Dilma, faça esta loucura. Estenda a mão aos teus.

Por Caetano Patta*

O polêmico Leonel Brizola estende a mão.

O polêmico Leonel Brizola estende a mão.

Caminhamos para o meio do mês de março, que pode marcar o início de um tal período desconhecido, cujos contornos dependerão do que resolverem fazer as pessoas. Não é Dilma que está numa sinuca. É o Brasil. Os apelos por calma e paciência são cegos. Não reconhecem nos ânimos diversos e conflitantes dos brasileiros, nas ações e reações dos diferentes setores sociais, elementos tão ou mais vivos da conjuntura quanto o dólar, a inflação, o preço do petróleo, do tomate e a seca. Não é porque é formada por pessoas, que a massa está disposta a escutar, fazer um cálculo racional e andar na ponta dos pés para não acordar os índices ou bagunçar os papéis sobre a mesa do juiz. Não se pede para a inflação dar uma trégua. Não se pede para o dólar se conter. E não se deveria pedir convictamente para uma sociedade que esquenta, esfriar.

As pessoas, as que gostam e as que não gostam de Dilma, e as que não se referenciam por qualquer Dilma, querem é ser contempladas naquilo que enxergam como seu interesse. O clima político do país é de latente conflito de interesses, que há muito deixaram de parecer conciliáveis. E cada vez menos parecem, na medida em que panelas soam, agressões são transmitidas no horário nobre, xingamentos proferidos e aqueles que perderam na urna perderam junto a paciência e a tolerância. Se admitimos que todos ganharam nos últimos dez anos, também devemos admitir que ninguém está disposto a parar de ganhar ou perder sozinho.

A história só é sistemática e organizada quando vai para os livros de história. Política se faz no imediato e sobre incertezas. É este fazer, tantas vezes no escuro e na aposta, que constrói as certezas sobre as quais pisaremos amanhã. Quem quiser esperar as certezas se cristalizarem para caminhar, desfilará sua omissão sobre os sucessos e fracassos de quem resolveu dar o primeiro passo.

A palavra “impeachment” não sai do ar, das rodas, dos ônibus. Mas neste momento, “impeachment” parece um desfecho menos provável, ainda que não impossível. Não só pela ausência de elementos jurídicos. O impedimento da presidenta parece menos provável porque para ocorrer depende da vontade de Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Ambos encabeçam a lista da Lava Jato e são do partido do vice-presidente. É muito melhor para estes senhores ter a Geni para levar pedradas enquanto operam nos bastidores contra o Procurador Geral da República e tratam de fortalecer seus poderes no Congresso. Ter uma Dilma para chantagear todos os dias é o que querem. Dilma é o escudo perfeito para os presidentes da Câmara e do Senado. Cunha e Calheiros querem o mesmo que o tucano Aloysio Nunes Ferreira: ver Dilma sangrar.

O cenário que se insinua e preocupa, neste momento, é o de uma eventual renúncia. Dependendo da articulação entre o 15 de março e a mídia, bem como do andar das crises econômica e política, podemos chegar no mês de abril com um país paralisado tendo a presidenta como bode expiatório.

Se este clima de paralisia política e econômica e de crescente e televisionado protesto das classes médias se configurar, podemos esperar das tribunas do Congresso apelos diários pela renúncia da presidenta, pelo “bem do Brasil”, entre sorrisos e gracejos do PMDB e do PSDB.

O que Dilma pode fazer? Antes de soltar a imaginação, é preciso reconhecer a realidade: até aqui, Dilma não insinuou fazer nada com esta situação e este é justamente seu maior erro. Um erro que não custará só a ela. Mas se resolver se mover no sentido certo, Dilma tem o que fazer.

A presidenta poderia estender a mão aos pobres, aos trabalhadores, às “novas classes médias”, à esquerda e a todos aqueles que não suportam nem o preconceito das elites e nem o cinismo das raposas. Neste ponto a que chegamos, é preciso ter clareza: a medida certa é a medida que dá resultados imediatos. É preciso arremeter o governo. A medida certa é a que toca imediatamente no bolso e/ou no imaginário das pessoas. Dilma precisa ser chamada de populista pela oposição e aí saberá que está no caminho certo.

Como? Ouse. Trabalhando pela taxação das grandes fortunas[1]. Recolocando o plebiscito pela constituinte em debate, ou aderindo e encampando a campanha de coleta de assinaturas pelo projeto de iniciativa popular da reforma política democrática, apresentando como uma saída responsável para uma legislatura em estado terminal. Fazendo acordos com os movimentos dos sem-teto para garantir e aumentar as obras do “Minha Casa, Minha Vida” na modalidade “entidades”. Colocando o Estado para construir uma solução que salve o setor da construção civil da quebradeira sem ter que dar uma colher de chá para empreiteiros corruptores e nem entregue o mercado para empresas estrangeiras. Jogando fortemente pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários. Fazendo uma reforma ministerial que fortaleça o governo com grandes personalidades capazes de dialogar com a sociedade no sentido de canalizar sua força, e não de silenciar sua inquietude. Pisando no acelerador de políticas de direitos humanos. Fazendo mais (e melhores) pronunciamentos…

Tudo isso parece a mais absoluta loucura. Imagine “a confiança dos empresários”, “o clima de instabilidade”, “os mercados internacionais”… De fato é loucura. Mas mais louco que isso é pensar que existe uma forma ordeira de garantir ordem a partir da conciliação com um Congresso Nacional com mais de 40 investigados, inclusive seus dois presidentes. Ou então quebrando todas as empreiteiras do país e nossa maior estatal. Ou ainda acreditar na possibilidade de todo esse borbulhar na sociedade simplesmente cessar, por algum motivo mágico, ignorando perspectivas de aumento do desemprego e mudanças na aposentadoria. Os de cima vão chiar. Mas ficarão todos vivos. Não vão sofrer mais que os de baixo sofrerão se tudo continuar nesse rumo.

Sejamos francos, não vivemos a perfeita paz. O que está em jogo é em qual incerteza depositaremos nossas fichas. Uma é a da derrota certa, mas com profundidade incerta. A outra é a da possibilidade de vitória, de avanço. A maior e mais medíocre das loucuras é se lançar no esforço de reformar esse pacto social e político que já começa a cheirar mal de tão passado.

Enquanto pensamos, os dois presidentes investigados do Congresso costuram para surrupiar do executivo a prerrogativa de indicar o próximo ministro do STF, para que eles (os investigados) o indiquem. Tratam também de fazer uma reforma política que inscreva na constituição a legalidade da doação de empresas a candidatos. Isso é o que está acontecendo. E fazem uma CPI que poupa os corruptores e é dominada pelo DEM. E diante disso tudo, propor uma reforma política com mobilização popular, um imposto sobre os ricos é… a grande loucura. Pois então que sejamos loucos.

A saída da Dilma é fazer história. Abdicar é deixar que os outros façam.

[1] Um caminho alternativo, de acordo com o economista André Bueno Rezende de Castro, iria no seguinte sentido: “ao invés de começarmos com um polêmico imposto sobre o patrimônio, poderíamos começar com uma federalização do imposto sobre a transmissão de heranças (o tal do ITCMD), impondo uma alíquota de ao menos uns 33.3%, e criando mecanismo que evitem a doação do patrimônio como maneira de evasão fiscal. Mais fácil taxar a transmissão do patrimônio do que o próprio patrimônio em si. Obviamente que isso deveria ser acompanhado por uma maior eficiência da máquina pública e por maiores investimento em 3 áreas fundamentais: educação, saúde e infraestrutura.”

* Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e mestrando do programa de pós-graduação do departamento de Ciência Política da mesma instituição.

Tags:, , , ,

Categorias: Opinião, Política, Sociedade

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: