Os caminhos da direita

Por Caetano Patta*

Apenas um mês de segundo mandato de Dilma Rousseff já foi o suficiente para fortalecer a certeza de que os modelos de governabilidade e desenvolvimento que, nos últimos anos, garantiram estabilidade institucional, apoio popular e crescimento econômico, altos lucros e inclusão social estão esgotados. O cenário é delicado e de profunda depressão no governo e no campo das esquerdas. No governo, por ver sua sustentação escorrer por entre os dedos. Na esquerda, por ver um governo que achava que poderia ser seu desfigurando-se. Em meio ao desgaste econômico, político e social do governo, os setores conservadores e historicamente contrários ao andar do carro das reformas veem abrir-se diante de si uma oportunidade única nos últimos 10 anos: retomar o controle sobre a sociedade e as rédeas do Estado. O desafio da direita, portanto, é definir sua tática, unificar-se em torno de um caminho e não perder esta chance.

Os setores da direita, no entanto, ainda parecem divididos e apostando em movimentações diversas. Se por um lado todas elas contribuem para aumentar o desgaste do governo, por outro não oferecem – enquanto não convergirem – uma saída positiva para o caos que orquestram. À direita pode interessar o caos pontual, mas seu objetivo é estabelecer a ordem, sob os interesses que atendem aos privilégios das classes dominantes e de seus operadores.

Na dissonante sinfonia que dá ares sombrios ao recém iniciado segundo governo Dilma inscrevem-se notas de impeachment, candidaturas presidenciais para 2018, chantagens permanentes e capitulações. Nela, podemos observar três grandes movimentações da direita.

  1. Eduardo Cunha e o “centro” soerguido
Foto: Wilson Dias/ Agência Brasil

Foto: Wilson Dias/ Agência Brasil

Na figura de Eduardo Cunha, emergiu que há muito preferia os bastidores e não os holofotes da política brasileira. Quando olhamos a história da nova república, números de prefeitos, governadores, bancadas, financiamento, filiações etc., o sistema político brasileiro se mostra majoritariamente tri-partido, com PT-PMDB-PSDB. No entanto, nas duas últimas décadas, o centro esteve submerso e a disputa organizada em torno dos polos.

Ocorre agora uma novidade. Cunha organiza todo o fisiologismo em torno do PMDB e se projeta enquanto alternativa de direção política. Faz da Câmara dos deputados sua trincheira e propõe uma agenda nacional a sua imagem e semelhança, com a cara de seus compromissos econômicos, políticos e religiosos. O resultado é uma agenda fortemente conservadora e viável politicamente no Congresso Nacional.

Cunha parece aplicar na dinâmica do congresso o que operava nas contas bancárias. Entre outras passagens de sua biografia, Cunha desempenhou uma função muito emblemática do que é a política brasileira: recolhia “doações” de empresários de diversos setores não apenas para si, como para uma ampla lista de candidatos. Centralizava a recepção e a distribuição de recursos privados.

Agora, como presidente da Câmara, age como um Robin Hood fisológico. Chantageia o planalto para dar em emendas aos parlamentares. Não o faz como líder do seu partido. O faz como líder do Legislativo, colocando uma ampla base dos mais diferentes partidos sob seu guarda-chuva e roubando do planalto a prerrogativa de organizar em torno de si a governabilidade.

Cunha se aproveita de todas as crises, da economia à política, dispondo-as como uma bateria de canhões voltados para o outro lado da esplanada. No entanto, ainda que a associação de seu nome ao impeachment preocupe os governistas (e todos os que tem apreço pela democracia, tomo a liberdade de dizer), a movimentação mais racional de Cunha não passa pelo impeachment a não ser como elemento de chantagem.

Mas nem tudo que é racional é garantido em política. A força de uma opinião pública envenenada pela grande imprensa, com discursos de ódio contra o PT e Dilma, pode requerer de qualquer um extrapolar a movimentação para além do que seria racional.

Jogando o governo aos leões pouco a pouco, administrando pautas e coordenando uma agenda conservadora que inverta os sinais propostos pela esquerda, Cunha pode governar e se converter desde já na alternativa de poder da direita, desgastando Dilma até quando ela aguentar. Se não aguentar, Michel Temer assume comendo na mão de Eduardo Cunha.

Entre todas as pautas conservadores que Cunha tomou como seu programa de governo – impedir a mudança na legislação do aborto, das drogas, das comunicações –, a sua reforma política é um verdadeiro tiro de canhão no PT e na esquerda no curto e no longo prazo.

No curto prazo, a proposta de reforma política de Cunha inibe a formação de novos partidos, amaldiçoando os traidores do reino do fisiologismo e de seu monarca, o PMDB; Kassab e Cid Gomes ficariam a ver navios, mendigando voltar a participar do condomínio que julgaram poder ser seu[1]. Minaria assim a possibilidade de Dilma se ver livre do PMDB e retomar o governo de seu governo.

No longo prazo, acaba com a possibilidade de fortalecimento dos partidos (com voto em lista, ainda em que misto), financiamento público de campanha e verticalização das coligações.

Os fantasmas de Cunha são a operação Lava Jato e o síndico do outro bloco, Renan Calheiros. A operação tem potencial para devastar a base fisiológica de Cunha. E neste momento, o Senado ainda é um espaço de poder no qual Dilma tem margem de manobra. O elemento é importante por dois motivos: de um lado, porque as realizações de Cunha dependem da cooperação do Senado; de outro, se Cunha ganhar a concessão da direita, ela vale para além de 2018 e requer um PMDB unificado e livre de rivais ou desafetos.

  1. O PSDB e as lições de democracia com Carlos Lacerda

Parte do PSDB, ainda que rejeitando a pecha de golpista quando das primeiras insinuações neste sentido, parece mesmo resvalar para além da linha dos ritos da previsibilidade institucional. Aécio Neves disse que não adiantaria empurrá-lo à direita pois não iria. Fernando Henrique tentou desqualificar o golpismo, ridicularizando-o. E outros nomes e setores do PSDB manifestaram-se no mesmo sentido, munidos de sentimentos mais ou menos sinceros. Mas, aparentemente, as placas tectônicas da política parecem levar uma parte do PSDB para a direita e para além das fronteiras do jogo democrático.

É correto ponderar que o impeachment está previsto na constituição e que, portanto, discuti-lo não é necessariamente romper com a ordem constitucional. Porém, a expressão “golpismo” não pode, em respeito à história brasileira, restringir-se a um debate técnico no campo jurídico e nem se prender a paranoias militaristas.

A experiência democrática que se estendeu de 1946 a 1964 foi acompanhada durante toda a sua existência por duas frentes golpistas que convergiram na derrubada do regime. Trata-se do udenismo e do posicionamento tutelar de um setor do exército que vinha desde a proclamação da República.

Nos dias de hoje, o exército está absolutamente deslocado na cena política nacional. A tradição do poder de tutela esteve órfã nas últimas décadas, tanto pela ruptura do próprio exército com o rito de intervenção cirúrgica e passagem do poder para grupos civis em 64, quanto pelo desmonte do exército enquanto ator político. Não faltam, no entanto, apelos para que a justiça assuma esta tradição. O udenismo, por outro lado, não é coisa do passado.

Foto: Orlando Brito/ PSDB

Foto: Orlando Brito/ PSDB

O udenismo caracterizou-se por dirigir a cada um dos presidentes reformistas daquele período (Getúlio Vargas, JK e Jango) todas as armas disponíveis – opinião publicada vendida como opinião pública, justiça, pressão internacional, pressão sobre os militares – para desestabilizá-los e derrubá-los. Soma-se a isso, o seu desapego em relação à soberania popular, base da democracia.

Falar em golpe é levar em conta as tradições políticas brasileiras. O impeachment é uma medida legal, mas sua instrumentalização para reverter a vontade popular não é democrática e nem republicana. Golpismo, à luz da história das experiências democráticas brasileiras, deve ser entendido, portanto, também como a disposição em golpear a soberania popular, ainda presente entre as elites brasileiras.

Após quatro derrotas consecutivas, o compromisso democrático dos tucanos, aparentemente sincero em um primeiro período, parece fraquejar. O seu desespero de hoje lembra e reedita o udenismo sempre desesperado de ontem, disposto a recorrer ao que estiver ao seu alcance para alcançar aquilo que não alcançou nas urnas.

Fiquemos com as palavras de Fernando Henrique, um homem do qual se pode falar tudo, menos que não domina bem o que escreve:

“No passado, seriam golpes militares. Não é o caso, não é desejável nem se veem sinais. Resta, portanto, a Justiça. Que ela leve adiante a purga; que não se ponham obstáculos insuperáveis ao juiz, aos procuradores, delegados ou à mídia. Que tenham a ousadia de chegar até aos mais altos hierarcas, desde que efetivamente culpados. Que o STF não deslustre sua tradição recente.”[2]

José Serra, em tom de análise, “prevê” que Dilma esteja seguindo os passos de Jânio e Jango. O secretário geral do PSDB, Antônio Carlos Mendes Thame, declara que não podemos ter “preconceitos” com o impeachment. O líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima, diz que o impeachment precisa ser levado a sério porque o anseio está “na boca do povo”. Na órbita do PSDB, Agripino Maia (DEM), coordenador da campanha de Aécio e fóssil da ditadura, coloca Dilma na mesma linha de montagem de Jango, apontando a presidenta como presa do clamor popular do qual emana a legitimidade de derrubar governos. Por fim, o jurista Ives Gandra produz uma justificativa técnica para o impeachment de Dilma, sob encomenda do advogado do instituto de FHC[3].

Frente a tantas demonstrações, nem toda a ingenuidade do mundo pode afastar a desconfiança em relação ao compromisso tucano com a democracia. Mas o que explicaria o fato de o PSDB falar num sentido e agir no outro?

Com a ascensão do PMDB enquanto alternativa às classes e setores dominantes, oferecendo um caminho institucional para a imediata implementação de um programa conservador que, ao mesmo tempo, interdita e descontrói o PT, o PSDB pode estar se deixando levar (e levando) por uma opinião pública envenenada que começa a embarcar seriamente nos discursos de ruptura institucional, violência etc.

Neste sentido, crescendo ao “centro” partidário com uma agenda conservadora clara e base de apoio robusta para sua imediata implementação, a partir do legislativo, o PMDB empurra o PSDB à direita, na tática e na política, flertando com o impeachment e defendendo a restauração sem mediações do neo-liberalismo. A radicalização pode ser posta na conta da sobrevivência política, colocada em questão pelo movimento de Eduardo Cunha. O risco do PSDB é isolar-se na direita e ser engolido por Eduardo Cunha.

O PSDB vacila em encampar a tese de retirar Dilma do poder por entender a gravidade do cenário que se abriria. No entanto, não pode abandonar a sua base social, especialmente no momento em que se vê perdendo a centralidade na oposição. O bom senso não oferece as mesmas chances de sobrevivência política aos tucanos que a resposta a uma classe média enfurecida e setores mais populares ressentidos com o PT ofereceria. Assim, o PSDB é dúbio, deixando a porta da institucionalidade meio aberta para a ruptura democrática.

  1. A meditação de Geraldo Alckmin

Um terceiro caminho aberto diante da direita também está no PSDB. É a candidatura presidencial de Geraldo Alckmin em 2018.

O governador de São Paulo enfrenta nesse momento dois problemas: I. a alternativa que representa é a que menos empolga uma plateia alimentada diariamente com expectativas de um final épico e com requintes de crueldade para o PT; II. Alckmin enfrenta a crise de abastecimento de água em São Paulo, que pode desgastá-lo pessoalmente.

Foto: Edson Lopes Jr/ A2AD

Foto: Edson Lopes Jr/ A2AD

Nesse momento, a mídia e as elites sediadas aqui ou no exterior não tem de tomar uma atitude definitiva frente à tática-Alckmin, encampá-la ou rejeitá-la de pronto. Assim, não embarcam definitivamente, mas cuidam dela, pois pode ser útil no futuro.

O tempo é elemento crucial. Este caminho depende de a situação se estender até 2018 com alguma estabilidade, o que não é garantido. Protestos populares, movimentações bruscas de outros setores do PSDB e projetos de voo solo (e fortalecidos com o sangramento de Dilma) do PMDB podem abortar a alternativa que Alckmin oferece antes de ela poder se realizar. No entanto, se Dilma e o PT conseguirem estancar o sangramento e reequilibrar o jogo, permitindo que o tempo corra, Alckmin ganha força.

Estes caminhos estão abertos agora, na mais desgastada condição a que chegou o governo Dilma. A definição não será absoluta e nem absolutamente previsível. O nível de insatisfação e apego ou não à ordem por parte da população e dos poderosos interesses econômicos – reais e finais beneficiários desta travessia – definirá tomadas de posição, adesões ou retiradas de tropas da direita.

Os movimentos do PT, de Lula e de Dilma, que ensaiam romper a paralisia em que se encontram, também redefinem o campo de jogo. O mesmo acontece com o restante da esquerda, dos partidos minoritários e mais radicais e dos movimentos populares.

A direita não se moverá com “tudo o mais constante”. No limite, o caminho da direita será definido pelos custos com os quais as elites estiverem dispostas a arcar e pelos ganhos que vislumbrem obter. Deixar avançar o carro das reformas – política, tributária, das comunicações, das liberdades sobre o corpo, da terra e das cidades –, isto as elites daqui e de fora e as direitas que lhes servem não deixarão acontecer sem oferecer sua resistência mais convicta.

——

[1] Gilberto Kassab tem sido associado ao processo de (re)criação do Partido Liberal (PL). Supostamente, parlamentares da oposição e do PMDB migrariam para o PL assim que ele fosse criado, sem que perdessem seus mandatos, visto que se trataria de um partido novo. Após inflar o PL, às custas do esvaziamento da oposição e do PMDB, Kassab promoveria a fusão do PL com o seu PSD, formando um grande partido de centro já apalavrado como base de apoio (e destino de recursos) para Dilma Rousseff. A presidenta reduziria sua dependência do PMDB. Kassab seria alavancado como um dos mais poderosos caciques partidários de Brasília. Parlamentares insatisfeitos na oposição teriam uma janela de transferência, que lhes permitiria aproximar-se do governo e dos recursos. O movimento prejudica, no entanto, Cunha e o PMDB e a oposição como um todo. Desta forma, juntaram-se e aceleram a aprovação de um projeto que impõe restrições para novos partidos. Caso aprovado, ficará estabelecido prazo de 5 anos para que possa iniciar um processo de fusão com outra legenda. Sem acesso a tempo de TV e fundo partidário, visto que os parlamentares não levariam os “benefícios” para a nova legenda e não poderiam gozá-los enquanto membros do PSD em futuro próximo, a movimentação perde adesão de parlamentares e frustra os planos de Gilberto Kassab. Cid Gomes, do PROS, ensaiava movimento parecido, com a diferença de dar um recorte mais à centro-esquerda.

[2] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/01/opinion/1422793512_769635.html

[3] José Serra: http://www.brasil247.com/pt/247/poder/168168/Serra-aposta-na-queda-de-Dilma-como-J%C3%A2nio-e-Jango.htm; Antônio Carlos Mendes Thame, Secretário-geral do PSDB: http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2015/02/04/psdb-nao-tem-preconceito-contra-impeachment-de-dilma-diz-dirigente-tucano/; Cássio Cunha Lima: http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/02/lider-do-psdb-no-senado-discute-com-petista-ao-defender-impeachment.html; Ives Gandra: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/206844-advogado-de-fhc-solicitou-parecer-sobre-impeachment.shtml .

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* Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e mestrando do programa de pós-graduação do departamento de Ciência Política da mesma instituição.

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Categorias: Opinião, Política, Sociedade

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3 Comentários em “Os caminhos da direita”

  1. nilson loura da Silva
    13/02 às 14:58 #

    E raro ver uma opinião sobre politica ,Ao ver tão imparcial…parabéns

  2. Anônimo
    12/02 às 19:16 #

    Que lixo.

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  1. Os caminhos da direita brasileira em 2015 - 18/03

    […] ficariam a ver navios, mendigando voltar a participar do condomínio que julgaram poder ser seu[1]. Minaria assim a possibilidade de Dilma se ver livre do PMDB e retomar o governo de seu […]

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