Charlie Hebdo divide opiniões

*Por Fabio Zuker e Veridiana Domingos

O ataque à revista Charlie divide opiniões, na medida em que o que o motivou, talvez, seja algo que já naturalmente divida opiniões: as charges de Maomé. Obviamente, a resposta a elas com violência e perda humana não é justificável, mas fica claro que a situação é muito mais complexa do que dizem algumas análises que estão circulando na grande mídia. Leandro Narloch, colunista da Veja, soltou um comentário simplista em seu espaço no site da revista ridicularizando opiniões de intelectuais (mais especificamente a professora do departamento de Letras Orientais da USP, Arlene Clemesha, e o professor do departamento de Relações Internacionais da UFRJ, Williams Gonçalves) que pedem atenção a uma consideração sobre a situação muçulmana na Europa ao tentar explicar o caso. Em contrapartida, Narloch defende os jornalistas de Charlie Hebdo como representantes da liberdade de expressão e da coragem. É nesse sentido que outros jornalistas brasileiros, como Rachel Sheherazade e Diogo Mainardi, também se aproveitaram do ocorrido para se colocarem na mesma posição de Charlie: jornalistas “independentes” e “corajosos”.

Narloch se equivoca duplamente. Em primeiro lugar, figuras como o próprio, Mainardi e Sheherazade não são equivalentes aos jornalistas de Charlie Hebdo, mas sim do meio conservador que o próprio Charlie Hebdo costumava satirizar – sempre com uma crítica política feita à esquerda. Em segundo lugar, a questão muçulmana na Europa engolfa um debate delicado no qual achismos, como os proferidos por Narloch, só geram mais mal-entendidos.

Charlie

As charges, de fato, são objeto de opiniões contraditórias: se por um lado elas fomentam o debate público crítico, por outro borram o par de oposição sagrado/profano que acaba organizando grande parte da sociedade moderna. A França, como tantos outros, é um estado laico que garante a liberdade de expressão em seus meios midiáticos. É por esse motivo que Charlie Hebdo continuou sendo veiculado mesmo depois de tantas polêmicas. O governo francês, após o ataque à Charlie em 2011, disse à revista que garantia sua circulação, muito embora achasse que seu conteúdo gerava certa instabilidade política no país.  Por outro lado, existe uma questão delicada também (a qual o artigo do Narloch não remete): a figuração ou representação imagética de Maomé é considerada uma ofensa grave, um pecado para o islamismo – tal como acontece na religião judaica, com o Deus judaico Yaweh (Javé). Ambas as religiões, judaica e muçulmana, condenam a idolatria. No atual contexto europeu, a situação dos muçulmanos substitui o que era o antisemitismo contra os judeus anterior à ascenção do nazismo: existem leis especificamente proibindo suas atividades religiosas. Na Suíça, minaretes não podem mais ser construídos, por exemplo, e na própria França não se pode usar determinadas vestimentas, bem como em algumas escolas públicas apenas se serve carne de porco, excluindo muçulmanos e judeus, que juntos somam 11% da população, sendo 10% deles de muçulmanos.

Em suma, os muçulmanos são, inegavelmente, uma população estigmatizada na Europa de hoje por conta de uns poucos extremistas que cometem atos como o recente ataque. A posição do Charlie Hebdo sempre foi muito clara: um jornal que satiriza quem quer que tenha posições por nós consideradas contraditórias/conservadoras: sejam judeus extremistas, católicos extremistas, muçulmanos extremistas, bem como outros grupos não-religiosos, como os xenófobos, o próprio Front National (partido de extrema-direita de Marine Le Pen que vê sua popularidade crescer nos últimos anos) e as trapalhadas do ex-presidente, Nicolas Sarkozy, e do atual incumbente, François Hollande. Enfim, ninguém é poupado de suas críticas.

Os autores conservadores da mídia brasileira e sua conclusão sobre a opinião dos intelectuais é ingênua: não se está tentando culpar as vítimas, isto é, os jornalistas de Charlie. O que os professores Williams e Clemesha buscaram levar à mídia é ponderar a situação de estigmatização existente com relação a 99% dos muçulmanos europeus pacíficos, por conta de 1% que comete atrocidades como as do dia 7 de janeiro.

E, de algum modo o Charlie Hebdo é parte constitutiva da forma como a opinião pública apreende e entende os muçulmanos. Pode ser que, por consequências imprevistas, Charlie tenha ajudado na construção dessa estigmatização, já que o público leitor estava inserido em um ambiente de estigmatização social, que repetidas vezes ofendia um dos princípios basicos desta fé, que é a representação imagética de seu Deus. Entretanto, tendemos a acreditar que eles focavam a criticar justamente os radicais, separando-os dos 99% de muçulmanos pacíficos. Pareceu-nos pertinente a afirmação do ímã-geral de Paris, que ao condenar veementemente o crime, e solicitar punição aos culpados, afirmou: “nós, muçulmanos, não gostamos de ver o profeta desenhado; para isso, temos que resolver com outra caneta, fazendo uma charge crítica, e não pegando em armas”.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

* Veridiana Domingos é socióloga, bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda em Sociologia na mesma instituição, membro do Núcleo de Estudos em Teoria Social Contemporânea (NETSC- CERU) e desenvolve pesquisa na área de Memória, Teoria Social e Violência.

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Categorias: Mundo

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