Reflexões sobre os movimentos políticos atuais

Por Laís Azeredo*

“Pessoas que a vida toda ficaram longe dos protestos públicos vinham agora participar do assédio à delegacia e gritar ‘matem o bastardo’, preparadas para a vigília pelo tempo que fosse. Por quê? Estavam atrás de alguma outra coisa além do confinamento seguro de um inimigo público […]” (BAUMAN, 1998, p. 17)

O que motiva milhares de pessoas, que nunca se envolveram em protestos, que sempre foram contra manifestações – porque atrapalham o trânsito, dificultam o deslocamento de ambulâncias e atrasa a vida dos “cidadãos de bem” – a decidir ir às ruas e exercer seu papel como cidadão atuante em um país democrático?

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Indignação com um governo corrupto – como vários outros; revolta contra os escândalos vindo à tona e com a chamada corrupção institucionalizada – já que antes a roubalheira era mais escondida ou menos investigada; decepção frente às medidas antipopulares tomadas por um governo que dava esperança de uma guinada à esquerda, que descumpriu promessas de campanha e que foi contra os interesses da classe trabalhadora que o elegeu; chateação com a vitória dos “petralhas”, porque Aécio deveria ter ganhado e “eu não aceito perder”; desprezo aos “petralhas”, “esquerdopatas”, “abortistas”, “feminazis” e apoio ao retorno dos militares, porque traria mais honra e ordem a esse “paisinho”.

Não faltam razões para justificar a presença de tantos brasileiros no protesto de domingo, 15 de março. Algumas são perfeitamente legítimas e válidas enquanto outras beiram alucinações. Todavia, em uma realidade de ausência de ágoras, em que o medo e a violência geram indivíduos que se fecham cada vez mais aos seus interesses particulares e se excluem da vida pública, é cabível refletir sobre o que, de fato, influenciou tal exercício de cidadania. Além do pleno apoio da mídia, do incentivo de catraca livre gentilmente oferecido pelo governo estadual de São Paulo no metrô e, claro, das motivações pessoais de cada um, eu destaco o que disse Bauman.

Em seu livro “Em busca da Política” de 1998, o sociólogo relembra a descrição de um evento por parte de uma jornalista sobre as manifestações que ocorreram contra um famoso estuprador. Narra que pessoas que nunca haviam participado de manifestações públicas encontravam-se ali, fervorosas em suas ânsias de punição, de concretização da justiça – ou, ao menos, do que consideravam como justiça.

Longe de querer comparar a revolta no caso de um estuprador com o que ocorreu e ainda ocorre contra a Presidente. O ponto de intersecção entre as duas histórias encontra-se nas motivações que levaram seus públicos a sair da inércia: “a rara oportunidade de realmente odiar alguém, em voz alta, publicamente e com absoluta impunidade. É uma questão do bem contra o mal…” e, portanto, um gesto contra Cooke, o estuprador, ou contra Dilma e o PT, quiçá, pode definir você como um cidadão decente. E pode ainda aliviar uma ansiedade longamente acumulada, porque permite personificar um problema histórico e estrutural. Qual o perigo disso? A legitimação de um discurso de ódio.

Culpa-se o PT e Dilma, em especial, por todas as mazelas que o Brasil enfrenta hoje. Eles são inocentes? Não. No entanto, a corrupção, a desigualdade social, o atraso na educação, o descaso com a saúde e com a previdência, o desrespeito contra pessoas com deficiência e todos os inúmeros e infinitos problemas da realidade brasileira são resultado de uma construção política histórica.

Não, isso não redime a culpa de nenhum governo, que poderia ter tentado lutar contra o sistema, que poderia ter feito diferente. Por isso é legítimo que nos manifestemos, cobremos, exijamos mudanças e melhoras. No entanto, criar bodes expiatórios para que assumam toda a responsabilidade por um problema que é sistêmico é uma atitude covarde e desleal.

Assim, que estejamos conscientes de nossas motivações no exercício diário de nossos direitos – e deveres –, que abdiquemos de demonizações e fundamentalismos e que nos tornemos cidadãos críticos e pensantes. À esquerda ou à direita, sem alienação.

*Laís Azeredo é Internacionalista pela Universidade Estadual da Paraíba, mestre e Doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC/SP). É pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Deslocados Ambientais (NEPDA) e do Grupo de Estudos sobre Defesa e Segurança (GEDES). Atua como voluntária na Caritas Arquidiocesana de São Paulo. Desenvolve pesquisa sobre migração e segurança.

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Categorias: Política

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