Ils sont Charlie, mas quem são os verdadeiros perdedores?

Luíza Gimenez Cerioli*

 

O atentado à sede do jornal satírico Charlie Hebdo no começo deste ano, que resultou no assassinato de doze cartunistas e jornalistas em nome de um Alá vingativo servirá como chave de ignição para um debate fervoroso, no qual pessoas vão tomar partido sem entender muito bem os possíveis lados. Atos de ódio e de xenofobia serão confundidos com vingança e desespero, e a indignação alheia servirá para alienar, nunca esclarecer. No meio de tantos argumentos que passam a dar um tom carregado para as Relações Internacionais nesse incipiente début de 2015, pessoas que possuem uma maior aproximação com o islã passam a ficar preocupadas, visto que a sensibilidade do assunto no plano maior pode ser preterida pela ânsia de mostrar repulsa pelos atos horrendos desse tão recente sete de janeiro.

Primeiramente, é preciso fazer uma ressalva: nenhum ato terrorista se justifica. Não há ação no mundo que justifique um contra-ataque em que civis são involuntariamente vitimados em nome de uma causa. Muitas justificativas ao ato foram feitas, algo como “eles pediram por isso”. Não, ninguém pede por isso e não, atentados contra a sociedade civil não são respostas, nunca. Preciso deixar claro que os pontos que passarei a questionar são sob uma ótica construtivista, na qual pergunto qual podem ser nossos próximos passos, como cidadãos internacionais, para modificar o quadro tenso que está se formando (ou já se formou, para os mais pessimistas).

            Sendo assim, seguem meus três pontos que acho essencial serem questionados:

  1. Minha primeira pergunta é: o quão simplista é a divisão huntiniana de Ocidente x Islã?[1] Sinteticamente, ao fim da Guerra Fria, muitos teóricos passaram a se questionar como se dariam as Relações Internacionais – e os conflitos – com o término da divisão do mundo em Leste x Oeste. Huntington apresenta sua complicada e capenga tese – porém, por algum motivo bastante convincente na época – de que os conflitos se dariam devido a um choque de civilizações, no qual a cultura seria o principal agente conflituoso. Ele apresenta nesta tese que o principal “choque” seria entre o “Ocidente” e o “mundo islâmico”, não ignorando outras insanas divisões.

Assim, a questão que fica é: alguém realmente ainda acredita nesta divisão entre Ocidente e mundo islâmico? O islamismo representa hoje um pouco mais de 1/5 da humanidade e é a religião que mais cresce no mundo, principalmente na Ásia (a mesma região que muitos gostam de definir como o “futuro”). Da mesma maneira que nas outras duas principais religiões monoteístas, dentro do islã há uma complexa subdivisão de crenças e grupos, diferentes interpretações da Sharia e do Alcorão e distintos graus de adesão às anciãs normas religiosas.

Vejamos pelo nosso lado, o ocidental (é sempre mais fácil): é possível alguém se sentir representante, como um todo, do Ocidente, a ponto de realmente acreditar que possa existir uma única representatividade oposta dentro do mundo islâmico? Certamente pouquíssimas pessoas se sentiriam representadas pelos extremismos ocidentais, pelos absurdos que vemos todos os dias “no nosso lado da civilização” em nome de religião, de ideologia e de ódio, majoritariamente. Duvido que todos se sintam representados por Bolsonaros, por Marine Le Pen, por Anders Breivik, pelos crimes de Ferguson (EUA), pelos índios e mendigos queimados enquanto dormiam na rua, pelo alto índice de assassinatos de homossexuais por dia na América Latina, entre diversos outros absurdos. Nós não somos tão idênticos assim, não temos a obrigação de sermos associados diretamente à invasão do Iraque, não somos todos nós que torturamos árabes e muçulmanos em Guantánamo. Nós vivemos a liberdade de não sermos totalmente associados a um estereótipo do “homem ocidental”.

  1. Aí cabe o segundo ponto: nossa mídia ocidental não propaga, estimula e incentiva as pessoas a pensar de acordo com essa tese tão falaciosa de Huntington, que cria uma divisão simplória que nem nós mesmos nos identificamos? Ao representarmos, todos os dias, o mundo islâmico como algo repleto de homens-bomba, terroristas, misóginos, escravizadores de mulheres, decepadores e assassinos, não estamos incentivando essa ignorância? Muitos chamam “esses árabes” para se referir ao povo sírio, iraniano ou libanês, ignorando as abissais diferenças étnicas e ideológicas entre eles – a começar pelo simples fato que o Irã não é um país árabe, porém persa. Tais visões são fruto de pura ignorância, pois a religião islâmica é tão milenar quanto a religião cristã: ela é cheia de nuances, de crenças, de cores, de heróis, de histórias. Essa divisão simplória não está justamente prejudicando toda essa enorme parcela da humanidade que é islâmica, mas não se sente representada por grupos extremistas?

Sem dúvidas está. Muitos países europeus, como uma maneira de redenção às mazelas da época de seus impérios coloniais (debate também muito importante, mas que não cabe neste espaço), disponibilizam facilidades de imigração para nativos de suas ex-colônias. Logo, ao se caminhar pelos bairros mais pobres franceses, ingleses e alemães se vê massas de argelinos, marroquinos, nigerianos, somalis, tunisianos, ganenses, entre outros. E – imagine só! – em sua maioria, islâmicos. Ademais, países europeus são bastante atrativos para migrantes de conflitos, como sírios, libaneses e palestinos. Agora a pergunta: essas pessoas se sentem representadas pelos criminosos de Paris? Não. Até vale a ressalva: um dos policiais mortos era muçulmano, Ahmed Merabet. Agora, essas pessoas se sentem representantes dos países em que vivem? Essa é uma questão muito complexa, mas posso afirmar, por ter vivido na França, que muitos não. É comum que esses grupos de migrantes sejam vítimas constantes de sua condição, vivendo em guetos pobres e sofrendo discriminação diária da maioria nativa, que sabe fazer o biquinho na hora de falar oui, pardon. Dessa maneira, essa insistência dos nossos meios de comunicação de mostrar um islâmico extremista como o representante de toda uma comunidade diversificada não está diretamente prejudicando grupos sociais que já são vulneráveis?

Ao sustentarmos essa divisão simplória, prejudicamos a maioria do povo islâmico. Há uma enorme parcela que nossa mídia ocidental insiste em negar, insiste em não dar voz. É muito difícil encontrar, nos grandes veículos de comunicação ocidental, reportagens que mostrem a grande maioria de islâmicos que não se sentem representados por tais atos de terrorismo. Alguns estão esbravejando “foi um ataque à liberdade de expressão”, mas quem saiu mais ferido de toda esta barbárie foi o próprio islã.

  1. A utopia de uma sociedade internacional é calcada na união dos povos a despeito de suas diferenças, ou melhor, que o próprio respeito pelas nossas diferenças (valores, culturas, cores, crenças, gêneros) seja o que nos una. Dessa maneira, cabe a pergunta: até onde vai a tal liberdade de expressão? Acredito ser fundamental a liberdade de imprensa, o direito de divulgar informação nua e crua, mas me pergunto até que ponto podemos defender a continuidade de algo que é ofensivo para alguém? Eu não vou defender, nem ofender o Charlie Hebdo, mas a pergunta que faço aqui é se prezamos por respeito a diferenças, não devemos respeitar as fronteiras culturais, o desconhecido, o que não nos agrada?

Novamente, em nenhum momento se justifica atentados como esse – pura maldade e desumanidade –, mas não cabe a nossa sociedade questionar mais profundamente seus limites se sonha um dia viver em uma comunidade mais respeitosa em âmbito internacional? Não está mais do que na hora de compreendermos que esse debate é importante? Muito se questiona se, das religiões monoteístas, o Islã não seria a que menos soube se adaptar ao mundo moderno. Isso procede, porém com ressalvas: as outras duas religiões (o judaísmo e o cristianismo) não se adaptaram, elas que o criaram. Por mais que o ateísmo esteja em crescimento, não é possível conceber um mundo sem religiões, muito menos sem o islã, que tem crescido ainda mais absurdamente. Não cabe então encabeçar um debate não focado só nos grupos extremistas, mas em novas ferramentas possíveis para um convívio mais pacífico no futuro?

Quando norte-coreanos hackearam o site da Sony em retaliação a um filme esdrúxulo e fantasioso no qual norte-americanos sequestram o líder do país em Pyongyang, vários comentários foram “também, para que fazer esse tipo de filme? Qual a verdadeira necessidade disso?”. Defendemos com unhas e dentes a repreensão de humoristas que abusam de piadas de mal gosto ofendendo minorias, mas ignoramos quando a ofensa nos é mais distante. De fato são comparações extremadas, mas são questões merecedoras de uma atenção mais delicada.

A questão central não é de maneira nenhuma relativizar os atentados, mas apresentar os cenários que eles podem indicar para o futuro. Ainda no mesmo dia do atentado houve diversos ataques a mesquitas e centros islâmicos em Paris e no norte francês. É importante lembrar que, nos primeiros dias de 2015, houve tumultuadas manifestações na Alemanha contra o povo islâmico – por mais surreal que sejam manifestações contra um povo. Até esse texto ser escrito, nenhum grupo extremista reclamou para si a autoria do crime, mas o que se sabe é que eram argelinos com algum vínculo com a Al-Qaeda, que vem crescendo na África e na península Arábica (no Iêmen, em particular), enquanto a Isis (ou Estado Islâmico) domina vastos territórios sob a bandeira do terror no Oriente Médio. Não sejamos ingênuos, os maiores beneficiados desses atentados nem foram os possíveis grupos extremistas vinculados a ele, mas sim a extrema-direita europeia, xenófoba de raiz. Não tardará para que esses saibam se valer do dia 7 de janeiro para cair suas penas sobre os grupos mais fracos, as centenas de imigrantes e refugiados que já vivem a duras penas nos países europeus.

É, 2015 começou preocupante para aqueles que sonham a utopia.

*Luiza Gimenez Cerioli é graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestranda em Relações Internacionais e Política Internacional Comparada na Universidade de Brasília (UnB).

[1] Ótimo texto que trabalha melhor sobre a falácia da tese de Samuel Huntington http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u31639.shtml

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Categorias: Mundo

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um comentário em “Ils sont Charlie, mas quem são os verdadeiros perdedores?”

  1. 07/05 às 12:40 #

    Apesar das críticas, guardo ressalvas a boa qualidade do texto e a intencionalidade positiva também.

    Se esses ataques carregam tanta maldade assim, porquê aqueles comandados pelos principais estados ocidentais são normalizados mesmo acarretando na morte de um número imensamente maior de vítimas civis?
    Se não considerar o terrorismo de estado nas suas análises, utilizar o termo é uma declaração racista.
    Contra-ataque a quê?
    Nota-se que a compreensão do contexto é notoriamente alta, porém qual o motivo e demandas que te levam a fragmentar e por vezes isolar trechos do círculo de violência empregado pelas partes envolvidas no conflito.

    A liberdade de expressão tem limites, tal qual as representações da nossa empatia e do nosso afeto.

    Foi um grande prazer etnografar essas projeções, e concluo dizendo que dentro das possibilidades contextuais encontradas pela autora, trata-se certamente do melhor encaixe quanto a coerência política.

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