Contra o Impeachment e em defesa da reforma política  

Leôncio Junior*

Milhares de pessoas nas ruas marcaram este mês de março como um dos mais turbulentos da história recente. Nas redes sociais, os ânimos se exaltam em discussões políticas sobre a situação do País. Num contexto em que o governo contraria suas promessas de campanha e defende uma política de arrocho com corte de direitos trabalhistas e verbas para educação, setores da oposição –que, apesar da derrota eleitoral, saiu fortalecida do último pleito – convocaram um ato para o dia 15 “contra a corrupção”, visando a desgastar a Presidenta recém-eleita. Nas entrelinhas, porém, boa parte dos agitadores do ato defendia o impeachment de Dilma.

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Diante do fortalecimento do clima de crise e mesmo da ideia de golpe, centrais sindicais, movimentos sociais e diversos coletivos preocupados com a democracia convocaram um ato para o dia 13 de março. O ato teve como pauta a defesa de uma reforma política, da Petrobras enquanto empresa pública e contra os cortes de direitos trabalhistas. Os grandes meios de comunicação de pronto correram para desclassificar o ato, acusando-o de comprar militantes e de defender o governo. Houve ainda a acusação despolitizada de que os manifestantes não se vestiam com verde amarelo, a velha tática da direita para se apropriar do sentimento patriótico. Mesmo assim, o ato surpreendeu e levou 100 mil às ruas segundo os organizadores[i].

 Para o dia 15, contudo, a grande mídia fez diferente. Com ampla divulgação das pautas, das lideranças e dos locais dos atos, os barões da mídia se empenharam ativamente em atuar na conjuntura e ajudar no desgaste do governo. Além da divulgação prévia, para este ato preparou-se uma mega cobertura, exaltando as qualidades e o patriotismo dos manifestantes, bem como o fato de não haver violência. A rede Globo, desde a manhã, interrompia variadas vezes a programação para mostrar as manifestações em vários estados e ressaltar que os protestos pediam a cabeça de Dilma. Além de se inflarem os números, os jornais omitiram o caráter autoritário de grandes setores que pediam a volta da ditadura militar.

 Com presença tímida das figuras públicas do PSDB, mas com participação ativa de sua militância e amplo apoio da mídia, a direita consegue, enfim, emplacar uma grande mobilização. Em vários estados e principalmente em São Paulo, milhares de pessoas de verde e amarelo e camisetas da seleção brasileira tomaram as ruas para demostrar sua indignação contra o governo. Os números são controversos. A Polícia Militar estimou o público em 1 milhão de pessoas, já o Instituto Datafolha falou em apenas 210 mil.  [ii]

 O papel na mídia foi determinante para garantir a existência do ato. Apesar de convocado e comandado por organizações de direita, nem todos os que estavam nas ruas pensavam em uníssono. Os organizadores do evento trocaram farpas durante a semana sobre o que deveria se fazer. Comentários mostravam que o bloco dos viúvos da ditadura incomodava a muitos manifestantes. O impeachment era mais aceito, mas dividia algumas pessoas que apenas desejavam o fim da corrupção ou pressionar o governo. Tudo isso regado a um preocupante ódio contra o Partido dos Trabalhadores.

Um elemento, no entanto, foi comum em diversos discursos nesse domingo. Em lideres da oposição, em notas da Presidenta e mesmo na boca do apresentador Fausto Silva. Para eles, a ocorrência dos dois atos sinaliza que nossa democracia está madura. Apesar de confortante, a frase, vinda de bocas tão distintas logo mostra qual é a sua validade na atual conjuntura. Ela é uma profissão de fé. Após uma análise dos discursos políticos, da divulgação dos números inflados pela polícia militar e do papel que a mídia cumpriu, fica claro que a direita, incluindo a que compõe o governo, não terá medo de atropelar a democracia se puder impedir a continuidade do PT no poder. E contará com apoio social que novas organizações estão construindo.

No geral, as manifestações do dia 15 foram protagonizadas majoritariamente pela classe média, pequenos empresários, comerciantes e profissionais liberais. Por trás do ódio contra o PT, podia-se observar que o que muito irritava parcela desse setor, que se pode chamar de elite no País, eram as políticas distributivas. Do ponto de vista eleitoral, esse ato pode ser considerado como um ato dos que queriam Aécio presidente em 2015. Pessoas que a esquerda, muitas vezes de forma irresponsável, costuma estigmatizar.

 Se o ato foi protagonizado pelas classes médias e a pequena burguesia, a crise política enfrentada por Dilma tem arrastado cada vez mais setores populares para suas fileiras e o impeachment tem se fortalecido como uma proposta nas ruas. Antes de combater os de “direita”, precisamos analisar o que o surgimento desse novo ator significa na conjuntura política.

Uma análise mais atenta fará os governistas reverem seu ódio contra os “coxinhas” e pensarem por que a direita conseguiu envolvê-los com suas propostas vazias de reverter nas ruas a derrota sofrida nas eleições. Se o povo no Brasil tem apreço pela democracia, no momento desconfia profundamente das suas instituições. Diante de todos os escândalos de corrupção e o clima de mar de lama criado pela mídia, de uma crise sem solução, sai na frente aquele que apresentar uma proposta que atenda aos anseios de mudança.

No momento, apostar que PSDB ou PT consigam se colocar como alternativas para a população é ignorar a profunda crise institucional que está colocada no País. O PSDB timidamente apoia o ato, mas evita desgastar suas figuras.

 Embora em sua maioria o ato fosse composto por eleitores de Aécio[iii], nem mesmo Alckmin foi poupado dos protestos. A presença de qualquer grande liderança tradicional seria um risco nesse ato. O clima de mar de lama instaurado mira Chico, mas castiga também Francisco. Jair Bolsonaro no Rio e Paulinho da Força em São Paulo foram vaiados e impedidos de falar no carro de som.

 As milhares de pessoas que foram as ruas nesse domingo levantavam as mais variadas bandeiras, mas não encontram um ponto de convergência que não seja a mera negação do governo Dilma. Nos atos desse domingo eram comuns faixas pedindo a reforma política e mesmo o fim do financiamento empresarial de campanha. E esse é justamente o calcanhar de Aquiles dessa articulação da direita. Sem contar a ideia estúpida dos adeptos do golpe militar, não há nenhuma proposta que responda à descrença nas instituições políticas.

Se o governo pretende contornar essa crise, precisa agir no sentido de chamar a população para construir a representação. E essa proposta Dilma pode buscar nas bandeiras do ato protagonizado pelos movimentos socais. Se a oposição se aproveitou da inércia do governo e construiu o discurso de que o impeachment é a solução, a pancada no governo só não foi maior porque os movimentos sociais, mesmo descontentes com Dilma, fizeram uma demonstração de força na sexta-feira, contrariando as previsões mais otimistas. Em suas mãos as bandeiras eram claras: defesa da Petrobrás contra as proposta privatistas, nenhum corte de direitos, reforma política com ampla participação popular. A saída será respeitar o programa que a elegeu e se comprometer a realizar a reforma política, acabar com o financiamento empresarial de campanha e convocar um plebiscito convidando o povo a se envolver no processo. Que esteja claro que nenhuma proposta de reforma política feita em gabinetes mediante acordo com lideranças de partidos fisiológicos vá resolver a questão. Apenas uma Constituinte Exclusiva conseguirá preparar uma proposta que corresponda ao descontentamento geral com as instituições.

Aos brasileiros, organizados em movimentos sociais ou não, cabe ir às ruas defender a reforma política e rechaçar qualquer golpismo. As últimas semanas mostram que nossa democracia não está consolidada, antes está caindo de madura. Dominado pelos interesses das empreiteiras, dos bancos e do agronegócio, ou o Brasil toma para si a tarefa de repensar o sistema político ou caímos numa crise sem fim e vemos desmoronar nossa institucionalidade sequestrada, com perigosos fantasmas de um passado vergonhoso que ainda não superamos. A hora não é de vacilação, mas de colocar a pauta da constituinte exclusiva nas ruas e discutir com amplos setores o nosso futuro e como avançar na democracia.

 *cientista social formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Atuou no plebiscito popular pela constituinte exclusiva e soberana do sistema político.

[i]

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1602671-ato-da-cut-em-sao-pauto-teve-41-mil-participantes-mostra-datafolha.shtml

[ii] http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/03/protesto-contra-governo-fecha-avenida-paulista-em-sao-paulo.html

[iii] http://www.revistaforum.com.br/

blog/2015/03/82-dos-manifestantes-de-domingo-votaram-em-aecio-diz-datafolha/

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Categorias: Política, Sociedade

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