Os horrores do Estado Islâmico: a responsabilidade do mundo

Por Priscila Villela*

As barbaridades cometidas por agentes do Estado Islâmico estão todos os dias estampadas nos jornais. São crianças enforcadas, meninas estupradas, homens decapitados, populações inteiras massacradas, monumentos históricos destruídos, tudo isso com o devido registro e divulgação via internet. Afinal, de que adiantaria fazer tudo isso sem que o mundo ficasse sabendo? O que o mundo tem a dizer, ou melhor, será que o mundo tem algo a fazer em relação a isso?

O Estado Islâmico (EI) nasceu como uma dissidência da Al-Qaeda iraquiana, dirigida por Abu Bakr al-Bagdadi. Seu objetivo é criar, como o próprio nome indica, um novo estado que eles chamam de califado, sob a liderança e califado de Abu Bakr al-Baghdadi. Desde os levantes populares contra o regime de Bashar al Assad na Síria, o EI também se expandiu à Síria, misturando-se aos opositores do governo. O grupo tenta resgatar as tradições dos tempos de Maomé, implementando princípios da Sharia[1], em que bebidas alcoólicas, drogas, internet e culto a outras religiões são proibidos nestes territórios ocupados.

Vale lembrar que o nome adotado pelo grupo não pode nos induzir a pensar que ele reflete o pensamento e os anseios do povo islâmico no Oriente Médio e no mundo. O Estado Islâmico não representa os muçulmanos no mundo, mas sim uma pequena parte fundamentalista deles. Os diversos grupos muçulmanos (e é importante que isso fique claro) são igualmente vítimas deste grupo.

Os combatentes foram recrutados de diversas partes do mundo. As motivações para isso são diversas e difíceis de entender.  Segundo alguns especialistas, esses jovens, muitos europeus, cresceram sendo hostilizados em seus países, sofrendo com a xenofobia dado sua origem familiar estrangeira. E diante da ilusão apresentada pelo EI, encontram ali uma oportunidade de reafirmar suas origens ou de garantir sua ascensão econômica e política. Contudo, o fato de jovens estrangeiros serem recrutados por essa organização não significa, como a imprensa por vezes dá a entender, que o Estado Islâmico tenha algum tipo de projeto de domínio internacional. O Estado Islâmico, como supracitado, tem como objetivo criar um califado, ou um Estado, próprio.

O Estado Islâmico, diferentemente da Al Qaeda que vivia de doações internacionais, é um grupo que se auto sustenta. Sua principal fonte de renda é o petróleo, dado que hoje dominam áreas que abrigam algumas das maiores reservas do mundo. Uma pesquisa realizada pela Bloomberg em Outubro de 2014, concluiu que o EI lucra cerca de US$ 2 milhões por dia. Como este petróleo é vendido no mercado negro, é uma importante questão. Acredita-se que o território turco também possa ser usado como rota da comercialização do petróleo explorado pelo Estado Islâmico no mercado negro.

A razão para assunção do EI no Iraque e a possibilidade de dominarem áreas produtoras de petróleo tem relação direta com o que o país vem vivendo na última década.  Os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 e derrubaram o governo sunita liderado por Saddam Hussein e implementaram em seu lugar um novo governo xiita. Descontentes com o novo governo, parte da população sunita do Iraque reagiu positivamente à entrada do Estado Islâmico no Iraque. Com facilidade, ampliou suas forças, venceu batalhas contra o exército iraquiano e dominou bases militares deixadas pelos Estados Unidos. Em razão disso, o Estado Islâmico possui armamentos extremamente sofisticados e lutam contra grupos locais carentes de recursos. O exército iraquiano, por sua vez, encontra-se empobrecido, contando com uma frente de combate de cerca de 48 mil homens, contra os quase 210 mil que tinha em seu auge, em 2009.

De acordo com dados de agosto de 2014, estimados pela inteligência dos Estados Unidos, o Estado Islâmico tinha  31,5 mil integrantes, sendo 15 mil estrangeiros de 80 países, incluindo 2 mil ocidentais, muitos destes veteranos de outros conflitos. O Pentágono chegou a descrever as forças do EI, nas palavras do comandante William Mayville, como “extraordinariamente bem organizados, bem equipados, sabe coordenar suas operações e até agora tem mostrado capacidade de atacar em múltiplos eixos. E isso não é pouca coisa”.

Para saber mais:

O EI quando avançou pelo Iraque, conquistou a região de Mosul, uma das maiores e mais prósperas cidades iraquianas em petróleo. Esta região faz parte da área do território curdo. Os curdos são a maior população sem Estado do mundo –  cuja reivindicação pela construção de um Estado próprio ocorre há séculos sem sucesso. Os governos da Turquia, Síria, Irã e Iraque são os principais opositores da independência dos curdos, já que perderiam áreas de seu território. Em razão disso, esta região tem dificuldade de receber ajuda externa para combater o Estado Islâmico, já que armá-los seria de alguma forma contribuir para o movimento separatista no futuro.

Se o mundo tem capacidade de fazer alguma coisa em relação a isso, até agora não fez o suficiente. O Conselho de Segurança, no âmbito do sistema ONU, é o órgão com a prerrogativa de determinar  a existência de uma ameaça à paz e à segurança internacional. Na identificação de um ato de agressão, o Conselho de Segurança exige a resolução pacífica do conflito entre as partes e, caso não obtenha sucesso,  tem o poder de aplicar medidas coercitivas sobre o agressor, medidas estas que podem variar entre sanções econômicas e ações militares, assim como  intervenções humanitárias.  Para que estas medidas sejam aprovadas, são necessários 9 votos favoráveis dentre os 15 membros que ocupam os assentos do conselho, com exigência de voto afirmativo de todos os membros permanentes (Rússia, Estados Unidos, França, Reino Unido e China), o que significa que a recusa de um veta qualquer decisão deste órgão. Neste cenário,  o Conselho de Segurança, desde o início da crise na Síria, mostra-se paralisado. As cinco grandes potências com poder de veto, dados seus interesses particulares na região, têm tido pouco sucesso em decidir sobre uma ação única e conjunta contra o Estado Islâmico.

Os Estados Unidos se declararam abertamente contra e disponíveis para uma ofensiva organizada por meio de uma ampla coalizão internacional, provavelmente temerosos em repetir os erros cometidos no Iraque em 2003. Sem sucesso, os Estados Unidos vêm realizando ataques aéreos e lançaram armamentos por via aérea aos curdos, sem consentimento do Conselho de Segurança, mas ainda assim insuficientes para causar um dano fatal ao Estado Islâmico.

Embora os Estados Unidos se responsabilizem por manter o Iraque estável apoiando o governo iraquiano – já que foram eles mesmo que o empossaram – o mesmo não se aplica à Síria. Desde os levantes populares de 2011, os Estados Unidos vem se posicionando claramente contrários ao regime ditatorial de Bashar al Assad, de forma que combater o Estado Islâmico não poderá, de nenhuma maneira, legitimar ou fortalecer o governo de Assad.

Aliás, segundo Assad, “algumas vezes você pode ter benefício local, mas no geral, se você quer falar em termos de Estado Islâmico, na verdade o Estado Islâmico expandiu desde o começo dos ataques aéreos”.

A Rússia também se comprometeu a combater o Estado Islâmico, mas é uma das principais aliadas do governo Bashar al Assad e continua a fornecer armamentos às forças militares sírias. A dificuldade de consenso entre os Estados Unidos e a Rússia no que diz respeito a quem apoiar na luta contra o EI se reflete na paralisação do Conselho de Segurança. Qualquer proposta real de intervenção resultaria em veto de uma das partes, o que vem de fato ocorrendo desde o início da crise na Síria.

A Turquia é grande opositora do regime de Bashar al Assar, mas também é uma das maiores repressoras do movimento separatista curdo. Apoiar o combate ao Estado Islâmico pode significar o fortalecimento do exército curdo, os peshmerga e, possivelmente, impulsionar o movimento de autodeterminação e independência do Curdistão. Em razão disso, o país tem assumido um papel um tanto controverso nessa crise. A Turquia vem servindo de corredor de entrada de soldados europeus recrutados pelo Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Como já mencionado, acredita-se que o território turco também possa ser usado como rota da comercialização do petróleo explorado pelo Estado Islâmico no mercado negro.

O Reino Unido, a França e a Itália, por outro lado, têm apresentado uma proposta única. Independente do aval do Conselho de Segurança, estão enviando armas para o exército curdo, os peshmerga. Curiosamente, o Irã também vem assumindo um importante papel no Iraque no combate ao Estado Islâmico em coordenação com os Estados Unidos. Forças iranianas forneceram treinamento,  ataques aéreos e armamentos ao Iraque.

É claro que as intervenções humanitárias da ONU não garantem sucesso à construção da paz e  resguardo de direitos dos povos envolvidos, necessariamente. A construção da paz por meio das intervenções da ONU busca, na realidade, uma paz muito específica: a chamada paz liberal, que estabelece uma determinada forma de governo, com uma determinada política de mercado. Ela é estabelecida por meio da constituição de instituições e de um poder monitorado internacionalmente que deve estabelecer um marco regulatório que permita a governança da política aos moldes de uma democracia ocidental e da economia em termos liberais, muitas vezes condicionados a exigências do FMI ou do Banco Mundial. A paz liberal resulta, portanto, em instituições e marcos regulatórios construídos “a partir de fora” e que não atingem os indivíduos.

A questão é que a ONU e o Conselho de Segurança se sustentam sobre o discurso da segurança humana, mas é evidente a seletividade de onde e como intervir nas tantas crises que se passam no mundo. Isso porque o discurso da intervenção humanitária, na prática, é resultado de decisões que se encontram no campo da política e que contam com cálculos estratégicos dos países envolvidos, levando em consideração o poder e a segurança de seus próprios estados decisivos antes de tudo.

Como resultado, enquanto cada país calcula ganhos e perdas econômicas e geopolíticas na região, o EI tortura, queima, decapita, estupra e destrói vidas inocentes do povo sírio, iraquiano, curdo, egípcio e libanês.  O Conselho de Segurança do sistema ONU, mantenedor da paz e da segurança internacional, está gravemente falhando enquanto tal.

[1] um sistema rígido de leis religiosas islâmicas e ainda em vigor entre os fundamentalistas hoje.

*Priscila Villela é formada em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), mestre em Relações Internacionais no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) e desenvolve pesquisa sobre Tráfico de Drogas e Segurança Brasileira e Sul-Americana.

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Categorias: Mundo

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