Infelizmente, Bolsonaro não é exceção no Brasil

Por Fábio Zuker*

Na última terça-feira (9), o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) protagonizou uma das cenas mais grotescas na história da recente política nacional: frente ao discurso da deputada Maria do Rosário (PT-RS), a qual elogiava o trabalho da Comissão da Verdade acerca da Ditadura Militar – que seria publicizado no dia seguinte, coincidindo com o Dia Internacional dos Direitos Humanos -, Bolsonaro fez um eufórico e descabido discurso em defesa dos militares, que se iniciou com uma agressão pessoal inaceitável à deputada do PT: ”Há poucos dias você me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir.” Jair Bolsonaro é um ser execrável. Um parlamentar nojento, misógeno, homofóbico, machista, racista, que representa o que há de pior no país. Não obstante, acredito que as recentes reações aos comentários estapafúrdios de Bolsonaro não tocam em pontos centrais a respeito do debate sobre machismos, estupros e direitos das mulheres.

Antes de mais nada, digo que o que me interessa aqui não é defender a minha opinião pessoal acerca da manutenção nem da cassação do mandato de Jair Bolsonaro. O que me interessa é, sobretudo, colocar algumas inflexões em como o debate tem se estruturado.

Sou, à priori, contra a personaliação de questões sociais: Adolf Hitler foi, sim, culpado pelo que ocorreu com a Alemanha nazista, mas ignorar a participação da sociedade e culpar apenas seu líder é ignorar a participação coletiva, e a natureza eminentemente social do fenômeno.

De modo análogo, Jair Bolsonaro é a epiderme de um fenômeno muito maior, o qual o transcende e que, em última instância, possui existência independente de sua pessoa. Vale lembrar que as ideias divulgadas pelo deputado a respeito da violência contra a mulher coadunam, de certo modo, com o que grande parte dos brasileiros afirmam.

Em uma pesquisa controversa divulgada esse ano, o IPEA havia afirmado que 65% dos brasileiros acreditam que “caso esteja vestida de maneira provocativa, a mulher merece ser atacada e estuprada”. A metodologia da pesquisa foi duramente criticada, e na mesma semana o IPEA soltou uma nota dizendo que na realidade ”apenas” 26% da população brasileira acredita que “caso esteja vestida de maneira provocativa, a mulher merece ser atacada e estuprada”. A nota incluía outros dados igualmente alarmantes, como “Os demais resultados se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros. As conclusões gerais da pesquisa continuam válidas, ensejando o aprofundamento das reflexões e debates da sociedade sobre seus preconceitos”

Obviamente, não me interessa aqui defender Bolsonaro, mas sim pensar que sua existência não é uma anomalia à sociedade brasileira, e sim um reflexo de seu modo habitual de pensamento. Me doi reconhecer que Bolsonaro não é a exceção, mas de algum modo faz parte do que se considera a normalidade no Brasil; versão exagerada, escrachada, de algo que se faz presente de modo sutil no dia a dia, mas não menos nefasto.

Obviamente, não me interessa aqui defender Bolsonaro, mas sim pensar que sua existência não é uma anomalia à sociedade brasileira, e sim um reflexo de seu modo habitual de pensamento. Me doi reconhecer que Bolsonaro não é a exceção, mas de algum modo faz parte do que se considera a normalidade no Brasil; versão exagerada, escrachada, de algo que se faz presente de modo sutil no dia a dia, mas não menos nefasto.

A relação entre o discurso de Bolsonaro com práticas sociais agressivas dispersas pelo corpo social tem que estar clara quando se debatem opiniões como as dele ou de Marcos Feliciano, Silas Malafaia, entre outros personagens que rondam nossa política. Nesse sentido, estamos vivendo pela primeira vez em muitos anos (e considero isso um efeito do processo de digestão social do que foi a Ditadura Militar) um enfrentamento público de ideias acerca da política – por mais grotesco que tenha sido, é um reflexo de nossa sociedade, que por muito tempo não se fez presente no debate público como agora.

O Brasil de hoje não é mais homofóbico, não é mais racista, não é mais sexista, não é mais classista ou mais machista do que o Brasil de antes. Somos tão racistas, sexistas, classitas e machistas como antes. Entretanto, acredito que embora os efeitos sociais dessas práticas nocivas fossem (e são) muito presentes no dia a dia, não se faziam visíveis no debate público como se fazem hoje.

O país vive uma polarização? Talvez. Mas é ela mais aguda do que anteriormente? Tenho quase certeza que não. Estamos apenas no plano do confronto de ideias políticas de maneira mais aberta, e isso é, sim (já ouço as críticas!) saudável para uma prática democrática/republicana.

A política é o confronto de ideias, o confronto e o tensionamento de projetos para o futuro de uma determinada comunidade. Infelizmente, Bolsonaro não é uma exceção e muitos brasileiros compartilham de suas ideias, de seus projetos. Ao invés de que se permaneçam calados, mantendo as coisas como já são (afinal, somos sim racistas, classistas, machistas e sexistas), que mais pessoas que compartilhem dessas ideias, desses projetos para o país o façam de modo público, para realmente termos uma arena política marcada pelos conflitos de ideias, de projetos – que estão, como os de Bolsonaro, sujeitos ao rechaço público e, como última consequência, sua cassação.

A sociedade civil e os seus representantes políticos têm o dever de debater projetos políticos antagônicos e decidir, abertamenta, publicamente, quais as medidas a serem tomadas frente a posições que considerem inaceitáveis – como o machismo do dia a dia, frente às violações de direitos básicos das mulheres, que também ocorrem cotidianamente.

Bolsonaro não é a exceção de um país que adora sua própria imagem como um país com liberdade sexual, enquanto é um dos campeões de violência contra a mulher.

PS: não podemos confundir, é claro, Jair Bolsonaro com a direita neoliberal. Bolsonaro é, sim, um fascista, com tudo o que caracteriza esse moviento político. O PSDB e outros partidos neoliberais participaram de sua luta contra a ditadura junto aos partidos de esquerda, contra projetos políticos como os de Jair Bolsonaro.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

Tags:, , ,

Categorias: Política

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: