Corrupção de quem, cara pálida?

O empresário Ricardo Semler, concedendo entrevista a Mario Sergio Conti, na Globo News, reafirmou o que dissera em texto badalado na Folha de S. Paulo, intitulado: “Nunca se roubou tão pouco no Brasil”. Gabaritado pelos anos de experiência como líder de um grupo de empresas que, é claro, navega pelos mares das concessões, pregões e licitações, Semler pontua: não há corrupção sem o setor privado.

Os fatos concordam com sua análise. No dia 8.2, o International Consortium of Investigative Journalism (ICIJ) botou a boca no trombone e divulgou uma série de documentos que atestam ações pouco éticas por parte do gigante financeiro HSBC – em caso que ganhou o apelido de “swissleaks”. De acordo com a investigação, o banco ajudava seus clientes – muitos dos quais envolvidos em tráfico de drogas, diamantes de sangue e suborno – a acobertarem as fontes e destinos de suas transações multimilionárias, bem como a escapar das autoridades fiscais.

Eis que no último domingo, a Época divulgou lista parcial de grandes empresários brasileiros com contas no HSBC. Do total de 342 a que teve acesso, a revista divulgou os nomes de 15 investigados. Entre eles, doleiros, pecuaristas, industriais, donas de casa e empresários acusados de irregularidades em doações de campanha, crimes fiscais, uso de “laranjas”, lavagem de dinheiro etc.

Semler, o ICIJ e a Época unem-se, neste editorial, num rosário que aponta uma realidade pouco comentada, sobre a qual a opinião pública lança olhares indiferentes, mas que nos chega – e deve chegar – como um tapa na cara. Ela destoa do mantra midiático nacional embalado por uma corrida eleitoral que, para uns, ainda não acabou: de que nossa classe política apenas rouba e, dentro dela, mais rouba um grupo bastante específico e seleto.

É infelizmente inédita a divulgação de dados de agentes malfeitores cujos nomes, cotidianamente, estampam as colunas sociais dos jornais e das revistas de fofoca. Infeliz, também, o país que escolhe, nas vozes do debate cotidiano, ignorar que a corrupção é filha do encontro espúrio do interesse econômico com o poder político institucionalizado – não apenas da falta de caráter dos membros deste ou aquele partido.

Jean Zigler, no livro “A Suíça Lava Mais Branco”, explica como o poder dos bancos “sequestrou” o poder institucional: uma vez que o parlamentar suíço ganha, como parlamentar, apenas uma ajuda de custo e deve manter seu emprego (como comerciante, profissional liberal etc.), os bancos e multinacionais passaram a contratar políticos para seus conselhos gestores. O paraíso montanhoso (e fiscal europeu), assim, mostra ao mundo a face feia da democracia pujante dos plebiscitos e referendos.

Vale a reflexão para o caso brasileiro: a que ponto estamos dispostos a enfrentar o embate por uma reforma política que afaste dos tapetes do congresso e dos gabinetes em palácios de governo a necessária troca de favores, em forma de leis e contratos, aos investidores privados de campanhas? Simples exemplo é a ecumênica Construtora Cowan (que fez o viaduto que caiu em Belo Horizonte), que doou R$2.8 milhões na campanha de 2012, sendo R$1.8 milhão ao PMDB, e o restante R$1 miilhão dividido, irmamente, a partidos tão próximos quanto PCdoB e PSDB.

PSDB, diga-se de passagem, que sob liderança de Aécio Neves, não assinou o requerimento apresentado pelo Senador Randolfe Rodrigues (PSOL) para a abertura da CPI do HSBC. Sabe-se lá por que razões…

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Categorias: Opinião

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