O que o caso Charlie Hebdo tem a dizer sobre a radicalização na política europeia

Por Vinícius Marra Bivar*

O ataque perpetrado contra a publicação satírica Charlie Hebdo, em Paris, movimentou a imprensa internacional nesta quarta-feira, 7 de janeiro de 2015. Apesar do volume limitado de informações disponíveis acerca dos atiradores, parece plausível, considerando as informações divulgadas até o momento, crer que o atentado contra a publicação francesa foi executado por radicais islâmicos. Dentre as evidências que apontam nessa direção, podemos destacar o histórico de publicações satirizando o profeta Maomé e fontes policiais segundo as quais os executores teriam dito que “vingaram o profeta” entre outras referências a religião islâmica.

Se confirmadas as suspeitas, o episódio desta quarta pode ser inserido em um contexto mais amplo de radicalização político-ideológica que vem se acentuando desde os atentados em Nova York em 2001 e que se ampliou em 2011, auge da crise econômica na União Europeia. Trata-se do ressurgimento, sobretudo da extrema direita, tanto em escala local quanto continental.  Discursos contrários à União Europeia, à imigração e a minorias como muçulmanos e os ciganos tem ganhado espaço em meio a opinião pública, acentuando conflitos latentes desde meados do século passado.

O principal indicador que possibilita essa constatação é o sucesso eleitoral, em 2014, de grupos como o francês Front National, que conseguiu 24 cadeiras no Parlamento Europeu, o Partido Popular da Dinamarca com 4 cadeiras, o Partido Nacional Democrático, na Alemanha, com uma cadeira e o neonazista Aurora Dourada, na Grécia, com 3 cadeiras. Todos os partidos citados ampliaram seu número de assentos no Parlamento Europeu em comparação com o último pleito ocorrido em 2009[1].

Apesar da falta de articulação entre os partidos de extrema direita e do relativamente reduzido número de assentos que esses grupos atualmente ocupam, a ampliação do número de Membros do Parlamento Europeu (MEPs) advindos desses partidos denota o avanço de ideias conservadoras em meio aos europeus, com destaque obviamente para a França, epicentro dos recentes acontecimentos.

Dentre os eventos que ilustram a recente expansão do conservadorismo na França, podemos destacar os protestos ocorridos ano passado que reuniram milhares de franceses contrários à tentativa do Presidente François Hollande de aprovar a legislação favorável à união homoafetiva. No que tange aos muçulmanos, 2011 foi um ano chave. No referido ano, entraram em vigor a proibição do uso do niqab, véu que cobre todo o rosto, e a proibição para os muçulmanos de realizarem suas orações em locais públicos.

Na ocasião, tanto grupos ligados à atual líder do Front National, Marine Le Pen, quanto a organizações muçulmanas foram às ruas. Os confrontos projetaram a recém empossada líder e garantiram o sucesso eleitoral do partido nas eleições cantonais ocorridas no mesmo ano[2]. Desde então, o discurso xenofóbico ganhou destaque no programa do Front National, que em uma de suas cláusulas identifica a imigração como causa de tensões sociais e busca combater o que chama de “islamização”[3].

Mais recentemente, na Alemanha, o grupo Patriotas Europeus Contrários à Islamização do Oeste, conhecido pela sua sigla em Alemão, PEGIDA, organizou demonstrações públicas e publicou um manifesto no qual advogam, entre outros pontos, o endurecimento das políticas de imigração no modelo das praticadas por Suíça e Países Baixos, maior financiamento para o aparelho policial e associa a cultural alemã à herança judaico-cristã. Suas primeiras manifestações atraíram pouco mais de 300 pessoas, porém, em 5 de Janeiro deste ano, cerca de 18 mil pessoas foram as ruas de Dresden[4]. Jornais ao redor da Europa já alertam para um potencial aproveitamento político por parte do PEGIDA dos ataques ocorridos em Paris.

O caso francês é, no entanto, mais delicado. A França tem, em números absolutos e relativos, a maior minoria muçulmana da Europa Ocidental. De acordo com censo realizado em 2010, cerca de 4,7 milhões de muçulmanos residiam na França, representando 7,5% da população francesa. Apesar de se identificarem mais como europeus do que com os respectivos países de origem de seus pais e avós, o processo de assimilação da atual geração de “europeus-muçulmanos”, sobretudo na França, falhou miseravelmente. Resultado de medidas como as citadas acima que colocam o Estado e a sociedade em conflito direto com a religiosidade das comunidades muçulmanas[5].

O fenômeno da não assimilação dessas comunidades e a insatisfação com as medidas restritivas impostas pelo governo francês sobre os muçulmanos residentes em seu território favorecem a cooptação de membros dessa comunidade por grupos radicais ou mesmo atos isolados de indivíduos insatisfeitos com sua inserção na sociedade francesa, o que, aliado ao histórico do jornal, torna o ataque previsível, mas não menos condenável. O Reino Unido havia emitido alerta para risco de terrorismo em território francês em outubro de 2014 e, três dias antes do ocorrido, voos vindos dos Estados Unidos, bem como do Reino Unido, foram cancelados por ameaça de terrorismo. A edição mais recente da Charlie Hebdo, inclusive, publicou uma charge referindo-se a possibilidade de um atentado terrorista[6].

Infelizmente, o cenário não indica um arrefecimento das tensões, pelo contrário. Apesar de iniciativas positivas, como o “Je suis Charlie”, viu-se pelas ruas de Paris diversas reproduções das charges publicadas acerca do profeta Maomé que possivelmente motivaram os ataques, o que não contribui para a solução da questão. Oportunisticamente, Marine Le Pen se pronunciou acerca dos ataques, enfatizando a necessidade do combate à “islamização” em seu discurso, evocando a unidade da nação francesa, estabelecendo uma clara oposição entre essas duas categorias.

A man holds a placard which reads "I am Charlie" to pay tribute during a gathering at the Place de la Republique in Paris

O presidente Hollande vem lidando de forma cautelosa com o tema e evitou citar o islamismo em suas declarações. Organizações muçulmanas ao redor do mundo vem divulgando notas de repúdio contra o atendado ocorrido em Paris. Somada a essa conjuntura, a utilização da violência como forma de luta política não colabora com o entendimento entre o Estado Francês e a minoria muçulmana e reforça a visão de segmentos da população francesa que enxergam a presença do Islã como uma ameaça.

O que se observa, portanto, é uma sucessão de equívocos que, por diversas razões – instabilidade econômica, falha na assimilação, entre outras –, favorece a radicalização de posições políticas no contexto europeu, com destaque para o francês, gerando um cenário de tensão social. Uma espécie de profecia auto realizadora do discurso da extrema direta que tende a enfraquecer a unidade europeia por meio do fortalecimento da identidade nacional em face ao “estrangeiro”, deixando os muçulmanos em situação ainda mais vulnerável na França, bem como no resto da Europa.

*Vinícius Marra Bivar é historiador formado pela Universidade de Brasília e mestrando em Estudos Europeus Contemporâneos na Universidade de Columbia (EUA), cujas pesquisas estão ligadas a temas como extrema direita e nacionalismo no século XX.

[1] Fonte: Endereço eletrônico do Parlamento Europeu: http://www.europarl.europa.eu/elections2014-results/en/country-introduction-2014.html

[2] Ver: Resultado das Eleições cantonais 2011: http://www.interieur.gouv.fr/Elections/Les-resultats/Cantonales/elecresult__cantonales_2011/(path)/cantonales_2011/index.html

[3] A posição completa da Front National acerca da imigração, incluindo a clausula citada, pode ser vista em: http://www.frontnational.com/le-projet-de-marine-le-pen/autorite-de-letat/immigration/

[4] Ver: http://www.bbc.com/news/world-europe-30685842

[5] Mais informações acerca do processo de assimilação dos muçulmanos em território europeu ver: MONSHIPOURI, Mahmood. Construction of Muslims in Europe: The Politics of Immigration. In: Muslims in Global Politics. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2009.

[6] Ver: http://m.huffpost.com/ca/entry/6430008

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