Panelas e bandeiras.

Há 30 anos, no dia 15 de março de 1985, José Sarney tomava posse como Presidente da República, selando a redemocratização do País após o fim da Ditadura Militar, instalada em 1964. A data é boa oportunidade para refletirmos sobre nossa democracia, especialmente após os protestos que levaram, ao que parece, mais de um milhão de pessoas às ruas no último domingo.

O domingo, 15, assistiu a uma mobilização fundamentalmente contrária ao governo federal: a maior parte das faixas e palavras de ordem invocavam o impeachment da Presidenta, o fim da corrupção (via saída da mandatária), enquanto outras pediam um golpe militar e até a dissolução do STF.

Importante lembrar que a sexta-feira, 13, foi também palco para mobilizações – embora aparentemente menores – pelo País. As bandeiras variavam entre apoio a Dilma Rousseff, reforma política (como meio para resolver o mal da corrupção) e defesa da Petrobras.

O 13 de março foi, ainda, o dia em que, em 1964, o Presidente João Goulart fez o fatídico discurso na Central do Brasil, num momento em que as condições políticas se agravavam e a ele restava, apenas, a busca de apoio no contato direto com as massas e a defesa de suas reformas de base. Pouco adiantou: o 1º de abril viria logo depois.

O Brasil de 2015 não é o de 1964. Nossas instituições são mais fortes, o contexto internacional não enseja o grande medo do comunismo, as Forças Armadas não têm o papel que tinham então. O Brasil atual se vê enrolado em outro cenário: uma China que não mais cresce ao ritmo de 11% ao ano, mas a 7% e, portanto, não importa tanto do País como antes; um conjunto de políticas econômicas que, por meio de subsídios, créditos e isenções, manteve distantes os efeitos da crise de 2008, mas que se esgotou e resultou em excessos que precisam ser corrigidos; um governo federal acuado por uma base congressista pouco amigável.

Há, no entanto, elementos que sobreviveram às décadas. Parece persistir entre nós uma postura arrogante, incapaz de tolerar o dissenso e orientada apenas pelo “eu quero” e pelo “agora”. Exemplo disso foi o panelaço ocorrido nas grandes cidades do País, na noite de domingo, enquanto os Ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (Secretaria Geral da Presidência) davam uma entrevista coletiva comentando o protesto e indicavam os próximos passos do governo.

Iniciada a coletiva, as panelas foram às janelas. Ignoravam a defesa que Cardozo fez da reforma política e especialmente do fim do financiamento privado de campanhas (pauta defendida pelo PT nas eleições e pela população em marcha nas ruas no dia… 13.)

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O panelaço ecoava. Não apenas pelos bairros nobres de SP, RJ e BH. Ecoou na TV. Na Globo News, as comentaristas de política Renata Loprete e Cristiana Lobo cometeram a seguinte fala: a reforma política não responde às demandas das ruas. Devemos perguntar: a quais ruas? As do dia 15 ou 13? Se considerarmos as do dia 15, de fato, a análise é perfeita. As ruas do domingo não reclamaram a reforma política. Direito supremo pedir o impeachment, mas escolha pobre de demandas.

É de se questionar se os autores do panelaço – e, pelo menos, parcela de quem foi às ruas no domingo – têm consciência de seu erro de análise. Reputam à Presidenta e ao PT o mal da corrupção, embalados por uma mídia rasteira e simplista: juntos, saem a atacar o governo e ignoram – ou escolhem ignorar – que Cardozo e o PT propõe o corte pela raiz do problema, com o fim da aproximação promíscua entre poder econômico e político por meio do investimento em campanhas.

Cabe agora à Presidenta decidir se atenderá ao chamado das ruas. Não cabe, em uma polarização inócua, pontuar quais das ruas deverão ser atendidas. Ambas têm pautas e pontos que merecem reflexão. A iniciativa dos dois ministros palacianos de adiantarem um pacote de leis que se destinam ao combate à corrupção vai ao encontro das demandas das ruas do dia 15 de março.

Mas é imprescindível que não pare nisso: o escândalo de corrupção na Petrobras precisa ser investigado até suas últimas consequências e, indo além disso, a governança corporativa das empresas estatais precisa ser reformada. As agências reguladoras também devem ser reformuladas não apenas para aumentarem a eficiência da estrutura produtiva, mas também para incorporarem o combate à corrupção em suas ações. Enfim, a Presidenta deve por o combate à corrupção em seu devido lugar: no plano do aperfeiçoamento das instituições, e nas mãos investigativas do Ministério Público e da Polícia Federal.

Já quanto às ruas do dia 13, Dilma deve ser cautelosa em seu ajuste fiscal e procurar sopesar a correção de excessos e o corte de fraudes nos benefícios previdenciários e sociais com a instituição de medidas que distribuam de maneira mais equânime o fardo – por exemplo, a federalização do imposto sobre a transmissão de heranças com alíquotas maiores. Neste sentido, a flexibilidade do Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de por esta proposta em debate é animadora.

Para o debate cotidiano, a corrupção, parece, é filha única de um só pai (ou mãe). Ela não toca a empresários – muitos dos quais, ao lado de nomes graúdos da mídia nacional, estampam a lista do Swissleaks e evadiram nada menos que 7 bilhões para o HSBC no paraíso fiscal europeu. Ela não toca ao eleitor que não acompanha o candidato que elegeu e que não cobra dele apoio à pauta da reforma política. Ela não toca a nada e ninguém: apenas ao PT e a Dilma Rousseff. Na fala da analista, na panela do panelaço, a seletividade é ingrediente supremo.

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Categorias: Política

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um comentário em “Panelas e bandeiras.”

  1. Alexandre
    16/03 às 12:36 #

    Erro de análise?
    E a recessão; economia quebrada; bolsa-auxílio pra todos… Análise parcial. Não gostei.

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