Sacolas plásticas e liberalismo

Por Diogo Bardal*

É sintoma evidente da dissonância entre o pensar e o agir estomacal do brasileiro a última polêmica a respeito da implantação das sacolas plásticas padronizadas na cidade de São Paulo.

Para quem assistiu ao filme “Beleza Americana”, não há como não se lembrar da cena um tanto quanto pretensiosa em que o personagem filmava intrigado o balé nadificante da sacola plástica ao vento, a imprevisível beleza no movimento de um objeto prosaico, invólucro do lixo na sociedade industrial. O saco plástico é um artefato indissociável da vida urbana, em que a comida se reproduz magicamente no supermercado, sem aparente ligação com o ciclo agrícola.

Indiscutível que a sacola plástica é parte do problema ambiental, da nossa relação com o resíduo sólido, de como usamos racionalmente os recursos naturais. Mas quando falamos de mudança de comportamento, por mínima que seja, é comum ouvir que a mudança é boa desde que eu não precise mudar, e que a mudança, se chegar, chegue longe do meu quintal. Os relatos raivosos dos consumidores nas portas dos supermercados, ao descobrirem que terão de pagar 5, 10, 15 centavos pelas “malditas” sacolinhas que antes recebiam grátis, tornaram-se, enfim, parte do debate público atual, que vai desde a acusação de ganância dos empresários à crítica à iniciativa da regulação em si.

Se há um ponto defensável no discurso liberal-econômico, aquele que vem ganhando tanto espaço na imprensa, com seus coordenadores de araque a vociferar contra o fantasma do comunismo no Brasil, é a ideia de que o sistema de preços possui um componente informacional sui generis na organização da economia. O sistema de preços condensa uma série de informações, desde os custos de produção, relações de trabalho, mercado e sociedade até as relações dinâmicas de curto prazo entre a oferta e demanda. Dito de outro modo, aqueles centavos do preço da sacola plástica sinalizam que aquele artefato tem um custo, e que, portanto, deve ser usado com moderação. A sacola grátis era nada mais que o “almoço grátis” que consumidores antes recebiam.

É um argumento defensável pois é difícil encontrar outros mecanismos de alocação que juntem tantas informações de uma só vez. Quase todas as outras instituições do capitalismo encontraram um substituto imediato no socialismo real: a propriedade privada deu lugar à propriedade estatal; o parlamento foi substituído pelo partido único; a mão invisível deu lugar aos Planos Quinquenais. No entanto, não se encontrou substituto ao sistema de preços. Na União Soviética, a burocracia estatal buscou ativamente mimetizar o sistema de preços para garantir a produção nas matrizes de insumo-produto. A diferença é que enquanto no capitalismo o sistema se organizava espontaneamente (ou quase espontaneamente), no socialismo real ele se organizava por meio de um modelo matemático do planejador. Na verdade grande parte da produção científica dos economistas soviéticos dos anos 1960 a 1980 serviu para entender como, matematicamente, ocorriam os processos dinâmicos de formação de preços no ocidente.

O insucesso econômico da experiência do socialismo real no fim do século XX se explica pela incapacidade de capturar por completo o elemento informacional que o sistema de preços tem no capitalismo. Os modelos da época dificilmente davam conta de programar e incubar processos complexos de inovação tecnológica no seio da economia. Nessa época a teoria de sistemas dinâmicos não-lineares ainda não estava plenamente desenvolvida no âmbito da matemática pura, que dizer então da matemática aplicada.

O sistema de preços tem, portanto, uma função fundamental principalmente nas transformações econômicas estruturais, como é o caso da economia verde ou de recursos renováveis. Nos próximos anos, será necessário converter grande parte da capacidade instalada mundial, um esforço enorme que não ocorrerá apenas com boa vontade política e jardins verticais. Se tais incentivos estiverem estruturados de uma maneira a esconder ou subsidiar o custo da tragédia ambiental mundial que é a gestão de resíduos sólidos urbanos, muito provavelmente o colapso econômico que nos espera será ainda maior que o do socialismo real.

Reconhecer a força desse argumento liberal, no entanto, não é retirar a prerrogativa do Estado de interferir e regular o mercado, até porque o próprio mercado tende a engendrar falhas que corrompem o sistema de preços, na figura dos monopólios e de socialização de custos individuais. Aliás, ao formular alternativas que se baseiam na taxação, como o imposto de Pigou, para lidar com as questões ambientais, os economistas recorreram justamente a ele: o Estado.

Dito isso, o cidadão deverá separar o cérebro do estômago: se ele pagar pelas sacolas, muito provavelmente vai usá-las com mais parcimônia, além de estimular a sua mudança de comportamento, lá na ponta, pois no final isso também vai ajudar a dar força às empresas e cooperativas envolvidas na cadeia de reciclagem, por meio do aumento de oferta de lixo separado, pressionando o poder público a estruturar melhor a coleta seletiva.

A próxima vez que se ver uma sacola biodegradável voando ao vento, além de lembrar o rapaz de Beleza Americana (e que os anos 90 acabaram!), em vez de praguejar contra os centavos desperdiçados e do almoço grátis que não volta mais, talvez possa também lembrar da beleza do sistema de preços – mas isso talvez seja até mais pretensioso que o filme.

*Diogo Bardal é economista pela FEA-USP, bacharel em Administração Pública pela FGV-SP e mestre pela Universidade de Siena (Itália). Estuda o modelo econométrico de correção de erros aplicado a commodities agrícolas.

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Categorias: Cidades, Meio Ambiente, Sociedade

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