Tristeza e revolta no Paraná

Por Caetano Patta*

Hoje, um senhor chamado Beto Richa, governador tucano do Paraná, e o legislativo estadual, que come em sua mão, resolveram dar consequência a um duro ataque aos servidores estaduais. A medida pretende colocar nas costas dos trabalhadores a fatura da má administração do primeiro mandato de Beto Richa, que terminou 2014 com um déficit de R$4,5 bilhões, ainda que as receitas do Estado tenham crescido 42,5% de 2011 a 2014. A alteração de transferência de 33.556 aposentados com 73 anos ou mais do Fundo Financeiro para o Fundo Previdenciário repassa aos servidores estaduais uma conta de 125 milhões de reais anuais, pois o primeiro é bancado pelo governo estadual e o segundo pelos trabalhadores. Os servidores não acreditam que o sistema se sustente, o que colocaria em risco o futuro da previdência. Além da questão previdenciária, se queremos construir uma pátria educadora, é preciso escutar os professores e suas justas demandas.

Em um país com índices educacionais ainda muito aquém do que uma nação que almeja se desenvolver e almeja dar condições dignas de vida para seus cidadãos precisa atingir, o aumento dos salários do professorado nacional é uma pauta que deve estar na ordem do dia. E, como de fato, está: a equiparação dos salários dos docentes dos Ensinos Fundamental e Básico com trabalhadores de igual nível de formação acadêmico-profissional é uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE). Hoje, um professor ganha, em média, só 58% do que ganha um profissional com escolaridade equivalente. Apesar de melhorias na gestão burocráticas serem de extrema importância, a educação no Brasil não melhorará enquanto nossos professores continuarem ganhando quantias que mal lhes permitem pagar suas despesas, quanto mais buscarem um contínuo aperfeiçoamento, o que é essencial para que a qualidade de suas aulas seja maior.

Os professores encabeçaram uma heroica manifestação de 20 mil pessoas em defesa de seus direitos e do futuro do povo paranaense. Quando um professor luta por mais dignidade e pela seriedade no trato com sua previdência, está lutando duplamente pelo futuro. Está lutando pelo futuro das crianças, da formação dos futuros cidadãos que só pode passar por uma educação de qualidade, com professores respeitados em suas condições de trabalho. E também está lutando pelo futuro dos idosos que um dia serão, aposentados merecedores do descanso digno de quem trabalhou a vida toda nos diversos serviços públicos. A greve, a manifestação e a luta são pelo futuro.

O governador Beto Richa (PSDB), e a Assembleia Legislativa paranaense fecham para o povo a casa na qual o povo os colocou, para poderem atacar o povo e seu futuro sem serem importunados pelo… povo. Para garantir, chamam 2.000 policiais com bombas, cassetetes, helicópteros, escudos, balas de borracha e cachorros pit bull. Nem a dignidade desses policiais foi garantida, visto que vieram de municípios do interior que ficaram desguarnecidos e não tiveram suas despesas pagas. O resultado foi um cenário de guerra, uma situação de embrulhar o estômago de qualquer pessoa que, da forma como for, quer o bem de seu país e das pessoas que nele habitam. Mais de 170 feridos se refugiaram na prefeitura da cidade. As aulas na região foram suspensas. Há pessoas feridas por mordidas de cachorros policias. Cinegrafistas feridos em serviço. 17 policiais foram presos por se recusarem a fechar o cerco contra os professores. Até o prefeito de Curitiba, Gustavo Fruet, ex-PSDB e atual PDT, expressou sua indignação e pediu para que o Governador, comandante maior da Polícia Militar, suspendesse o massacre.

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O que Beto Richa faz? Se posiciona. E o faz da seguinte forma: “O pessoal do PT, alguns do PMDB, PSOL e PSTU claro que instigaram. A CUT com presença forte aqui […]. O relato que recebo da secretaria de segurança é que não houve violência. Só contenção de massa”.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) tem que ter “presença forte”. É natural uma central sindical estar presente na ação de categorias mobilizadas em defesa de seus direitos. Está na lei a garantia. Lutamos muito nesse país para que a CUT e quaisquer outras centrais sindicais tenham “presença forte” na defesa de interesses coletivos e em praças públicas se assim julgarem adequado. Os partidos políticos também. Na democracia tem que ter. Na ditadura não tinha. Essa é a diferença. Mas o mais assustador nisso tudo é essa narrativa que está ganhando espaço no País, em que tudo virou culpa do PT, da CUT, do PSOL, do PSTU, enfim da esquerda – até alguns do PMDB são acusados. Richa é responsável direto por mais de 170 feridos – professores, trabalhadores, gente que recebe pouco e trabalha muito pelos filhos de todo mundo – e fala em “culpa dos manifestantes”.

Eis um trecho da nota abjeta do governo paranaense: “O radicalismo e a irracionalidade de pessoas mascaradas e armadas com pedras, bombas de artifício, paus e barras de ferro, utilizados contra os policiais, são responsáveis diretos pelo confronto que se instalou na Praça Nossa Senhora de Salete. Lamentavelmente, pelo menos 20 policiais e quatro manifestantes saíram feridos”. O número de manifestantes na verdade é mais de 70 vezes o noticiado pelo governador.  O desrespeito com a população é gritante. Basta verificar as dezenas de vídeos que já estão na internet para identificar quem saiu ferido, física e moralmente. E é incrível como, no cinismo, é possível os insultos voltarem a quem os profere. Nada mais semelhante com a Policia Militar do que “o radicalismo e a irracionalidade de pessoas mascaradas e armadas”.

É urgente defender a democracia e defender o futuro. É urgente denunciar os inimigos da democracia e do futuro. O dia de hoje merece, como resposta, uma grande mobilização nacional em solidariedade ao povo paranaense e como sinalização para todos aqueles que quiserem mexer nos direitos dos trabalhadores. Infelizmente, está na moda.

*Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e mestrando do programa de pós-graduação do departamento de Ciência Política da mesma instituição.

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Categorias: Educação, Política

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2 Comentários em “Tristeza e revolta no Paraná”

  1. Leila Souza
    30/04 às 23:03 #

    Parabéns pela clareza, conhecimento e lucidez contidas no seu texto.

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  1. A greve dos professores no Paraná e a defesa da democracia - 30/04

    […] Este texto é uma colaboração do site O Gusmão. […]

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