”Não contavam com minha astúcia”: Chaves, Chapolin, Afeto e Televisa

Por Fábio Zuker

O ator Roberto Bolaños, criador de personagens famosos em toda América Latina, como Chaves e Chapolin, faleceu nessa última sexta feira, 28 de novembro. Sua morte é também ocasião para pensarmos o grande culto ao humorista, e levantarmos uma reflexão ao modo como a cultura televisiva se vale desse humor popular e suas relações com poder estabelecido.

Não fui um fã de Chaves e Chapolin qualquer. Quando pequeno, fui completamente aficionado, a ponto de não ir às aulas – com a cumplicidade ativa de minha mãe – para ficar vidrado em frente à televisão, assistindo às trapalhadas ”inocentes” dos personagens criados por Roberto Bolaños.

Vivo no México há três meses, tempo suficiente para saber que aqui, Roberto Bolaños não é muito bem visto; é conhecido por ter opiniões conservadoras, de direita, e trabalhar na Televisa – o meio de comunicação mais importante do país, que funciona como uma espécie de braço comunicativo do PRI, o Partido Revolucionário Institucionalizado, originário dos caudilhos que tomaram o poder depois da Revolução Mexicana1, ficou setenta anos no poder, saiu por mais uns tantos e acaba de voltar. Aqui, aliás, se fala do regime político do país como ”a ditadura perfeita”. Os mexicanos também não ficam lá muito felizes em ver que grande parte do imaginário popular que os latino-americanos tem do México vem do Chaves.

A influência da Televisa (equivalente à Globo na realidade mexicana) é tanta, e tão aliada ao poder estabelecido do PRI, que praticamente elegue o atual presidente, Enrique Peña Nieto, com o apoio de sua mulher, uma das mais reconhecidas atrizes de telenovelas no país – e que fazia, justamente, o papel de empregada que se casava com o patrão, e subia de vida. Outro exemplo estarrecedor da influência política da emissora televisava é a sua postura frente aos 43 desaparecidos (assassinados pelo Estado), e que eles defendem terem sido mortos por anarquistas afim de desestabilizar o poder – versão oficial divulgada em nota pelo próprio partido de Peña Nieto.

Repudio qualquer tipo de crítica elitista aos personagens criados por Bolaños. Não me interessa a separação entre cultura popular e alta cultura, como alguns críticos ao ator tem feito. Entretanto, não acredito que seja possível separar Chaves do esquema político no qual ele se insere. Para a minha geração (nasci em 1989), acredito termos uma relação demasiada afetuosa com esses personagens para entender as contradições envolvidas nos programas, o discurso ideológico veiculado pelo programa e as opiniões conservadoras do ator – que se vale do personagem para defender ideias retrógradas, como a revogação do aborto (que é legal na Cidade do México, mas não em todo país,- video aqui).

Por outro lado, especialmente no contexto brasileiro, Chaves se converteu a um símbolo de como fazer humor sem apelar para racismos, machismos e preconceitos – e foi reivindicado, com um certo grau de justiça, por fazer um humor simples, popular e inocente, capaz de encantar distintas gerações. Mas até que modo realmente inocente? Parece muito claro para todos a ideia veiculada por personagens da Disney, como o Tio Patinhas, preocupados em propor a lógica de trabalho capitalista, a economia e os investimentos. Acredito que exista nos episódios de Chaves uma certa estetização da pobreza (utilizo a expressão com muitas reticências), em que o programa se vale de um humor simples, bobo, despretensioso, com algo de melodrama mexicano, para mostrar uma realidade comum à América Latina: vizinhanças pobres e desestabilizadas, onde a vida é dura, mas não falta humor, tensões, carinhos e grandes histórias sedutoras da vida cotidiana.

Certo, temos que julgar a obra do autor pelo que ela propõe, e não por suas opiniões políticas pessoais. Mas até que ponto as duas não se confundem? Leni Riefenstahl era nazista, porém, grande cineasta. Seus filmes têm cenas incríveis, takes impressionantes, mas são, sim, filmes em homenagem à ideologia nazista. Mario Vargas Llosa tem opiniões abertamente neoliberais e é um dos maiores escritores de nossa geração. Mas seus livros, sim, coadunam com suas posições políticas.

Roberto Bolaños é conservador e um dos grandes humoristas de origem latino-americana. Mas sua obra é, tal qual a de Leni e de Vargas Llosa, interessada em promulgar certos valores no mínimo controversos. Me pareceria inocência acreditar que um humorista que cria um personagem chamado Chaves, que ”é pobre mas feliz e cheio de esperanças” – traço comum à realidade do subcontinente latino-americano – em uma emissora televisava que é o braço comunicacional do partido de direita no poder, não tenha algo a ver com a manutenção da situação de exploração social vivenciada do México à Patagônia…

1A Revolução Mexicana, iniciou-se em 1910, e sua data de término não é consenso entre historiadores (alguns dizem 1917, com a proclamação da Constituição Mexicana, outras com a presidência de Adolfo de la Huerta, em 1920, ou Plutarco Ellías Calles, em 1924). Foi um movimento que se inicia contra a situação social durante a larga e eurocêntrica ditadura de Porfírio Díaz. Seus principais líderes, Emiliano Zapata e Francisco Villa, eram ”revolucionários românticos”, que queriam seguir com a revolução. Conseguiram aprovar a reforma agrária e logo os caudilhos que eram os que realmente estavam interessados em governar começaram a desenvolver seus planos de governo, e a partir daí, com muitos tropeços no começo o PRI (Partido Revolucionário Institucionalizado), tem dominado a política nacional mexicana.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

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