Quando os olhos claros salvam vidas

Por Priscila Villela* e Veridiana Domingos**

 O caso da jovem ex-modelo Loemy Marques, encontrada nas ruas da Cracolândia de São Paulo (área situada nas imediações das avenidas Duque de Caxias, Ipiranga, Rio Branco, Cásper Líbero e a rua Mauá, na região da Luz), e que teve sua história contada pela Revista Veja do dia 23, está tendo grande repercussão no Facebook e na mídia em geral.2229832845_a3a302f067_b

O apresentador da Record, Rodrigo Faro, resolveu torná-la o entretenimento de seu programa de domingo. Os produtores do programa “Hora do Faro” procuraram-na na Cracolândia oferecendo-lhe uma oportunidade de participar de um quadro, o qual implicaria na sua internação em uma clínica de reabilitação privada.  A proposta é que a ex-modelo apareça “transformada” – vejam, em uma semana – no programa que foi apresentado no domingo, dia 30.

As notícias anunciam que “Loemy Marques, 24, vai aparecer com um aspecto mais saudável na ‘Hora do Faro’ (Record) do próximo domingo (30)”. Sim, um “aspecto” mais saudável. Praticamente um “dia de princesa”, quase uma reedição do antigo programa no apresentador Netinho, que colocava roupas novas e alisava os cabelos das meninas na crença de que aquilo as tiraria de sua condição de vida, muitas vezes, miserável.

Pode ser que o leitor julgue este texto como implicante face à “bondosa” tentativa de Faro e seus produtores de ajudar Loemy. No entanto, há de se retirar os véus dessa história, os véus sempre postos pela grande mídia e sua louca tentativa comercial de tornar histórias pessoais em produtos comercializáveis.

Algum tempo atrás surgiu na mídia a triste história do tal “mendigo gato” de Curitiba. O sucesso no Facebook fez com que lhe fossem oferecidas excelentes oportunidades, como emprego e casa. Hoje, felizmente, o rapaz tem dois empregos, está casado e espera um filho. Esse sucesso do “mendigo gato” desmistifica a ideia de que morador de rua é vagabundo preguiçoso. Ou seja, diante de uma oportunidade real, ele prontamente a aproveitou e virou um caso de sucesso.  É de se questionar, entretanto, por que apenas a ele foi oferecido um emprego? E tantos outros que vivem pelas ruas e passam desapercebidos pelos transeuntes? Raros foram capazes de gerar tamanha solidariedade e empatia.

Tanto Loemy quanto o mendigo gato se tratavam de pessoas brancas, de cabelos e olhos claros, remetendo às origens europeias tão presentes na classe média, média alta e alta do país. Ser empático é reconhecer no outro você mesmo, é a capacidade de imaginar-se nas mesmas circunstâncias do outro. Situações como estas, nos mostra o quanto o negro pobre é estigmatizado por grande parte da sociedade, é visto como o outro, o diferente. É aquele que não nos causa afinidade e parece estar em seu lugar: o lugar da rua, das drogas e da pobreza. Em contrapartida, o branco loiro, deitado no chão da rua ou nos meandros da Cracolândia, deve ser resgatado daquele “lugar que não te pertence”.

Diferentemente do “mendigo gato”, Loemy tem um vício, que não é simplesmente tratado com um banho de loja ou mesmo um emprego. Ele pode ser ocultado atrás de um rímel e um batom mas não resolvido em sua inteireza. O consumo e vício das drogas não podem ser tratados isoladamente dos contextos sociais e psicológicos do paciente.

 Carl Hart, neurocientista norte-americano especialista em drogas, em visita ao Brasil neste ano, destacou que nem todos os consumidores de drogas de fato se viciam. De acordo com uma pesquisa realizada pela UNIFESP (CEBRID), 17% daqueles que consomem cocaína se viciam na droga. No caso do crack, este índice é de 46% entre os homens e 54% entre as mulheres. O que diferencia as pessoas que viciam daquelas que não se viciam?

Segundo o especialista, fatores associados ao vício são estados de distúrbio psiquiátrico, depressão, ansiedade e esquizofrenia anteriores ao consumo da droga. O próprio distúrbio mental pode fazer com que a pessoa procure a droga para lidar com este problema. Não se pode afirmar correlação direta, mas Loemy foi abusada sexualmente por sue padrastro na juventude. Além disso, pessoas consomem drogas devido à sua condição social e por não ter opções melhores na vida ou devido à dificuldade em lidar com a substância viciante. O que Hart conclui, é que a maior parte dos usuários dependentes tem um problema mais profundo que é anterior ao consumo de drogas; e esse problema é comumente ignorado no tratamento ao vício. Ou seja, a origem da dependência pode estar em uma vida degradada.

Isso significa que, embora o programa da Record tenha encaminhado Loemy a um tratamento de reabilitação, o “dia de princesa” oferecido à ex-modelo e a exposição à qual a mídia a submeteu dificilmente contribuirá de maneira efetiva em sua recuperação. Essa será mais uma daquelas histórias-produto que depois de vendida ao público, é descartada. Quantas vezes a grande mída não fez isso? Quantas vezes não o fará novamente? E os outros que permaneceram ali? Que não receberam os braços estendidos da Record? Ali permanecerão. Meritocracias caem por terra, quando em casos como este, fica claro que seus olhos azuis é que a fizeram ser notada.

* Priscila Villela é formada em Relações Internacionais pela PUC-SP, mestranda em Relações Internacionais no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP) e pesquisa na área de Paz, Defesa e Segurança Internacional.

 ** Veridiana Domingos é socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da USP e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Memória e Violência.

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Categorias: Sociedade

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