benefícios concedidos) já passou dos R$50 bilhões em 2014. Para uma população com uma pirâmide etária, ainda relativamente jovem, conforme o gráfico, o prognóstico é de difícil solução.

Gráfico 1 – Taxa de crescimento da população: Brasil e regiões selecionadas

cresc pop

Gráfico 2 – Pirâmide etária do Brasil em 2015

pirâmide etária

Portanto, sob o aspecto econômico a imigração seria muito importante para revitalizar o mercado de trabalho nacional com mão-de-obra, na média, mais qualificada do que a nacional, o que estimularia a produtividade do trabalho de maneira geral – um índice crucial para o crescimento econômico no qual o Brasil vem decepcionando ultimamente. Justamente porque o país precisa abrir mais sua economia, não podemos continuar perpetuando a tendência do capitalismo de gradualmente quebrar as barreiras à livre circulação de bens, mercadorias e capitais, ao passo que o trabalho continua tendo que enfrentar rígidas barreiras.

Mesmo com toda a polêmica gerada pela pobreza de alguns dos imigrantes, dentre os cinco principais países de origem da imigração para o Brasil, três são desenvolvidos: EUA, Japão e Portugal (que ainda enfrenta efeitos severos da crise financeira de 2007-8 e da crise do Euro de 2010-11). Os outros dois principais países de origem são o Paraguai e a Bolívia, cujas populações frequentemente trabalham nas fazendas de gado e soja dos vizinhos Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além de um contingente expressivo ter se deslocado para as fábricas de tecidos, principalmente na região do Brás, na capital paulista.

Dado que absolutamente nenhuma crítica é vocalizada na mídia ou no meio político contra os imigrantes originários de regiões mais favorecidas, pode-se concluir que, talvez, o preconceito do brasileiro contra os imigrantes seja mais uma questão de classe e de origem socioeconômica do que de pura e simples xenofobia. Se isso for verdade, pode ser que o futuro para a imigração não seja tão sombrio.

De qualquer forma, mesmo que a imigração não representasse ganhos econômicos, o Brasil deve a essa população um tratamento humanitário e com respeito aos direitos humanos. A solução, portanto, passa por um sistema educacional que valorize a origem mestiça do Brasil, com sua enorme diversidade étnica e regional, ensinando o respeito pelas mais diferentes culturas. Além do aspecto interno, uma contínua pressão nos organismos internacionais para que os países desenvolvidos cumpram a meta de alocar 0,7% de seus PIBs para assistência oficial ao desenvolvimento (a sigla que identifica doações internacionais para LDCs) é necessária, junto a um maior engajamento direto por parte do Brasil na área, de modo a reduzir o contingente de imigrantes em situação precária.

É extremamente frustrante e decepcionante ouvir da boca de filhos, netos e bisnetos de antepassados vindos de Alemanha, Itália, Japão, etc. os mais diversos preconceitos e reacionarismo contra os mais desvalidos que se aventuram por mar, ar e terra (incluindo passagens pela floresta amazônica) para tentarem – da mesma forma que seus pais, avós e bisavós um dia tentaram – uma vida melhor e mais digna na terra de oportunidades que o Brasil deve ser.

*André Bueno Rezende de Castro é economista pela Universidade de São Paulo (FEA USP), pós-graduado em Economia pelo Birkbeck College da University of London, mestrando no MSc Globalisation and Development da University of Manchester e membro do ODI Fellowship.

[1] É muito provável, porém, que o Censo reporte um número menor do que o real.

[2] Least developed countries, de acordo com o conceito criado pelas ONU para definir países que exibem os mais baixos indicadores de desenvolvimento socioeconômico do mundo.

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Categorias: Economia, Sociedade

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um comentário em “A hipocrisia do debate sobre imigração no Brasil e suas oportunidades”

  1. 06/08 às 22:12 #

    Nossa, gostei muito, parabéns pelo trabalho!
    Precisamos ver todos os pontos de vista, afim de disseminar todo e qual quer preconceito.

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