Qual é o lugar da literatura infantil na escola?

Por Camilla Wootton Villela*

A literatura infantil é, sem dúvidas, a primeira grande porta para a alfabetização e faz com que a criança comece a imaginar, conhecer histórias, fantasias, desenvolver a oralidade e aprender palavras novas. É por meio dela que o pequeno leitor tem contato com o mundo, com o imaginário e a realidade, ampliando a visão de mundo e repertório.

No entanto, tentar encontrar “utilidades” para a literatura é um enorme erro. É verdade que a criança que lê vai ter mais facilidade com o letramento e com o desenvolvimento do intelecto, mas a consciência verdadeira que deveria ser passada é a importância do ler por ler, por prazer, já que a literatura existe para atender nossas necessidades de fantasia. Por isso, não deveria ser vista de maneira tão pragmática e como instrumento para fazer exclusivamente tarefas e atividades em sala de aula. Dessa forma, o grande desafio que temos hoje nas escolas é a leitura por mero deleite.

O que vemos nas salas de aula é certo medo dos professores ou talvez pressão da coordenação e até dos próprios alunos e pais por considerarem as aulas de literatura infantil – e, em extensão, de literatura adulta, de artes – preparadas a partir de debates abertos desnecessárias, desculpas para se “matar a aula”, pela falta de avaliações formais, atividades, questionários. Ao contrário, porém, debates acerca de obras literárias são exercícios extremamente formadores, o que faz refletir que, possivelmente, o maior obstáculo nas escolas de hoje são os programas pedagógicos com base exclusivamente no vestibular, nas perguntas fechadas e, claro, a busca por mediadores de leitura eficientes e que sejam, antes de tudo, bons leitores literários.

O favorecimento do caráter educativo da literatura é justamente o que mais aparece nas salas de aula brasileira, mesmo com cadernos e publicações do MEC (como os PCN) dizendo o contrário, muitas vezes pelo comodismo ou até pela falta de metodologia em preparar aulas de literatura infantil. E é assim, desde os primeiros anos do pequeno leitor, que criamos leitores adultos desinteressados – não leitores – que logo associam literatura à prática de exercícios e questionários de múltipla escolha.

Em entrevista, o escritor Bartolomeu Campos de Queirós, quando questionado sobre como despertar o interesse da criança pela literatura, chamou atenção sobre a necessidade de se ter uma sociedade leitora, ou seja, uma criança com uma família que lê, que está cercada por livros e que valoriza a eles, bibliotecas e livrarias:

Vejo que é necessário ter uma sociedade leitora para que também a criança se faça leitora. Ter uma família envolvida com leituras, valorizar as bibliotecas, frequentar livrarias é também indispensável. Tudo, sem esquecer a função da escola. Uma educação que não valoriza a literatura, um professor não leitor… não concorrerão para a formação do leitor. Depois, é preciso compreender a importância de um país leitor, de uma sociedade crítica e reflexiva para bem incorporar a leitura literária no contexto escolar. Se houve a democratização da escola não houve ainda a democratização da qualidade da escola. Temos hoje uma escola apenas consumidora de informações e não também investidora em transformações. Esse investimento depende, fundamentalmente, do convívio do aluno com a força da fantasia.

Fica claro na resposta de Queirós como é indispensável criar uma sociedade crítica que agrega a leitura literária à escola e é, afinal, indiscutível que a literatura infantil desenvolve a imaginação e pode despertar o interesse pela leitura; também, que por meio do imaginário, a criança é capaz de reconhecer suas dificuldades e, evidentemente, a lidar com elas, até superá-las e se colocar como parte integrante do mundo que a cerca.

Os primeiros contatos com a literatura infantil podem se decisivos para uma criança. Ele terá em sua memória para sempre o encantamento das primeiras vivências com o literário, com a fantasia, o que pode repercutir vocações, novos rumos para a vida futura e muito repertório cultural. Podem ser decisivos simplesmente porque as primeiras experiências literárias devem ser prazerosas e longe de um ambiente escolar que não é libertador, o qual possui professores que aprisionam seus alunos e leitores, infelizmente comum e contrário à ideia da literatura.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Que a relação lúdica entre a criança e a obra literária dá a possibilidade de se formar leitores, não restam dúvidas. No entanto, a literatura infantil não poder funcionar apenas como “pretexto” para se ensinar leitura ou, ainda, como incentivo ao hábito de ler; a formação de um bom leitor literário se dá pela interação com a obra literária, mediando o pequeno leitor a encontrar significados na obra que lê, compreender o texto e relacioná-lo ao mundo a sua volta, construir novos significados a partir do que foi lido

Importante destacar também que na realidade brasileira muitas crianças têm o primeiro contato com a literatura apenas na escola, ou seja, os livros não fazem parte de sua vida antes e depois da fase escolar. Por isso a importância do professor fazer um bom trabalho com a literatura infantil desde a primeira infância e incentivar que os alunos das primeiras etapas escolares manuseiem as obras, se maravilhem com as ilustrações, comecem a desvendar as palavras e explorem diversos gêneros, lendo com os pequenos leitores e comentando cada obra com paixão.

Durante muito tempo, a literatura infantil foi considerada a colônia da pedagogia e sempre foi muito mal vista pela literatura, como se fosse um eterno “patinho feio” dos estudos literários. Mas, no Brasil, esta realidade mudou um pouco, principalmente devido ao grande fenômeno editorial que é a literatura infantil. Em vista disso, então, pensar a literatura infantil inserida no âmbito da escola é também lidar com um contexto de ainda muito preconceito, numa constante batalha entre o curso de letras e literatura (arte) com o curso de pedagogia (educação), chegando ao ponto, hoje, de alunos da graduação em letras do Brasil se formarem sem nenhuma base de literatura infantil, por a considerarem irrelevante, não literária, “coisa de criança”.

Esta realidade necessita ser modificada nas escolas e também na academia, pois a valorização e conscientização da importância da literatura infantil são mais do que necessárias, principalmente para se formar uma sociedade leitora de obras literárias. A união dos estudos literários com a educação parece ser uma alternativa que age a favor dos leitores e que visa a uma boa formação que pensa no artístico, no libertário e no prazer. Assim, fazer da pedagogia e da literatura um ringue de lutas é o pior dos caminhos.

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* Camilla Wootton Villela é formada em Letras e mestranda em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Desenvolve pesquisa na área de Modernismo Brasileiro, Jornalismo Literário e Português como Língua Estrangeira (PLE). É professora, revisora de textos e escritora.

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Categorias: Educação

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um comentário em “Qual é o lugar da literatura infantil na escola?”

  1. John Hilton
    19/09 às 14:47 #

    Poderia fornecer as referências bibliográficas ao final do texto? De preferência, da entrevista com o escritor Bartolomeu Campo de Queirós, não consigo ser encaminhado para o site da matéria.

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