Hoje, 24 de abril, é dia de perguntar: quem fez minhas roupas?

Por Monyse Almeida*

Há dois anos, o mundo assistiu à catástrofe do Rana Plaza, em Bangladesh. Na periferia de Dhaka, um prédio de oito andares que abrigava confecções desabou no dia 24 de abril de 2013. Os números são estarrecedores: mais de 1.100 trabalhadores mortos e outros 2.500 feridos.

A fotógrafa bengali Taslima Akhter, acompanhando o resgate das vítimas em meio aos escombros, registrou aquilo que sensivelmente Eliane Brum chamou de “último abraço em Bangladesh”.

Foto: Taslima Ahkter

Foto: Taslima Ahkter

A foto deixa um tom amargo na boca, aperta o coração e chega a arrancar um pouco da fé na humanidade. Choramos sangue. Sem dúvidas. Em pensar que foram milhares de trabalhadores, de verdadeiros artesãos, de habilidosos costureiros que, apesar da notória informação para desocuparem o espaço, foram obrigados a manter as suas máquinas de costura em pleno funcionamento.

Passados dois anos do desastre, acordos de saúde e segurança ao trabalhador foram assinados e implementados; o proprietário do prédio, Mohammed Shoel Rana, e outros estão respondendo por homicídio e também foi criado o Rana Plaza Donors Trust Fund, um fundo de compensação e apoio às vitimas, que conta com doações voluntárias de marcas que produzem em Bangladesh (grandes do varejo internacional já contribuíram).

No entanto, como bem salientou Eliane Brum, o problema no mundo globalizado é que, se seguimos a cadeia de produção da moda e de responsabilidades, ela chega até nós. Querendo ou não, com mais ou menos consciência, cada um de nós está envolvido na tragédia de Bangladesh.

Não se pretende aqui minimizar, muito menos negar a responsabilidade imediata dos impactos negativos impostos pelo ritmo fast fashion das grandes do varejo. Grosso modo, fast fashion significa uma produção rápida e contínua de novidades com menor qualidade e por preços mais acessíveis, é uma estratégia integrada dos setores de confecção, logística e finanças, que permite que, como diz o CEO da Riachuelo, no prazo de 10 dias se complete o ciclo de criação, produção e distribuição de uma peça de roupa até estar na arara de uma loja pronta para o consumo.

Esse sistema de produção requer coleções compactas e lançamentos constantes, retirando das araras o que “não vende” e repondo pelo que “vende”, em resposta rápida aos consumidores. Muitas vezes, as coleções não dialogam estritamente com as estações do ano como é de costume para o mundo da moda.

Esse movimento é criticado por gerar roupas quase que descartáveis e todos os impactos ambientais decorrentes do descarte tanto pelas lojas que tem que dar destinação correta para as peças que não foram vendidas, quanto pelos consumidores que usarão poucas vezes (pela qualidade e imagem das peças). Para que esse modelo produtivo seja vantajoso, essas peças devem ter custos ínfimos para empresas (não necessariamente para o consumidor – veja aqui as condições de trabalho de oficinas que costuravam para a grife de classe alta Le Lis Blanc em 2013) e toda a cadeia produtiva fica pressionada.

No entanto, não sejamos tão pessimistas a ponto de desacreditar no poder das escolhas individuais no cenário macro. E, nessa linha, o discurso poderia ser de customizar (transformar a calça em shorts), reciclar, pensar em novas combinações, trocar, doar, garimpar peças em brechós etc. Enfim, são atitudes criativas e de alto valor social que permeiam a lógica de que nós, enquanto sociedade, não precisamos de mais roupas, precisamos sim é circular – em todos os sentidos – as que já existem.

Nós, enquanto consumidores, financiamos sabe-se lá quais condições ambientais e sociais tanto de produção do tecido quanto das condições de trabalho de costureiros. É aí que está a perpetuação do nosso modelo econômico e o maior dos problemas – problema este que transcende o universo da moda: somos induzidos à alienação do processo produtivo e condicionados ao consumismo exagerado. Parar de comprar, comprar somente o essencial ou boicotar algumas marcas pode ser algumas atitudes de consumidores mais conscientes, porém tais atitudes, per si, não são capazes de solucionar as mazelas.

A preocupação em vestir uma roupa bonita em seus mais variados sentidos tomou coro forte após a catástrofe do edifício em Bangladesh. O 24 de abril passou a ser símbolo da Revolução da Moda (Fashion Revolution), com o objetivo de se evitar mais acidentes do gênero, bem como evitar que essas mortes caiam no esquecimento da mídia, das indústrias e de todos nós, consumidores. O movimento objetiva sensibilizar e conscientizar a sociedade e os agentes da indústria têxtil e de moda quanto ao verdadeiro custo e ao impacto social e ambiental de seus processos, desde a extração da matéria-prima até o consumo. Ele foi criado em Londres por duas designers e ativistas da moda sustentável (a britânica Carry Somers e a italiana Orsola de Castro) e atualmente já foi disseminado em mais de 70 países. A principal ação da campanha acontece nas mídias sociais: cada participante posta uma foto de si mesmo, usando uma de suas roupas favoritas, vestidas pelo avesso e com a etiqueta aparecendo. Na legenda, o participante pergunta “quem fez minhas roupas?” (“who made my clothes?”), usando as hashtags #fashrev, #whomademyclothes e #quemfezminhasroupas, além das hashtags relativas à marca que está sendo questionada.

Acesse à página do evento no Facebook “aqui”.

A data ainda será marcada por diversas discussões e intervenções em várias cidades do Brasil (leia mais emhttp://fashionrevolution.org/country/brazil/). Que o afetuoso abraço registrado pela fotografa bengali não se repita em nenhum lugar do mundo e que nos sirva de impedimento para o consumo irresponsável.

*Monyse Almeida é advogada formada pela PUC-SP e cofundadora da Alinha – tecnologia social para cadeia da moda (www.alinha.me). 

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Categorias: Mundo

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