A medicina que não cura

Por Alexandre Branco Pereira*

(Foto: Lis Ferla/Flickr)

(Foto: Lis Ferla/Flickr)

Há décadas, vimos acontecer a revolução do Prozac. Seu surgimento (apelidado carinhosamente de happy pills) causou frisson no mercado de medicamentos destinados a tratar condições psiquiátricas. Era a primeira vez, em 1986, que um medicamento arquitetado para combater os sintomas clínicos da depressão causava tão poucos efeitos colaterais. Os tratamentos anteriores (que incluíam no arcabouço terapêutico da psiquiatria métodos como choques elétricos, mutilação cerebral, tortura e pílulas de lítio, elemento tóxico cujo efeito pode causar alucinações) eram extremamente invasivos e humilhantes, e a maioria das vezes mais letais que os sintomas a serem combatidos.

Desde então, houve um boom da terapêutica psiquiátrica. No Brasil, o faturamento com a comercialização desses medicamentos cresceu 138,5% entre 2006 e 2010[1], de acordo com estudo da IMS Health. As cifras sobre as vendas do medicamento cresceram de US$ 271,6 milhões em 2006 para US$ 647,8 milhões em 2010. Nos EUA, maior mercado consumidor mundial de medicamentos psiquiátricos (equivalente a 60% do total mundial), o consumo de antidepressivos em geral dobrou entre 1996 e 2005[2], um mercado que movimenta aproximadamente US$ 10 bilhões ao ano.

Paralelamente (no Brasil, pelo menos desde 1978, com o surgimento do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental), houve uma problematização dos métodos terapêuticos e, em determinada escala, da própria legitimidade do saber psiquiátrico. Todo esse processo político da luta antimanicomial culminou, em 2001, na aprovação da Lei da Reforma Psiquiátrica, que intencionava promover uma desinstitucionalização da loucura, construindo aparatos de cuidado psiquiátrico moldados para agir como os outros agentes da saúde básica, desospitalizando a saúde mental. Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Hospitais Dia, dois desses aparatos pensados durante o decorrer da reforma, se reproduziram pelo país (ainda que atinjam uma parcela consideravelmente pequena – são 2096 CAPS, entre todas suas formas, no Brasil), mesmo sem a reestruturação completa de todas as instituições manicomiais anteriores (como o Hospital Vera Cruz[3], em Sorocaba-SP).

O raciocínio básico que se faz, se você é dos que entendem que há um fenômeno escondido nessas lógicas expostas acima, é de que estamos medicalizando subjetividades. O DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico de Desordens Mentais em português), livro básico da psiquiatria, descrevia 106 distúrbios mentais em sua primeira edição de 1952. O DSM-V, quinta edição lançada em maio de 2013, listava 300 distúrbios mentais[4]. No Brasil, já somos mais de 23 milhões diagnosticados com algum tipo de transtorno mental, de acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria. A medicalização de todo e qualquer comportamento supostamente desviante, a despeito das intenções da Reforma Psiquiátrica, caminha a passos largos.

E a indústria farmacêutica não poderia estar mais feliz. Rivotril, Ritalina, Fluoxetina, Amato, Seroquel, Rupinol, todos remédios de uso controlado que aumentam suas vendas (e prescrições) ano após ano. Remédios esses de ação neurológica real (e que muitas vezes levam à adição, entre outros efeitos colaterais), prescritos após um processo diagnóstico puramente clínico e subjetivo, no qual o psiquiatra atua como o especialista em acertar relações sociais[5] e negocia, junto ao paciente e seu círculo micropolítico, o diagnóstico para o comportamento desviante[6]. A psiquiatria, medicina que adoece, mas não cura, se faz instrumento de uma tentativa civilizatória de pasteurização social.

Há que se entender o debate como uma discussão sobre a própria legitimidade do saber psiquiátrico, além de suas consequências políticas, como bem pontuou Paulo Amarante[7]. A Reforma Psiquiátrica humanizou, sim, a rede de atenção psiquiátrica, possibilitando, inclusive, uma rede de atenção básica. Mas o cenário atual da saúde mental carece de questionamentos maiores, que possam explicar e modificar a tendência de crescimento exponencial de legitimidade da autoridade médica e da indústria farmacêutica, e os efeitos de uma sociedade que medicaliza suas relações.

* Alexandre Branco Pereira é formado em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia pela Universidade de Brasília. Desenvolveu pesquisa sobre Antropologia da Saúde. É autor do livro “Mas é só você que vê?” e mantém o blog http://maisqueousual.wordpress.com/.

[1]Disponível em < http://fenafar.org.br/portal/medicamentos/62-medicaments/809-as-lucrativas-pilulas-da-felicidade-.html?tmpl=component&print=1&page=> – acessado em 19/05/2015.

[2] Disponível em < http://www6.ensp.fiocruz.br/visa/?q=node/4061> – acessado em 19/05/2015.

[3] Disponível em < http://www.cartacapital.com.br/sociedade/em-extincao-manicomios-podem-voltar-disfarcados-7374.html > – acessado em 19/05/2015.

[4]FERREIRA, Carolina M.B., “Nova edição de manual aumenta número de transtornos mentais” – Ciência e Cultura, vol. 65, n. 4. São Paulo, 2013 – Disponível em <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252013000400008&script=sci_arttext > – acessado em 19/05/2015.

[5] LANGDON, Jean. “A Doença como Experiência: a construção da doença e seu desafio para a prática médica”. – Palestra oferecida na conferência 30 Anos Xingu, Escola Paulista de Medicina, São Paulo, 1995.

[6] BRANCO, Alexandre. “’Mas é só você que vê?’ – A percepção social da loucura e o processo de reconstrução do universo simbólico do sujeito diagnosticado”. Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, 2013.

[7] AMARANTE, Paulo. “O homem e a serpente: outras histórias para a loucura e a psiquiatria”. Rio de Janeiro, Fiocruz, 1996.

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Categorias: Sociedade

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2 Comentários em “A medicina que não cura”

  1. 11/12 às 14:05 #

    Não sou médico, sou igualmente cientista social

  2. 11/12 às 14:04 #

    Pergunte a uma pessoa que sofre de algum distúrbio mental a opinião dela a respeito do assunto. Vários medicamentos vieram amenizar o sofrimento, isso é fato. Essa visão da esquerda, baseada em Foucault, não é inteiramente verdadeira. Claro que a indústria farmacêutica fatura com isso, mas as metodologias de diagnóstico avançaram, e novos distúrbios, QUE TRAZEM sofrimento aso pacientes e seus familiares, puderam ser diagnosticados e amenizados com novos tratamentos. A seta é no sentido oposto.

    Quem escreve esses textinhos provavelmente nunca conviveu com um suicida, um depressivo crônico ou um esquizofrênico. Teórico de gabinete, simplesmente. Entre a legitimação do saber psiquiátrico sobre as doenças mentais e a legitimação do discurso sociológico sobre as doenças mentais, os pacientes (que são aqueles que de fato sofrem) ficam certamente com o primeiro. E tb não adianta dizer q a sociedade de hj quer acabar com o sofrimento. Caso o autor tenha um surto depressivo, ou algum parente, irá mudar rapidamente de opinião. O sofrimento dos outros é sempre menos importante.

    Segundo o raciocínio apressado do autor, proporcionar maior qualidade de vida a pacientes com deficiência física também seria uma pasteurização da vida? Dar a chance de um surdo escutar ao usar um aparelho auditivo é pasteurizar a vida? Então pq amenizar a dor de qm produz pouca serotonina é pasteurizar a vida? Permitir que um fóbico social consiga conviver em círculos sociais é pasteurizar a vida? Tratar pessoas com problemas TOC para que relaxarem e possam desenvolver suas outras áreas da vida é um tipo de pasteurização? Se for assim, um dentista que implanta um dente ou coloca uma dentadura está pasteurizado a vida de seu paciente. Agora o seu sorriso será igual ao da maioria, ele não irá mais sentir vergonha, pronto, está pasteurizado.

    Se for assim, como o autor coloca, toda a medicina busca a pasteurização da vida. Desde a implantação de próteses, ao uso de medicamentos para HIV, passando por analgésicos, medicamentos para diabetes etc… Tudo isso busca enquadrar as pessoas na norma (normal uma curva estatística)

    Deve-se perguntar também se as ciências sociais não estão criando uma teoria da conspiração sobre os temas psiquiatricos. Acredito que a pergunta principal deve ser: quais são os fatores sociais que contribuem para o aumento de distúrbios psiquiatricos na atualidade? Os casos aumentaram ou aqueles que não eram diagnosticados passaram a sê-lo?

    Já partir do pré suposto foucaultiano de micropoder, biopolitica e etc e encaixa-los nos dias atuais é apressado e de grande pobreza intelectual. Estamos em outra época, outras técnicas de produção existem, outros meios de comunicação, outros tipos de relações sociais e amorosas, familiares etc. O ser humano é biopsicossocial e responde a estímulos.

    Argumentar a partir do pré suposto de q o diagnóstico médico psiquiátrico tb é equivocado, não parece ser o melhor caminho. Deve-se partir do ponto de vista do paciente. Suas vidas melhoraram? Pioraram? Espero que os autores desse tipo de pensamento nunca tenham os níveis de dopamina, noradrenalina e etc em menores quantidades no cérebro, e não vivenciem o sofrimento que os pacientes psiquiátricos passam.

    Volto a repetir, ou toda a medicina busca a pasteurização da vida ou nenhuma prática médica busca fazê-la. Tratar a psiquiatria como o bode rspiatório é um pensamento muito, muito pobre. O mesmo vale para a indústria farmacêutica. Ou será q eles só ganham $$ com remédios psiquiatricos? Não existe a indústria dos remédios para pressão alta, câncer, problemas respiratórios, glaucoma, gastrite, úlcera, impotência… etc etc etc??? Então vamos de vagar com o andor ao falarmos sobre as doenças psicológicas/ psiquiatratricas.
    A medicina avançou em todos os setores, e a indústria farmacêutica fatura em todos os setores. Do mesmo modo que um diabético passou a ter melhores condiçoes de vida, o depressivo também. E não vejo ninguém falar sobre a indústria da insulina. Apesar dos tipos de diagnósticos diferenciados, as ciências sociais só crê em exames de e desacredita do método do diagnóstico clínico? Então desconfiem também do diagnóstico de prisão de ventre, q também é clínico e depende de uma negociação entre médico e paciente de qual é a normalidade de evacuação de um ser humano. Escrevam um tratado sobre a modificação da evacuação ao longo dos séculos, e digam que quem toma lactipurga está submetido à pasteurização das vida.

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