Carnaval de ontem e de hoje: segregação e integração

Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você me assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade por favor não de na vista
Bate palma com vontade
Faz de conta que é turista”

Chico Buarque – Quem te viu

Por Veridiana Domingos*

O tema da redação da FUVEST[1] deste ano foi a “camarotização” da sociedade. Mas seria este um fenômeno contemporâneo ou herdado de nosso passado colonial? Talvez o carnaval seja um bom exemplo para entendermos melhor o tema, pois ele é, sobretudo, um espaço paradoxal de “camarotização” e integração da sociedade brasileira.

Sabemos que o carnaval tem seus espaços de camarotização, e isso já acontecia no nosso passado colonial. Festas fechadas para a elite como acontecem hoje, tais como a festa de carnaval do Copacabana Palace no Rio de Janeiro e a festa da revista Vogue[2] em São Paulo, já aconteciam entre o século XVIII e XIX no Brasil Imperial. Naquela época, havia dois tipos de festas no período de carnaval: os entrudos populares e os entrudos familiares. “Entrudo” era o nome das brincadeiras, trazidas pelos portugueses no século XVI, para celebrar o período. Ainda mais originalmente, se chamavam de “entrudos” os bonecos que andavam de aldeia em aldeia em Portugal. Os entrudos populares aconteciam nas ruas para os estratos mais baixos da classe social brasileira. Eram brincadeiras, entre escravos e população em geral, mais “grosseiras”, em que se lançavam líquidos e pós pelo ar nas ruas das cidades. Quando brancos, ricos e nobres transitavam pelo local, todos cuidavam para que estes não fossem melados. Tal brincadeira tem sua origem apontada como sendo indiana pelo autor Thomas Ewbank em Life in Brazil- Land of the Cocoa and the Palm. Ewbank descreve o Holi indiano (mais conhecido como festival das cores que, hoje em dia, é até mesmo comemorado todos os anos, em uma forma contemporânea, no parque do Ibirapuera em São Paulo). O festival das cores acontece em toda a Índia na mesma época que o carnaval brasileiro (entre fevereiro e março), comemorando a chegada da primavera, em que uns atiraram água e pó colorido uns nos outros. O Holi acontece mais precisamente no dia correspondente a nossa quarta-feira de cinzas.

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Já os entrudos familiares eram festas em locais privados, só para quem era convidado, em um ambiente “ainda patriarcal e meio rústico de casa-grande” (Gilberto Freyre, Sobrados e Mucambos, 2006 [1936], p.226). A abertura destas festas particulares veio timidamente a público em 1844 no Rio de Janeiro. Vir a público, no entanto, não significou que esses luxuosos bailes de máscaras estavam abertos à participação popular. O povo podia apenas ocupar o lugar de simples espectadores, bem como ainda se faz via internet com os luxuosos bailes de hoje em dia. O ambiente era contido e os corpos pouco se “remelexiam”.  Freyre os descreve:

 Pavilhão guarnecido de cadeiras, as do lado direito destinadas às senhoras, as do lado esquerdo aos cavalheiros […] só os mascarados poderiam dançar. As pessoas sem máscaras, ou sem vestidos de mascarados, deviam ocupar camarotes como simples espectadores […] A máscara deveria ser considerada sagrada” (Gilberto Freyre, Sobrados e Mucambos, 2006 [1936], p.227).

Guardadas as devidas proporções, se trocássemos o termo “máscaras” por abadás ou convite, poderíamos descrever o fenômeno da camarotização do carnaval na sociedade brasileira de duzentos anos depois. Ainda assim, é no carnaval que essa distância é matizada. É no chão das ruas, nos famosos bloquinhos que podemos observar, no entanto, talvez o auge da aproximação de classes no país. Na universalidade da maior festa do país, todos saem a festejar independentemente de crença ou classe. Diria Freyre que o carnaval é quando se “definem não tanto zonas como momento de confraternização entre extremos sociais” (Gilberto Freyre, Sobrados e Mucambos, 1996 [1936], p. 31).

*socióloga, bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda em Sociologia na mesma instituição, membro do Núcleo de Estudos em Teoria Social Contemporânea (NETSC- CERU) e desenvolve pesquisa na área de Memória, Teoria Social e Violência.

[1][1] Veja a reportagem aqui.

[2] Outro exemplo são os camarotes em Salvador. A respeito disso, Gilberto Gil, dono de um dos camarotes mais luxuosos do circuito Barra-Ondina em Salvador deu uma declaração aqui.

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Categorias: Cultura

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