A esquerda acarpetada

Por Alexandre Branco Pereira*

(E/D) Senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, e José Sarney (PMDB-AP) conversam com o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante sessão especial destinada a comemorar os 25 anos da Constituição (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

(E/D) Senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, e José Sarney (PMDB-AP) conversam com o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante sessão especial destinada a comemorar os 25 anos da Constituição (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

A crise política que assola o PT tem retirado de seus fronts inclusive os mais fieis aliados. Consegue-se encontrar dezenas de exames de consciência de petistas e apoiadores. Muito pela falta da figura carismática do ex-presidente Lula, retentor de apoio popular mesmo em momentos difíceis de seu governo, mas também pela embicada à direita que a presidenta Dilma desenhou no início de seu segundo mandato.

Um dos apoiadores históricos a problematizar o próprio governismo foi Mino Carta, diretor de jornalismo do periódico Carta Capital. No artigo, intitulado “Só a ideia sobrou”, Mino discorre sobre as conjunturas políticas que forjaram e viabilizaram politicamente o que se reconhece como a esquerda brasileira partidária, com especial enfoque ao partido destinatário de sua análise, o PT.

O exercício de reflexão que Mino sugere é o de que, às faces de uma não esperada (por quem?) guinada à direita de Dilma Rousseff assim que consumada a sua reeleição, consumou-se a derrocada moral e ideológica do Partido dos Trabalhadores. Para Mino, entusiasta de Lula mesmo após a Carta aos Brasileiros em 2002 (que, basicamente, renunciava à intenção de auditoria da dívida pública brasileira e demonstrava respeito à ordem jurídica e financeira do chamado Estado Democrático de Direito), e entusiasta das duas candidaturas da atual presidenta, enfim descortina-se, 12 anos depois, o destino da empreitada petista no poder: o de um partido de contracultura, absorvido pela cultura política institucional; um partido de ruas que agora se regozija nos gabinetes aveludados.

Ainda segundo Mino Carta, esse seria o “lamentável enredo de um partido que por 22 anos viveu dignamente, como exemplar único na história política brasileira, e, alcançado o poder, porta-se como todos os demais, clubes voltados aos interesses pessoais dos seus líderes”. E é nesse momento que as questões mais inquietantes começaram a aparecer. Para o diretor de redação da mais governista das revistas brasileiras (mais uma vez, a despeito das pontuais opiniões contrárias), entre o ano de 1980 e o de 2002, o PT viveu dignamente para, quando alçado ao poder, ter se corrompido.

Em primeiro lugar, deve-se questionar o porquê de, depois de a construção da aliança para a eleição de Lula ter trazido o maior industriário de Minas Gerais para ser seu vice-presidente (do famigerado Partido Liberal), além da já citada Carta aos Brasileiros, que rezava pela tão criticada ortodoxia econômica, Mino Carta ainda demorou 12 anos para se pronunciar sobre a derrocada que ele diz perceber desde o princípio. Plínio de Arruda Sampaio, a quem eu costumo recorrer para fornecer exemplos, já havia o feito em 2005. Sem falar nos trotskistas na debandada do PCB, que nunca mais compôs chapa com o PT após 2002; a migração em massa de quadros históricos do partido para outros partidos de esquerda, como Ivan Valente, Chico Alencar, Milton Temer, e o próprio Plínio de Arruda Sampaio; a preferência da cúpula do partido, em 2005, por proteger e blindar quaisquer envolvidos em casos de corrupção, como os citados Delúbio Soares e José Dirceu, enquanto Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro haviam sido expulsos por votar contra uma reforma da previdência de claras tendências neoliberais; onde estava a voz de Mino Carta à época?

O pacto de governabilidade, parte dos exames de consciência atuais, é anterior ao governo.

Mino clama que a experiência do poder mostrou só que “quem sonhou com um partido revolucionário e anticapitalista apostou errado, está claro”. Não agora, Mino. Não porque você está dizendo. Não porque a esquerda fascinada pelas “instituições democráticas” está desiludida. O PT, como via de esquerda institucional, vem se desconstruindo há tempos, pois o pacto de governabilidade é anterior à eleição de 2002. O PT, como via de esquerda institucional moralmente inatacável, se desconstruiu enquanto você ainda sonhava com as maravilhas que Lula, seu amigo há 38 anos, poderia fazer.  Os caminhos escolhidos pelo Campo Majoritário para viabilizar um projeto de governo em detrimento de um projeto de Estado foram os mais sórdidos possíveis, e não posso acreditar, ainda mais com seu próprio texto atestando repetidamente sua proximidade ao projeto do PT, que você passou alheio a essas discussões quando de seus acontecimentos.

André Dahmer, "Malvados"

André Dahmer, “Malvados”

Há vozes, e junto-me ao coro, que já vinham falando isso há tempos. Essas vozes, enquanto o pacto de governabilidade funcionava e trazia louros para o governo e seus parceiros, foram tachadas de “a esquerda que a direita gosta”. Estávamos desconstruindo o sonho da esquerda; dividíamos, enquanto o projeto pedia união. Enquanto isso, o pacto de governabilidade que, teoricamente, viabilizava o sonho da esquerda, empoderava (dando voz, palanque, verbas e guarida na base governista) criaturas como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Valdemar Costa Neto, Roberto Jefferson, Chalita, Kassab, além de inimigos históricos, como Delfim Neto, José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor de Melo, pra citar alguns. Hoje, ao contrário da esperança de 2002, temos uma turba fascista e conservadora sob as asas do governo que vai muito além de ter Joaquim Levy, Gilberto Kassab e Kátia Abreu como ministros de Estado. A esquerda de gabinete, engravatada, empoderada, acarpetada, defendida tão arduamente por intelectuais do nível de Mino Carta, é a verdadeira esquerda que a direita gosta.

*Alexandre Branco Pereira é formado em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia pela Universidade de Brasília. Desenvolveu pesquisa sobre Antropologia da Saúde. É autor do livro “Mas é só você que vê?” e mantém o blog http://maisqueousual.wordpress.com/.

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Categorias: Opinião, Política

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