Dois pesos e duas medidas?

Por Iago Gama Drumond*

Nos últimos meses não foi incomum acompanharmos nos noticiários e nas redes sociais uma série de eventos, declarações e opiniões relacionados a episódios cunhados pela mídia, no geral, como terroristas e/ou fundamentalistas. Vale notar que nem todos os eventos inseridos nessa classificação tiveram a mesma repercussão na imprensa e, até mesmo, na política internacional. É justamente nesse ponto que os próximos parágrafos buscarão se concentrar.

Entre os dias 14 e 15 de dezembro foram amplamente veiculadas notícias e informações sobre o sequestro promovido por um clérigo iraniano em uma cafeteria na cidade de Sidney, na Austrália[1]. Em poucos momentos havia uma cobertura ao vivo do acontecimento, que foi transmitido para os cinco continentes do globo terrestre. Assim, acompanhou-se com apreensão o desenrolar e o trágico desfecho do episódio, que causou três vítimas fatais e deixou seis vítimas feridas. O evento rapidamente gerou reações de importantes líderes mundiais que expressaram a reprovação ao acontecimento e reacenderam o debate acerca do combate ao terrorismo[2].

Um dia após o trágico incidente em Sidney, uma escola em Peshawar, no Paquistão, foi invadida por membros do braço armado do Talibã paquistanês e promoveram um verdadeiro massacre, matando mais de uma centena de crianças e deixando mais de oitenta feridas[3]. Apesar das declarações de Barack Obama e de outros importantes atores da política internacional[4], o evento não foi amplamente noticiado e coberto tal como o episódio ocorrido em solo australiano nas 48 horas anteriores.

O recente atentado à redação do semanário francês Charlie Hebdo, famoso por suas sátiras e charges de cunho político, chocou o público em escala global em poucas horas e mobilizou em igual escala e velocidade uma multidão, que começou a protestar e condenar veementemente o ato[5]. De maneira semelhante ao episódio dos dias 14 e 15 de dezembro, diversas lideranças internacionais prestaram solidariedade aos familiares das vítimas e ao povo e governo francês, em geral[6][7][8][9].

A grande questão, portanto, é a diferença na repercussão de episódios igualmente brutais e que, de certa maneira, foram igualmente e amplamente rotulados como “terroristas e fundamentalistas”. Nesse momento, portanto, alguns ensinamentos teóricos apresentados por Rob Walker em “Inside/Outside: Relações Internacionais como teoria política”[10] podem se mostrar extremamente interessantes para promover uma breve análise da questão.

No nosso dia-a-dia somos influenciados a pensar no mundo com rótulos e “linhas”. Dessa forma, essas linhas demarcam aquilo que está dentro (inside) e o que está fora (outside) desse rótulo. Assim, é possível entender diversos denominações que são amplamente utilizadas, tais como “Estado Frágil” e “Terroristas”, pois são considerados como outsiders da Política Internacional. O termo terrorista não possui uma única definição, universal e verdadeira, mas várias definições que obedecem e cumprem objetivos políticos distintos.

Assim, a definição a ser utilizada aqui é a apresentada por Robert English[11] segundo a qual pode-se entender terroristas como aqueles que praticam atos que envolvam o uso ou a ameaça do uso de violência heterogênea tendo um objetivo político e onde o medo e o terror psicológico desempenham um papel fundamental. Além disso, deve-se atentar ao fato de que o terrorista produz impactos não somente em um grupo direto, mas o impacto real vai sendo ampliando para diferentes grupos nas dimensões físicas e psicológicas.

Em relação aos “Estados Falidos”, considera-se como “falido” um Estado que não detém, em termos weberianos, o monopólio legítimo do uso da força, a incapacidade de prover bens públicos para a população e a inexistência de uma autoridade legítima que consiga fazer com que decisões coletivas sejam tomadas. Leva-se também em consideração a capacidade ou não do Estado de interagir com os demais membros da comunidade internacional de forma plena[12].

Portanto, a mídia com a qual convivemos diariamente se atém aos padrões que são difundidos e fabricados pela sociedade na qual ela está inserida. Assim, ao olharmos para as informações que nos são trazidas no cotidiano devemos pensar nas informações que não chegam até nós, pois os fatos negligenciados são considerados “fora” da nossa realidade. Uma busca rápida no Google com os termos “attack”, “terrorism”, “Middle East”, “Asia” e assim por diante nos permite comprovar que o que vimos é apenas a ponta de um enorme iceberg, que deve ser cada vez mais estudado e melhor compreendido.

Devemos pensar e refletir, então, acerca da quantidade de vidas que são diariamente tiradas por conta de eventos tão brutais e condenáveis quanto os que aqui foram expostos. A mídia que conhecemos e convivemos no nosso cotidiano expõe fatos que lhe são pertinentes e pertinentes com a realidade que o seu público-alvo cria e demarca. Portanto, notícias sobre terrorismo em Estados tidos como falidos por aquilo que é demarcado Ocidente dificilmente irão aparecer com grande notoriedade na mídia ocidental. Afinal, eles são outsiders da “nossa realidade”.

Assim sendo, no ainda incipiente ano de 2015, que marca o 70º aniversário das Nações Unidas, talvez inspirado por uma expectativa otimista inspirada nos princípios que fizeram a Organização surgir e que estão positivados em sua Carta, valha a pena relembrar: “É o seu mundo”[13]! O mundo como um todo. Olhemos para ele por completo, sem insiders e outsiders. O nosso mundo e a realidade devem ser um só. O mundo é de todos nós. Eu sou Charlie. Eu sou Peshawar. Eu sou Sydney. Eu sou todos aqueles que sofrem e não são vistos ou ouvidos no dia-a-dia.

[1] https://br.noticias.yahoo.com/policiais-entram-em-cafeteira–em-sydney–e-ref%C3%A9ns-s%C3%A3o-retirados-152612578.html

[2] http://www.news.com.au/world/president-obama-briefed-as-world-reacts-dramatic-hostage-situation-in-sydneys-martin-place/story-fndir2ev-1227156627841

[3] http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141216_paquistao_fd

[4] http://foreignpolicy.com/2014/12/16/taliban-attack-school-in-peshawar-obama-marks-milestone-in-afghanistan-modi-condemns-attack-in-pakistan/

[5] http://www.lemonde.fr/societe/article/2015/01/07/attaque-au-siege-de-charlie-hebdo_4550630_3224.html

[6]http://www2.planalto.gov.br/acompanhe-o-planalto/notas-oficiais/notas-oficiais/nota-a-imprensa-sobre-atentado-em-paris

[7] http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/obama-chama-ataque-em-paris-de-covarde-e-oferece-ajuda-franca.html

[8] http://pmindia.gov.in/en/news_updates/pm-condemns-attack-in-paris/

[9] http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/ban-ki-moon-mostra-indignacao-apos-desprezivel-atentado-em-paris

[10] WALKER, R. Inside/Outside: Relações Internacionais como teoria política. Rio de Janeiro: Editora Apicuri / Editora PUC-Rio, 2013.

[11] ENGLISH, Robert. Terrorism: How to respond. Oxford: Oxford Univeristy Press, 2010, p. 24.

[12] http://ffp.statesindex.org/faq-06-state-fragility

[13] “It’s your world” é o “slogan” adotada pelas Nações Unidas.

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Iago Gama Drumond é graduando em Relações Internacionais pela PUC-Rio e tem como principais áreas de interesse: Segurança Internacional, Organizações Internacionais, Operações de Paz e Teoria das Relações Internacionais.

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Categorias: Imprensa, Mundo, Opinião, Política, Sociedade

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