O homem que amava os cachorros: perspectivas sobre o comunismo

por Felipe Freller*

Um dos interesses do excelente romance histórico O homem que amava os cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura Fuentes, recém-publicado no Brasil pela Editora Boitempo, reside na apresentação de três perspectivas históricas diferentes sobre a experiência do comunismo no século XX. Por perspectiva histórica, estou entendendo menos uma interpretação coerente e sistemática do que um modo de olhar e se posicionar conformado pela própria experiência histórica. Desse modo, uma perspectiva histórica não é, como uma teoria, imediatamente passível de crítica, mas antes de compreensão: trata-se de compreender o que a posição do ator histórico permitia e o que ela não permitia enxergar. O argumento principal deste breve ensaio sobre O homem que amava os cachorros é que as três perspectivas históricas trabalhadas no livro por meio de seus três personagens principais – o revolucionário russo Leon Trotsky, o comunista espanhol Ramón Mercader e o escritor cubano frustrado Iván – ajudam a compreender as complexidades da experiência histórica do comunismo, colocando em evidência, sob uma perspectiva crítica, o modo como esse conjunto indissociável de ideias e de práticas políticas era capaz de conformar a visão de mundo e a ação de agentes históricos concretos.

Comecemos pela perspectiva histórica encarnada na figura e na trajetória de Ramón Mercader. A formação política do jovem militante catalão que se engaja com toda a energia na Guerra Civil Espanhola para barrar a ascensão do fascismo em seu país conduz suas perspectivas a se alinharem com o discurso oficial do stalinismo, o qual constituía na época a orientação e a liderança hegemônicas do movimento comunista internacional. Aderir ao discurso oficial do stalinismo significava antes de tudo aceitar o seguinte dogma: lutar pelo triunfo do comunismo no mundo implicava obedecer sem hesitação a cada ditame vindo de Moscou, uma vez que a cúpula do Partido Comunista da União Soviética se identificava completamente com os interesses do proletariado mundial e sabia com exclusividade qual era o caminho para a missão histórica vislumbrada por Marx e Engels para essa classe social. Dentro desse dogma, negar o monopólio de Moscou no direito de determinar os caminhos a serem seguidos pelo proletariado mundial equivalia a negar a própria missão histórica do proletariado e colaborar com o capitalismo. Equivalia, portanto, à mais alta traição contra a causa operária. De acordo com essa perspectiva histórica, que foi talvez a da maior parte dos militantes comunistas do século XX, engajar-se pela emancipação mundial do proletariado significava se tornar um soldado que renuncia a seu julgamento individual para absorver completamente sua ação em um gigantesco exército de escala planetária, organizado por uma rígida e poderosa hierarquia que culminava nas incontestáveis ordens do Guia Genial dos Povos.

Em O homem que amava os cachorros, duas mulheres contribuem para cristalizar em Ramón esse ideal do soldado que renuncia à própria individualidade para mergulhar na mais estrita disciplina imposta pelo exército comunista internacional: sua mãe, Caridad, uma mulher que, após as humilhações sofridas em seu casamento burguês, as transgressões praticadas nos círculos anarquistas catalães que passa a frequentar para extravasar sua revolta e as internações psiquiátricas forçadas, consegue canalizar seu ardente ódio aderindo à disciplina então oferecida pela máquina stalinista internacional; e África de las Heras, outra fanática militante comunista que Ramón conhece em uma assembleia da Juventude Comunista da Catalunha e por quem se apaixona, mas que não possuía nenhuma paixão maior do que a veneração cega por Stalin e nenhum objetivo de vida que estivesse à margem da mais rígida disciplina partidária. Outra influência importante na formação política de Ramón foi Kotov, enviado do serviço secreto soviético para a Espanha quando a URSS decide tomar parte na Guerra Civil Espanhola e que, impressionado com a dedicação e competência do jovem militante catalão, decide fazer dele seu colaborador direto na NKVD (a polícia secreta soviética).

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Nesse contexto dos anos 1930, colocar-se sob as ordens de Moscou implicava aceitar cegamente as determinações do governo soviético a respeito de quem eram os inimigos a serem prioritariamente combatidos. Assim, embora a motivação inicial de Ramón ao se engajar na Guerra Civil Espanhola fosse barrar a ascensão do fascismo em seu país, seus chefes logo lhe explicam que há tarefas mais importantes e urgentes do que combater diretamente os fascistas: antes disso, é necessário eliminar os elementos trotskistas, anarquistas e demais correntes “desviacionistas” que se alinham nas fileiras antifascistas. Esses são os inimigos que Ramón passa a combater no período que lhe resta na Espanha, porém esse período será curto, pois o jovem militante recém-ingressado na NKVD logo é enviado para um campo de treinamento na União Soviética e informado de sua escalação para participar de uma luta muito mais decisiva do que aquela travada na Espanha: a luta de morte contra o inimigo número um da Revolução, o traidor Leon Trotsky, àquela altura já mancomunado com os nazistas alemães e com os japoneses para pôr fim à União Soviética e provocar a derrota do proletariado no mundo inteiro. E será essa missão que fará Ramón entrar para a História: se foi duro deixar a Espanha em um momento tão crucial, abandonando o campo de batalha e deixando as vias livres para a ascensão do franquismo, Mercader imagina que efetuar o golpe fatal sobre o renegado Trotsky recompensará esse abandono de seu país e constituirá uma contribuição à luta do proletariado mundial infinitamente maior do que morrer lutando contra os fascistas na Espanha. Como se sabe, esse golpe fatal se concretizou enfim no dia 20 de agosto de 1940, quando Ramón, sob a identidade falsa de Frank Jacson, desferiu com fúria uma picareta sobre o crânio de Trotsky, na casa do exilado em Coyocán, na Cidade do México.

A trajetória de Ramón Mercader – da luta antifascista ao golpe de picareta contra Trotsky – sugere uma reflexão interessante sobre os modos de engajamento na luta política, sobretudo quando ela envolve diretamente a violência física. Seria ingênuo desvincular completamente a violência da política, ou então traçar uma fronteira rígida que determinasse de modo fixo quando a violência pode e quando ela não pode ser utilizada. Contudo, a vida de Ramón coloca um problema a ser enfrentado pelos que optam pela utilização da violência na luta política: como determinar o inimigo contra o qual a violência deve ser aplicada? A ideia de uma violência a ser legitimamente dirigida contra os agentes da exploração, da dominação, etc. é autoevidente. O problema é definir que indivíduos são os agentes da exploração, da dominação, etc. O que a vida de Ramón Mercader evidencia é que, dependendo da perspectiva histórica que se assume e dos discursos de construção simbólica do inimigo que são interiorizados, um revolucionário como Trotsky, que dedicou a vida inteira à luta contra o capitalismo, pode encarnar melhor a ideia de exploração e dominação do que, por exemplo, os franquistas na Espanha. Uma das cenas mais marcantes do livro é justamente quando, poucos dias antes do assassinato de Trotsky, Caridad relata a Ramón todas as humilhações sofridas em seu casamento burguês e no manicômio, para que Ramón pudesse dirigir todo esse ódio à sociedade burguesa contra Trotsky, na hora de matá-lo. O que se percebe é que o simples ódio à sociedade burguesa, quando não acompanhado de uma compreensão clara dos verdadeiros inimigos a serem combatidos e dos métodos eficazes de fazê-lo (métodos para os quais a violência física costuma ser no mínimo ineficiente, uma vez que o capital é um poder impessoal impossível de atingir fisicamente), pode simplesmente se voltar contra outros agentes revolucionários e não avançar em nada a luta pela emancipação. É claro que isso é algo que a perspectiva histórica em que se inseria Ramón não permitia perceber, pelo menos não antes de matar Trotsky. O que o livro apresenta de interessante são os choques entre a convicção de Ramón de que se deve acreditar em tudo o que seus superiores falam (Trotsky é um agente nazista, etc., etc.) e alguns sinais contrários enviados pela realidade, como o pacto Molotov-Ribbentrop, de 1939 (o qual evidenciou que era Stalin, e não Trotsky, que vinha mantendo negociações secretas com a Alemanha nazista), os documentos falsos escritos contra Trotsky às vésperas de seu assassinato, etc. Mas a perspectiva histórica do soldado inserido em um exército mundial que o transcende e cujas ordens devem ser acatadas acabou prevalecendo a essas contradições, pelo menos até a realização da missão.

Outra perspectiva histórica apresentada no livro é a do próprio Trotsky. De fato, é significativo que Iván, o narrador da história, tenha chegado à conclusão de que o relato da vida de Ramón Mercader ficaria mais completo e dotado de sentido se fosse complementado com o relato da vida de sua vítima e do depositário de seu ódio. Trotsky não compartilhava com Ramón apenas o amor aos cachorros. O revolucionário russo tinha a mesma fé de seu algoz no sentido que o marxismo havia atribuído à História, também era herdeiro dos métodos autoritários herdados do leninismo (apesar das críticas feitas a esses métodos em sua juventude, quando Trotsky esteve mais próximo dos mencheviques[1]) e também estava disposto a matar indivíduos que aparecessem como obstáculos à vitória mundial do proletariado. A diferença entre os dois está menos nos fundamentos teóricos de sua ação política do que em suas respectivas perspectivas históricas, ou seja, na posição que o desenrolar dos acontecimentos históricos conferiu a cada um dos personagens. Banido da União Soviética em 1929 e logo transformado pela retórica stalinista na encarnação absoluta do mal (seu lugar no discurso oficial soviético dos anos 1930 podendo ser comparado ao do Goldstein do 1984 de George Orwell), Trotsky não podia, como Ramón, deixar o proletariado mundial ser conduzido por Moscou. Sua tarefa, no exílio itinerante que o faz passar pela Turquia, pela França, pela Noruega e enfim pelo México, era reiniciar a luta pela revolução mundial, reunindo os poucos socialistas que não haviam aderido à poderosa máquina da Terceira Internacional.

Em O homem que amava os cachorros, podemos acompanhar, além dos sofrimentos e dificuldades enfrentados por Trotsky em seu penoso exílio (incluindo as notícias de morte e desaparecimento de seus familiares e de seus companheiros de luta, a dificuldade de se estabelecer definitivamente em qualquer país, a espera pela chegada quase certa do assassino enviado por Stalin, etc.), algumas das contradições que impunha sua perspectiva histórica (em poucas palavras, a necessidade, derivada de sua posição histórica, de criticar o stalinismo apoiando-se no legado leninista). Por exemplo, em 1937, quando Trotsky estava empenhado em denunciar o terror que representavam os processos de Moscou, então em curso, um grupo de escritores e ativistas políticos traz à tona a responsabilidade pessoal do próprio Trotsky, na qualidade de então comissário da Guerra e chefe do Exército Vermelho, pela repressão sangrenta da revolta dos marinheiros de Kronstadt, em 1921. Como seria de se esperar, o exilado responde sublinhando o absurdo de se comparar o esmagamento de uma rebelião armada contra um governo frágil em tempos de guerra civil com processos forjados com base em acusações estapafúrdias e fuzilamentos de milhares de camaradas do Partido em tempos de paz. Trotsky tinha razão ao enfatizar o contraste das duas situações, mas o episódio de Kronstadt não deixa de revelar que já havia em Lenin e Trotsky parte do discurso stalinista que mobilizará Ramón Mercader: o discurso de que ao Partido que representa os verdadeiros interesses do proletariado tudo é permitido, inclusive massacrar uma rebelião que vem do próprio proletariado. A dificuldade que Trotsky experimentou em renegar o massacre de Kronstadt é indicativa de algumas das contradições que implicava sua oposição ao stalinismo.

Outra contradição derivava da necessidade que Trotsky sentia de continuar insistindo sobre o caráter operário do Estado soviético, apesar da deformação burocrática representada pelo stalinismo.[2] Defender o caráter operário do Estado soviético significava para o revolucionário russo preservar o significado histórico da Revolução de Outubro e a posição de vanguarda da revolução proletária mundial ocupada pelo país erguido por ele e por Lenin, embora esse mesmo país precisasse agora de uma revolução puramente política que despojasse a burocracia stalinista do poder. Essa posição, contudo, esbarrava em resistências, não só de parte do movimento trotskista internacional, que se inclinava cada vez mais a negar à URSS o rótulo de socialista, mas também dos próprios gestos de Stalin, que tornavam cada vez mais difícil diferenciar qualitativamente o fascismo do stalinismo. Com efeito, no livro, a revelação dos acordos entre Hitler e Stalin, em 1939, chega a perturbar Trotsky quase tanto quanto Mercader. Pela primeira vez, o exilado chega a se perguntar se a revolução conduzida por ele e por Lenin não teria servido apenas para instituir um regime análogo ao nazifascista e que ainda por cima agiria em conluio com este. O interessante da perspectiva histórica trotskista é justamente essa tensão entre seu objeto de crítica (o stalinismo) e os pressupostos teórico-políticos carregados por Trotsky desde antes da necessidade de criticar o stalinismo, tensão esta que os acontecimentos históricos chegaram por vezes a levar a pontos extremos.

Por fim, temos a perspectiva que apresenta, da Cuba de fins do século XX, o escritor frustrado Iván. Há aqui um olhar que, por ser mais distanciado, permite talvez enxergar aspectos que os atores históricos diretamente engajados na luta pelo triunfo do comunismo, como Trotsky e Ramón Mercader (cada um à sua maneira), não conseguiam enxergar. Iván (um homem que também amava os cachorros, como Trotsky e Ramón) compartilhou nos anos 1960/1970 a mesma fé no futuro comunista da humanidade vivenciada pelos outros dois personagens, mas algumas experiências atingem irreversivelmente essa fé: o exílio interno realizando um ingrato trabalho no povoado isolado de Baracoa, após escrever um conto que, ao contrário do que esperava o então convicto escritor comunista, desagradou a seus superiores; o triste destino que sofre na ilha seu irmão homossexual (“nada mais próximo da moral comunista que os preceitos católicos”, dirá Iván); e, não menos importante, a experiência da derrocada do comunismo nos anos 1980/1990. Mesmo que o regime castrista tivesse ficado de pé, é notório que sua alma não estava mais (o regime podia continuar socialista, mas não havia mais fé no futuro comunista). É o que Iván e um amigo percebem quando veem, em uma tarde de 1994, uma multidão lançando suas jangadas ao mar para fugir de Cuba sem que os policiais pudessem fazer nada – uma cena muito próxima ao que deve ter sido a queda do Muro de Berlim. A perspectiva de Iván é a de quem olha o comunismo depois de sua derrocada e da revelação das tragédias que marcaram sua história – tragédias estas imperceptíveis para Ramón, e em alguma medida até mesmo para Trotsky. O interessante é que, tendo vivido em algum momento as esperanças do comunismo, Iván seja capaz de compreender de algum modo o que levou Ramón Mercader a agir como agiu, e de sentir, além do asco pelo crime cometido pelo catalão, compaixão pelo modo como toda a sua vida foi manipulada pela máquina stalinista e determinada por desígnios cujas motivações profundas o agente só poderia compreender muito tempo depois.

Enfim, um dos grandes méritos do livro de Padura é resgatar, por meio dessas três perspectivas, a dimensão viva da História. Através de seu relato, é possível não apenas julgar as ações de personagens históricos como Trotsky e Ramón Mercader, mas também compreender as visões de mundo que os levaram a fazer as escolhas que fizeram. Para isso, não bastam os simples relatos factuais, mas é necessário reconstituir o clima político da época, o que estava em jogo e aparecia como urgente para os personagens, as tensões que os fatos provocavam no íntimo dos atores, as respostas formuladas para resolver contradições irresolúveis, etc. Tudo isso está presente em O homem que amava os cachorros. O asco e a compaixão são julgamentos passíveis de serem formulados a posteriori, mas o primeiro passo, oferecido pelo livro, é entender o significado da ação histórica no momento em que ela ocorreu, com o caráter ligado irremediavelmente ao presente e ao que é sentido como urgente que define qualquer ação histórica. Nesse sentido, entender as motivações que ajudaram Ramón a erguer a picareta contra Trotsky ajuda a entender o que foi o comunismo do século XX, não apenas como regime econômico e político, mas como experiência para os homens e mulheres que se engajaram no triunfo desse projeto.

[1] Ver o interessante panfleto Nossas tarefas políticas, escrito por Trotsky em 1904, e que tem como alvo principal Lenin.

[2] Este ponto é desenvolvido por Trotsky em seu livro A Revolução traída, de 1936. Nele se diz que a Revolução foi traída pela burocracia, mas ainda não subvertida, pois sobrevive como um sistema de relações sociais. Essa sobrevivência do regime econômico-social instituído pelos bolcheviques após a Revolução de Outubro caracterizaria ainda a URSS como um Estado operário, embora degenerado politicamente.

*é formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP e é mestrando em Ciência Política pela mesma instituição.

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Categorias: Cultura, Sociedade

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3 Comentários em “O homem que amava os cachorros: perspectivas sobre o comunismo”

  1. julio cesar
    15/11 às 10:02 #

    comunismo=fascismo=nazismo=racismo

  2. julio cesar
    15/11 às 10:01 #

    comunismo=fascismo

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  1. O binarismo governo-petista, o stalinismo, o “golpe” e a direita | Na Transversal do Tempo - 13/08

    […] A transformação de Trotsky na encarnação do Mal no pós-1929 é um exemplo disso; A perseguição bolchevique ao anarquismo no Brasil e sua transformação no imaginário em exemplo da “porralouquice” anti revolucionária, quinta coluna da burguesia e coadjuvante de auxílio à repressão pela polícia, que envolveu até Astrogildo Pereira, é outro aspecto vindo da mesma fonte; A ação stalinista na revolução espanhola contra anarquistas e trotkistas um terceiro exemplo e a satanização do anarquismo pelos bolcheviques durante a revolução russa,que incluiu assassinatos talvez a marca de origem da metodologia política e retórica. […]

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