Entrevista com Luiz Alberto Mendes

Por Veridiana Domingos Cordeiro*

Luiz Alberto Mendes nasceu no início da década de 1950, em São Paulo. Foi condenado a mais de cem anos de prisão por assalto à mão armada e homicídio e cumpriu mais de trinta anos de pena. Nos livros, ainda de dentro da prisão, encontrou um novo caminho. Começou a ensinar, desenvolver oficinas de leitura e a escrever atrás das grades. Em 1979, escreveu o consagrado livro “Memórias de um Sobrevivente”, que foi publicado pela Companhia das Letras em 2001 e já vendeu mais de 20.000 exemplares. É escritor de mais quatro livros (dois ainda não publicados) e foi finalista do Prêmio Jabuti de 2006 com o livro “Às Cegas”.

Gusmão: Pela sua experiência como detento no passado e sua experiência atual como voluntário/educador, você acha que houve alguma mudança institucional na passagem da antiga FEBEM para a “nova” Fundação Casa, em 2006?

Luiz Alberto Mendes: Em relação ao que era, mudou da água para o vinho. Quem tomava conta de nós era a PM, que batia para valer e nos sacrificava o quanto podiam. Não havia nem escola para nós. Mas no espírito, não modificou quase nada porque o sistema de aprisionamento não funciona, a prisão é algo que se constata como falida há muito tempo em termos de reabilitação social. Não posso negar que hoje há mais cuidado. O problema maior é a não alternância de poder, permanece o governador, permanece a mesma cúpula viciada no mesmo sistema.

Gusmão: Como você vê as demolições de estabelecimentos prisionais como a ala D da FEBEM Imigrantes ou o próprio Carandiru, isto é, em que medida, ações como estas são capazes de romper com passados institucionais?

Luiz Alberto Mendes: Em nada. Apenas se esconde acontecimentos que deveriam ser lembrados para que não ocorressem novamente. No Carandiru, o Pavilhão 9 devia ser mantido, seria um respeito aos 111 mortos em 1992 pela PM ensandecida, o passado não deve ser varrido para debaixo do tapete. Tentam, assim, destruir um passado que traz em si profundas lições. Assim como essa ala da FEBEM destruída; já ninguém se lembra dos fatos ali ocorridos, eu mesmo não lembro quase nada, a memória foi destruída com o prédio.

Gusmão: Você testemunhou mecanismos de tortura dentro de estabelecimentos prisionais? Por que você acha que não há denúncias dos egressos acerca dessas torturas? Você acha que há um receio quanto a repressão ou são eventos tão dolorosos que se tornam difíceis de serem expressos e rememorados?

Luiz Alberto Mendes: Não sei bem como estão os Estabelecimentos Penais agora acerca de tortura e espancamento porque não frequento muito e isso é bem escondido. Mas eu apanhei muito em mais de 30 anos de prisão. Minha cabeça parece o mapa do inferno de tantas costuras e cortes; tenho problemas intestinais e de fígado por conta dos incontáveis espancamentos, fui bastante sacrificado. E eu era um preso de bom comportamento, meu negócio na cadeia eram os livros e estudos, dei aulas por quase 10 anos e me tornei escritor dentro da prisão; meu primeiro livro, “Memórias de um Sobrevivente”, saiu dois anos antes de eu ser libertado. A tortura hoje é mais mental. O preso não pode ter nada, por exemplo. Para ter um livro, tem que devolver outro, não pode haver mais que um livro por cabeça; não pode mais haver visitas de amigos, só parentes de 1º grau. Continua a não haver projetos culturais e o preso está submetido à cultura criminal produzida nos presídios.

Gusmão: Como você vê atuação do Estado e da sociedade após quase 25 anos do massacre do Carandiru?

Luiz Alberto Mendes: Para mim, a sociedade continua omissa e o Estado não permite a entrada na prisão de pessoas que querem levar cultura aqui de fora para competir com a cultura criminal lá de dentro. Nesses 25 últimos anos, a prisão foi se fechando mais em nome da segurança. Por conta disso e pelo preconceito aqui de fora, o índice de reincidência sobe exageradamente: para cada quatro que saem, três voltam e se morrer o que ficou, voltam todos; é uma tragédia social. Isso só se resolveria com a sociedade adentrando aos presídios e inspecionando como é gasta a verba pública que deveria ser usada para a reabilitação social, levando cultura e conhecimentos que possam ultrapassar a cultura do crime existente.

Gusmão: Como você acha que os acontecimentos do dia do massacre teriam acontecido se a prisão fosse privatizada?

Luiz Alberto Mendes: Não acredito em prisão privatizada, tendo em vista a ganância e a corrupção do empresário brasileiro. Essa é uma função do Estado.

Gusmão: Como você vê esse movimento de privatização dos estabelecimentos prisionais no Brasil?

Luiz Alberto Mendes: Vejo como busca de lucros em cima da exploração do homem aprisionado. Falta muita cultura e educação em nosso país para que possamos chegar a algo parecido. Não há esse olhar para o outro como alguém que necessita de apoio e confiança para poder refazer sua vida.

*Veridiana Domingos Cordeiro é graduada e licenciada em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e mestre pelo Departamento de Sociologia da mesma instituição. É membro do Núcleo de Estudos em Teoria Social Contemporânea (NETSC- CERU) e assistente de pesquisa da REED/IPEA (Rede de Pesquisa Empírica em Direito). Desenvolve pesquisa nas áreas de Teoria Social, Memória e Violência.

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Categorias: Sociedade

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