Velhice como categoria socialmente construída

Por Veridiana Domingos* e Danielle Hajjar**

De acordo com o Censo 2010, estimou-se que a população brasileira com mais de 60 anos corresponde a cerca de 7,4% da população. Estima-se que em 2020, essa parcela da população possa chegar a 15% da população total do país. De acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio) lançada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)[1] do ano de 2012, os idosos somam 23,5 milhões dos brasileiros, mais que o dobro do registrado em 1991, quando a faixa etária contabilizava 10,7 milhões de pessoas.  O fato de os três estados mais populosos da região Sudeste abrigarem o maior número de idosos também reflete uma tendência registrada entre as regiões do Brasil: enquanto a população do Sudeste envelhece, a do Norte está cada vez mais jovem em termos relativos, uma vez que 57,6% da população nortista têm menos de 30 anos. Isso pois, todas as regiões estão passando por transição demográfica. A mesma tendência que a Europa viveu no século XX, estamos vivendo agora. O Norte está um pouco atrás, mas segue o mesmo caminho. Nessa perspectiva, a diferença é apenas descritiva, pois em termos de tendência histórica chegaremos todos a uma “pirâmide” com base estreita, coortes cada vez menores. O Norte também está envelhecendo, povoamento tardio. Diante deste cenário, como tratamos essa parcela expressiva da população?9707733052_511268822b_c

De maneira geral, na sociedade contemporânea, a velhice é vista como um problema a ser evitado, que é combatido como uma doença. O aspecto biológico da velhice a coloca em uma tríade velhice-doença-morte. O discurso sobre doença, saúde e velhice é social e historicamente construído e por isso temos que compreender que a velhice não é apenas uma questão biológica, mas também social e cultural. Hoje, estudiosos das áreas de sociologia, antropologia e do novo saber que se volta especificamente para a velhice, a gerontologia, mostram como a velhice é ladeada por transformações e pressões sociais. A velhice passa a ser a vista então como um lugar onde a natureza biológica se encontra diretamente a natureza social do homem. Simone de Beauvoir[2], intelectual feminista francesa, dedicou parte dos seus estudos à questão da velhice. Ela afirma que apesar de a velhice ser um destino biológico para todo ser humano, é certo dizer que este destino é vivido de maneira variável de acordo com o contexto social no qual o indivíduo está inserido. Isso porque alguns envelhecem mais rapidamente do que outros e nem todos vivem esse processo da mesma maneira, já que o envelhecimento estaria diretamente relacionado às condições materiais e simbólicas de cada indivíduo.  Na sociedade ocidental moderna há uma estigmatização e marginalização da velhice, enquanto em sociedades ditas “primitivas” as rugas, muitas vezes, podem ser sinal de respeito e conhecimento. O que determinaria situações tão diferentes? As organizações sociais e culturais se encarregam de privilegiar certas idades, como sendo as desejáveis para todo o sistema. O que vemos acontecendo na sociedade ocidental moderna hoje, pode ser explicado a partir de uma leitura marxista do problema que certamente está ligado à lógica capitalista de produção. Parece que o  envelhecimento está a serviço do ritmo frenético imposto pela tecnologia do processo produtivo, mas sem dele poder participar. Ainda seguindo uma leitura marxista seria possível dizer que os indivíduos, alienados, ou seja, sem crítica reflexiva e sem consciência total dos fatos, não conseguem reatar seu status de cidadão de direito, pois o mundo atual celebra os valores, o comportamento, a aparência e a moda dos jovens, isto é, daqueles que estão inseridos no sistema produtivo. A determinação e institucionalização do curso da vida, característico da modernidade regulamenta os estágios da vida ordenando-os em uma sequência linear. Assim, a relação instalada entre os recortes de idade e as práticas legitimadas e definidas para cada etapa da vida não estão diretamente envolvida com a evolução biologicizada da velhice.

Além disso, vivemos em uma sociedade, na qual o culto ao corpo é algo latente. Com a explosão publicitária, na década de 1950, vemos na mídia uma série de “incentivos” aos cuidados com o corpo, práticas de higiene, beleza e esportes. Logo em seguida, na década de 1960, há uma consolidação do estilo jovem como o novo padrão social e relegando a velhice a algo a ser negado ou escondido. Na década de 1980, para reafirmar essa tendência, surge a “geração saúde”, com grande aumento com os cuidados do corpo. E todo esse movimento vem sendo amparado e legitimado pela medicina estética.

Com isso, podemos dizer que a questão da velhice como categoria sociocultural não se reduz a negar apenas os aspectos biológicos do envelhecimento, mas sim, de ressaltar, concomitantemente, a carga social embutida na experiência de “ser velho”. Isso porque, mais do que o envelhecimento do corpo, a velhice é definida pelas interações sociais, pela maneira como o ambiente cultural e social determina e delimita as condutas nos mais diferentes estágios da vida. A velhice depende, sobretudo, de sentir-se, perceber-se velho.

 * Socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da USP e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Memória e Violência.

** Arquiteta formada pela FAAP, pesquisou na área de habitação social para idosos e atualmente trabalha com mercado imobiliário.

[1] Disponível em: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/09/21/numero-de-idosos-com-mais-de-60-anos-dobrou-nos-ultimos-20-anos-aponta-ibge.htm.

[2] BEAUVOIR, Simone. A Velhice. São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2003.

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Categorias: Sociedade

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