Um País em Negação

São tempos de dizer “não”. Afirmando nossa alegria de fazer selfies com PMs na manifestação anti-Dilma, negamos a dor do cassetete, do gás lacrimogênio e dos dentes dos pitbulls lançados ontem pelo senhor Beto Richa (PSDB), governador do Paraná, sobre um grupo de professores que manifestavam-se… afirmando seu direito de demandar… direitos. As cenas do massacre em frente à Assembleia Legislativa do estado se somam às de Richa e assessores comemorando, guardados por vidros, o avanço vitorioso da tropa.

A mobilização dos professores do Paraná é uma entre tantas. Educadores do RS, CE, SC e SP também se mobilizam. Face a sua afirmação, os governadores – e, grande parte da população – cometem seu ato mais cotidianos: negam. Exemplo disso foi Geraldo Alckmin, do mesmo PSDB de Richa, que afirmou que, simplesmente, não havia greve de professores em São Paulo. Negou a greve, assim como negara que haveria falta de água, racionamento, sobretaxa, falha no projeto do monotrilho, falta de materiais nas escolas estaduais… enfim, negou.

(foto: dfactory)

(foto: dfactory)

Enquanto isso, em Brasília tramita o projeto de redução da maioridade penal. Incomodados com a violência no País, clamamos por maior e mais exemplar punição, que, em nossas mentes restritas, resolverão nosso medo cotidiano. Negamos, assim, a tendência em debate nos EUA, por exemplo, de aumentar a maioridade penal e, ao mesmo tempo, ignoramos o fato de que menores de 18 anos são responsáveis por menos de 2% dos crimes no País.

No café da manhã de ontem, fomos brindados com a notícia de que o STF resolveu tirar da cadeia e colocar em prisão domiciliar os empreiteiros que haviam sido presos na Operação Lava Jato. Em condições normais de temperatura e pressão, não precisamos esperar a mesma revolta que tomou as redes e ruas quando a mesma Corte fez a mesma manobra em relação aos réus do mensalão. Assim, povo forte que diz “não”, negaremos a realidade de que a corrupção se faz de corrupto e corruptor agindo em um sistema que permite sua livre atuação.

Na semana que vem, a oposição deve apresentar ao Senado, sob a batuta de Aécio Neves, o pedido de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Subscreve, assim, a certidão de uma oposição que incorpora o espírito nacional: nada afirma, apenas nega.

Beto Richa afirmou ontem, fiel ao seu papel de oposição, que as manifestações dos professores eram obra do PT e da CUT. Ressoa o discurso de parcela da mídia e da população que nega e ignora as críticas à esquerda do governo, como aquelas feitas pelo MTST e por seu líder, Guilherme Boulos, em suas manifestações que, ocupando as ruas de São Paulo viram, na boca da “opinião pública”, imaginária massa de manobra do governo federal.

Silenciosos sobre as empreiteiras, sobre a truculência da PM, sobre uma oposição inócua, sobre absurdos governos estaduais que somem debaixo da gritaria da mídia contra o governo federal, caminhamos em nossa negação e, caminhando, torcemos o pescoço dessa ideia distante que é a democracia no Brasil.

De negação em negação, reafirmamos um Brasil que não é. E, se insistirmos nessa toada, teremos, à mesa, um país que nunca será.

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Categorias: Educação, Opinião, Política, Sociedade

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