Chaves contra Bolaños: a história vista de baixo

Por Caetano Patta*

chavesA morte de Roberto Gomez Bolaños fez pensar sobre o que fazer de nossos vínculos positivos com obras e personagens, quando o criador tem posturas, aos nossos olhos, repugnantes. Muitos viram nos seus programas certo apelo a causas sociais, um humor avesso a preconceitos ou até um importante ponto de identidade para toda a América Latina. Para outros, Chaves e Chapolin foram programas absolutamente alinhados com a visão de seu autor. Seriam peças de um humor voltadas a anestesiar a pobreza. De toda forma, Chapolin Colorado e a turma do Chaves passaram a dividir espaço com um homem conservador e aliado a setores responsáveis pela desigualdade e pela violência social no México, como a Televisa e as oligarquias que dominam a cena política.

É possível separar o autor da obra? É desejável? Ao exaltarmos um autor pela sua obra, estamos perdoando ou contribuindo para acobertar seus podres? O fato de o autor ter determinada visão implica, necessariamente, que a obra promoverá essa mesma visão? Não é o propósito aqui problematizar a qualidade estritamente artística dos programas, mas sim o problema propriamente político que surgiu. Para tanto, vale traçar um paralelo inusitado, em que o populismo ajuda a pensar estes dilemas.

O conceito de populismo começou a ser desenvolvido por sociólogos argentinos na década de 1950, indicando um período histórico de transição de uma sociedade tradicional para uma sociedade moderna, marcado pela inexperiência política e o hábito do clientelismo da gente do campo. Posteriormente, no Brasil, passou a designar um estilo de governo e uma política de massas, marcada pelo tripé “repressão, manipulação e satisfação”. Para a teoria clássica do populismo, tratava-se de uma forma de organizar, controlar e utilizar a força política de uma classe trabalhadora passiva, vinda do campo e sem a consciência de si. É importante destacar que boa parte desta construção deu-se no pós-golpe de 1964, isto é, com o propósito de explicar como a política brasileira havia chegado ao fatídico desfecho autoritário.

A teoria clássica, no entanto, sofreu críticas. Segundo o historiador Jorge Ferreira:

“(para a teoria clássica do populismo) A história da classe trabalhadora a partir de 1930 reduz-se a uma espécie de ‘conspiração das classes dominantes’ sempre criadoras de dispositivos ideológicos, mecanismos eficientes de controle social, meios habilíssimos de propaganda política, instrumentos sutis de doutrinação das mentes, entre outros meios, para manipular, dominar e desvirtuar os trabalhadores de seus ‘reais e verdadeiros’ interesses”.

A partir da década de 1980, há um novo enfoque nos estudos sobre o populismo, influenciado pela “história vista de baixo” de Edward P. Thompson e pelo conceito de “circularidade cultural” de Carlo Ginzburg. As imagens, relatos e ideias dominantes não seriam aceitas passivamente, mas interpretados, modificados e transformados pelas classes populares. A respeito do trabalho de Thompson sobre a Inglaterra, Fernando Teixeira da Silva e Hélio da Costa apontam que:

“(…)os trabalhadores retiravam da ideologia formal do ‘modelo paternalista’ os recursos necessários às suas demandas e lutas, utilizando-o como algo que pertencia ao seu patrimônio adquirido. (…) aproveitando noções de justiça social e re-significando-as conforme suas experiências e expectativas.”

Getúlio Vargas era de esquerda ou de direita? Democrata ou entusiasta de doutrinas autoritárias? Aliado das elites ou dos trabalhadores? O fato é que é impossível narrar a história brasileira e a história de Vargas sem citar que o presidente enviou uma mulher grávida para os campos de concentração do nazismo, se valeu de recursos jurídicos fascistas para estruturar um Estado autoritário e governou 15 anos perseguindo e reprimindo seus desafetos. Por outro lado, é impossível contar a história das resistências populares e do própria Vargas sem mencionar a CLT e a Petrobrás, símbolos de proteção aos trabalhadores e do patrimônio público. O que um Vargas autoritário e declaradamente anti-comunista pensaria ao ver, dez anos após a sua morte, o partido que criou e seu herdeiro político golpeados – junto a sindicatos, comunistas, artistas e jovens estudantes contestadores – sob alegações de que o Brasil rumava perigosamente à esquerda? Segundo Emília Viotti da Costa, “os trabalhadores se apropriaram dos símbolos da elite e lhes deram novos significados, empurrando o peronismo, o somozismo e o varguismo muito além dos limites impostos pelas intenções dos líderes”.

No Brasil, grandes contingentes foram ignorados e não representados por séculos enquanto se construía por estas terras não uma sociedade, mas uma empresa voltada a alimentar mercados externos e proporcionar conforto a uma pequeníssima elite local. O chamado “populismo” compreende o primeiro caso de sucesso de uma política feita para as massas locais e, de certa forma, por elas. É até razoável, em alguns casos, sustentar que as lideranças nada mais queriam a não ser se aproveitar das massas para fortalecer a si e sua própria oligarquia. No entanto, é preciso reconhecer que “os de baixo” são também sujeitos ativos e que tomam para si aquilo que está a seu alcance para construir sua própria história, discursos e identidades. Participam ativamente, assim, da construção do significado histórico do fenômeno como um todo, que foge ao controle de um só homem.

Assim como a política dita populista, o programa do Chaves – independentemente do objetivo íntimo e original de seu criador – colocou o pobre, o desempregado, o inquilino, os órfãos etc. no centro e como protagonistas incontestes de sua arte. Ainda que trabalhássemos sobre a hipótese de que a intenção do criador fosse a de “domesticar” ou “imbecilizar” as massas, até que ponto a dimensão que o programa alcançou no Brasil não se deve ao fato de ter sido incorporado e acolhido, cumprindo socialmente certa função reflexiva na construção das identidades dos marginalizados e sobre questões sociais?

O protagonista não é o menino que tem todos os brinquedos, mas o que sabe brincar e do qual o primeiro depende para se divertir com seus brinquedos. Ali, crianças não precisam de “famílias de comercial de margarina”, com pai e mãe, para serem felizes. O desempregado está sempre atrás de emprego e o único trabalho do rico é cobrar o aluguel do pobre. Estas não são, seguramente, as únicas formas de enxergar as relações contidas no programa. Mas são leituras possíveis.

Terá Bolaños perseguido o objetivo de colocar à disposição dos pobres um imaginário em que o pobre é tão gente quanto o rico? O quão importante para uma criança pobre é se ver tão gente quanto uma criança rica? Fato é que tudo isso tem um potencial questionador se comparado a outras narrativas que escondem aquele que é marginal ao invés de trazê-lo ao centro do palco. Numa sociedade que marginaliza, incluir é transformador. E se Chaves foi mobilizado dessa forma por parte das crianças que o assistiram, o fenômeno parece fugir aos compromissos políticos de seu criador.

A história brasileira ensina que toda vez que o pobre é colocado no centro, um potencial questionador se cria, ainda que contraditório. Talvez nem Getúlio Vargas e nem Roberto Bolaños (e Silvio Santos) tenham contado com essa astúcia da história.

O programa do Chaves pode sim ser lido como portador de um potencial crítico, independente de seu autor. Salva-se assim a obra, reconhecendo que seu significado é construído pela grande capacidade comunicativa e criativa do autor e dos atores – o que deve ser reconhecido –, mas também pelo público, que não é mero telespectador.

E com Bolaños, o que fazer? O problema posto não é o de como superar as suas contradições, mas sim o de reconhecê-las. E como é dolorido… Assim, é possível criticá-lo de forma justa, sem abrir mão de nossos compromissos, e sem que seja necessário adorá-lo como um santo ou queimá-lo como um demônio, junto de sua obra. A obra está salva, pois é nossa também. Do autor Bolaños, que cada um faça suas contas. As homenagens não podem ser cegas, pois correm o risco de esconder aquilo que nos entristece em nossos ídolos, o que na prática se torna perdoar o que é imperdoável. Por isso, é importante que elas sejam precedidas de uma dose de crítica.

Deste que escreve, Bolaños receberia o reconhecimento de ser brilhante em muitos aspectos de sua arte. Mas, diferentemente do Chapolin, Bolaños não poderia ser meu herói. Meu herói não poderia tirar dinheiro do bolso e colocar toda a sua imagem a serviço de campanhas de políticos de direita ou aliar-se aos setores mais conservadores da igreja católica mexicana para fazer uma campanha contra o direito das mulheres de abortar. Meu herói não poderia ser contra manifestações da juventude, após o Estado sequestrar e entregar à morte 43 estudantes. Enfim, agradeceria Bolaños por ter deixado tantos elementos e sensibilidade para questionar tudo aquilo que ele defendia.

* Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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Categorias: Cultura, Opinião, Política, Sociedade

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um comentário em “Chaves contra Bolaños: a história vista de baixo”

  1. Diambad
    08/12 às 21:12 #

    Muito bom o texto, mais um q me empurra no caminho da sociologia.

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