Imigração nos EUA: um jogo de metáforas

O decreto presidencial de Barack Obama, que favorece imigrantes ilegais, passado na última quinta-feira, esquentou o debate entre o Congresso e o Executivo americanos. O líder republicano – e, portanto, oposicionista – no Senado, Mitch McConnel, afirmou que a ação do Presidente correspondia a “balançar uma bandeira vermelha em frente a um touro”. Para o porta-voz republicano na câmara baixa, John Boehner, “quem brinca com fósforos pode se queimar”.

“Sí, se puede!” foi o grito que acompanhou Obama em comício em Las Vegas, na sexta-feira. A página oficial da Casa Branca explica como e por que o Ato assinado pelo presidente deve beneficiar mais de cinco milhões de imigrantes ilegais. Primeiro, o governo deve garantir a segurança das fronteiras para evitar a imigração ilegal, com deportação imediata daqueles que se aventurarem a cruzar as lindes mexicanas. Segundo, deve-se buscar a expulsão de criminosos e não de famílias, com concentração de esforços em ações de defesa da segurança nacional e crimes; responsabilização de imigrantes por meio de uma checagem do histórico criminal e a partir da cobrança de impostos.

“No pasarán!”, diriam os republicanos, não fosse o espanhol a língua de 97% dos illegal aliens deportados dos EUA em 2010. É difícil saber se a má vontade republicana em relação ao tema da imigração tem fundo ideológico ou pragmático (ou ambos): é possível que seja mais um assunto em que, tendo poder para espezinhar o Executivo, a oposição faça seu papel de… oposição.

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Recente pesquisa da rede de TV NBC e do jornal Washington Post esclarece um fato interessante: a população americana não tem, por si, uma franca oposição aos imigrantes ou a sua legalização, contanto que eles passem pelo “background check” proposto por Obama e que paguem impostos. Curiosamente, quando questionados simplesmente se aprovam a legalização de imigrantes até então ilegais, 57% disseram “sim”. Quando a pergunta incluía as condicionantes de impostos e checagem do histórico, o número de “sim” salta para 74%. É importante ressaltar que a pesquisa foi feita entre 14 e 17 de novembro, uma semana antes do Decreto de Obama.

Seria arriscado afirmar que o resultado da pesquisa motivou a formulação do Decreto de Obama. Podemos, no entanto, afirmar que, de qualquer forma, o Ato proposto pelo presidente se aproxima dos anseios de maior parte da população americana. Por outro lado, a intransigência republicana em votar na Câmara dos Deputados o projeto de reforma da lei de imigração já aprovada no Senado, distancia-se da opinião pública.

Certamente, a oposição republicana ao ato executivo não se dá apenas em bases ideológicas. Há que se considerar que uma parte significativa desses imigrantes por ora ilegais pende para o ideário do Partido Democrata, logo, em um cenário não apenas de anistia, porém de concessão de cidadania, o Grand Old Party veria uma parte importante do país pendendo para seus rivais eleitorais.

Por fim, é importante lembrar que o processo de mudança demográfica pelo qual passa a Europa também afeta os Estados Unidos; basta ver os números de envelhecimento da população, principalmente os brancos. O escasso crescimento demográfico norte-americano, ainda que maior que o europeu, se deve em grande parte às ondas imigratórias. Esse rejuvenescimento da população vindo de fora poderá ser decisivo para que o país consiga manter taxas de crescimento econômico sustentadas e também reduzir a pressão sob a Previdência.

Resta ver se o ato monocrático de Obama forçará o Congresso a acelerar a apreciação da matéria. Caso vote uma lei contrária ao Decreto, o parlamento derrubará a proposta e, ao fazê-lo, contrariará a opinião pública. Para Obama, o decreto pode ser um “lavar as mãos” sobre o tema: se favorece, por um lado, as causas progressistas mais alinhadas às propostas de seu Partido Democrata, coloca nas mãos do republicanos, por outro lado, a fatura de um possível retrocesso na matéria.

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Categorias: Opinião

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