A queda do muro de Berlim: um laboratório para o mundo

Por Fábio Zuker*

Pariser Platz, a Praça de Paris. Localizada em frente ao Portão de Bradenburgo (durante os anos do Muro de Berlin, um território sem ”dono”, um vácuo de poder), é hoje um dos pontos mais turísticos da capital alemã. Foi ali que as grandes potências mundiais do pós-guerra estabeleceram as regras do jogo geopolítico internacional, que perdurariam por 45 anos (de 1945 a 1989 ou 1991).

Do lado esquerdo da praça (para quem olha diretamente ao Portão de Bradenburgo), o enorme prédio da embaixada norte-americana. Sua mensagem, com a grande bandeira estadounidense balançando sobre o edifício é clara: estamos aqui para garantir a ordem, tanto econômica, quanto política. Do lado direito da praça, um pouco mais longe do Portão, encontra-se a embaixada francesa. Na rua transversal, a britânica, que aparenta ter mais policiais e medidas de segurança do que seus pares americanos e franceses. Quatrocentos metros mais para o fundo, seguindo pelo Boulevard Unter der Linden (que os berlinenses dizem, para a perplexidade dos turistas, ser o seu Champs Elysées) está a embaixada russa, afastada.

Se em 1945 ali se esboçara o que seria a política de um mundo bipolar, a política da Guerra Fria, que dividia as potências ocidentais capitalistas contra suas contrapartes socialistas, acredita-se também ser possível dizer que foi ali, quando da queda do muro de Berlim, que se rascunhou a nova ordem internacional.

O mundo das ideologias políticas, do confronto entre as visões de futuro propostas pela esquerda e pela direita, não mais teria seu lugar. Isso ao menos do ponto de vista dos defensores do livre mercado, daqueles que defendem ser a imposição da política neoliberal ao redor do mundo um ato apolítico. Ou, o que talvez seja tão estarrecedor quanto, aqueles que defendem o projeto neoliberal como promotor de desenvolvimento econômico e liberdade ao redor do mundo.

Durante duzentos anos, da Revolução Francesa, em 1789, à Queda do Muro de Berlim, em 1989, a esquerda socialista e comunista e a direita liberal compartilharam uma crença fundamental: afastar-se de formas de dominação aristocráticas, caducas e arcaicas para a construção de um mundo mais livre. Para a esquerda não-anarquista, tal construção viria por meio de políticas sociais, da tomada do governo aristocrático ou burguês pelo povo, e reorganização do Estado em nome desse. Para a direita não-reacionária, tal liberdade viria pela instauração do livre mercado, e sua pretensão de liberdade política e de ação.

Falar que vivemos hoje em um mundo apolítico, pós-ideológico, como pretendem tantos pensadores, é ignorar que os mecanismos de implementação neoliberais (como argumentaremos abaixo, minuciosamente, fazendo referência à biopolítica foucaultiana) têm consequências políticas precisas, e que suas características tendem a favorecer certos setores da sociedade, em detrimento de outros. Do mesmo modo, seria impossível falar que os enfrentamentos políticos se dão da mesma maneira que se deram durante esses 200 anos entre a Revolução Francesa e a Queda do Muro de Berlim.

A mesma Pariser Platz, em frente ao Portão de Brademburgo, pode dar uma ideia muito precisa dos novos simbolismos envolvidos na ordem mundial neoliberal. Ao lado da embaixada norte-americana, e quase tão grande quanto ela, encontra-se a sede do Deutsche Bank, o maior banco alemão. Tal disposição urbana (o grande banco inserindo-se na praça onde estão as grandes potências) parece ilustrar a tese do pensador francês Michael Foucault, um dos primeiros a se debater com a questão do neoliberalismo1: o estado alemão do pós-guerra não estaria mais justificado por ideias nacionais, linguísticas, culturais, e muito menos de raça, mas pela economia neoliberal, pretensamente alheia a tudo isso – esboçado desde o fim da guerra por pensadores como Friedrich von Hayeke e Ludwig Von Mises, ambos da Escola Austríaca. A economia como base da estrutura do Estado alemão só se consolidaria após a reunificação.

Do outro lado da praça, mais próximo do Portão de Brademburgo do que a Embaixada francesa, está a Allianz Seguros, uma das maiores seguradoras do mundo, garantindo não apenas a existência de negócios internacionais e sistemas bancários, mas também o funcionamento de toda essa nova política internacional.

Entre os milhares de turistas que passam por ali para tirar fotos junto ao Portão, em meio a personagens fantasiados de soldados norte-americanos ou soviéticos, jaz também o reluzente prédio da Academia de Artes de Berlim, do mesmo lado da Embaixada dos Estados Unidos e da sede do Deutsche Bank. Sua função ali? Seguramente mostrar ao mundo a relevância da cena cultural berlinense. Mas não deixa de ser incômodo pensar que todos os projetos políticos representados pelas vanguardas (destruir o passado, construir o futuro!) estejam museificados por instituições que trabalham no mesmo contexto que essa. Sua presença ali, em meio a todo esse contexto político, não é fortuita.

Alemanha Pós-Muro

A Alemanha pós-Muro dificilmente poderia ser considerada uma Alemanha unificada. Por unificação, se supõem que ambas as partes haveriam contribuído para a construção da nova nação. Na realidade, ocorreu uma absorção: o lado comunista foi completamente absorvido pelo lado capitalista – sem adentrar nos detalhes das disparidades socioeconômicas que ainda subsistem à unificação (mesmo reconhecendo que houve uma redução dessas disparidades), embora elas sejam evidentes: índices sociais mais baixos, menor rentabilidade econômica e, pasmem, maior número de votos para os partidos comunistas e neonazistas.

O interesse aqui é o fato de que a Alemanha pós-queda do Muro de Berlim é, pela primeira vez, um país de ponta – fato excepcional para a nação alemã, cujos debates, desde antes da unificação pelo chanceler Otto von Bismarck, estavam centrados na temática do atraso. Há, ainda, uma hipótese controversa: o país que, antes mesmo de se concretizar como nação, sempre correu atrás para acompanhar a história de seus vizinhos ocidentais criou, implementou e exportou Europa afora, a partir da queda do Muro de Berlim, um modelo de como relacionar Estado e economia.

O atraso em relação às outras nações europeias unificadas (principalmente França e Reino Unido) foi um dos temas fundamentais do pensamento de Marx e dos pensadores chamados ”jovens hegelianos”. Esse mesmo atraso foi o que impulsionou o povo alemão, liderado por Bismarck, à unificação no final do século XIX, e à necessidade de colônias e de fazer parte da política imperial – que estão, por sua vez, na origem da Primeira Guerra Mundial. De modo extremamente singular, a ideia de atraso também se fazia presente no pensamento nazista: para Hitler e seus correligionários. A situação de miséria em que a Alemaha se encontrava durante a República de Weimar seria contraditória com o sucesso ao qual estaria destinada.

O neoliberalismo, em sua versão europeia, tal como demonstra Foucault em O nascimento da Biopolítica, surge em um contexto específico diante de um continente devastado pelo nazismo. Sua tarefa principal é argumentar o quão prejudicial para o corpo social é a intervenção estatal na economia, seja ela de origem nazista ou dos planos quinquenais comunistas (lhes parecia relativamente fácil de argumentar os nalefícios do controle estatal sobre o mercado), seja ela de origem keynesiana durante o New Deal (que pretendia a intervenção do estado em momentos de crise, estabilizando a economia através de geração de empregos, por exemplo). Keynes é talvez o adversário teórico contra o qual Hayek e Von Mises mais tenham se debatido.

Para que o mercado funcione e se organize de maneira autônoma, o Estado não deve intervir na economia, mas sim na sociedade, garantindo as bases para que o sistema funcione de um modo orgânico. Essas bases, por sua vez, seriam garantidas pela lógica da livre competição; qualquer um que a afetasse, estaria afetando o bem comum, e daí a necessidade de ser punido. Não por acaso, Foucault se debruça sobre o aumento do número de percentual de prisioneiros com relação à população nas sociedades que implementaram o neoliberalismo: o poder que antes estava concentrado na figura de poderosos soberanos, hoje se encontra microfisicamente disperso pelo corpo social. Assim, o crime não é mais julgado em sua potencial periculosidade ao poder do rei, do soberano. Se a economia se expandiu para diversas esferas do corpo social, se o poder se dispersou em microinstâncias cotidianas de julgamento, qualquer ato que ameace colocar o poder e a economia em xeque, torna-se um crime em potencial. Daí, por exemplo, aquilo que era antes considerado infração, ou algo ética/moralmente condenado, como falar palavrões ou urinar na rua, dentro da lógica de poder envolvidas na sociedade neoliberal é considerado um passo para a delinquência, um crime em potencial, a ser combatido.

A economia é a estrutura desse novo Estado, e é possível dizer que esse novo modo de relacionar política e economia tentou se expandir a nível europeu, com o advento da União Europeia. Esse sucesso econômico da Alemanha (sobretudo na sua então parte Ocidental, é claro) substituiu o modo como o fascismo (e o nazismo, mais especificamente) relacionava povo, nação, cultura e Estado.

Diante de tanta segurança oriunda da economia, esse modelo alcançou a Alemanha Oriental, incorporando-a. E, acredita-se, tentou ser aplicado no continente como um todo, não dando certo por uma série de motivos aos quais não nos cabe tratar aqui. Essa internacionalização da economia levada a cabo pela União Europeia (encabeçada pela Alemanha pós-queda do Muro de Berlim), está também na origem do ressurgimento de um pensamento de direita, que flerta com o fascismo, e saudoso das claras relações desmanteladas pelo neoliberalismo, entre nação, Estado e economia.

Hoje, com uma Alemanha unificada, e com uma economia de mercado estruturando o país, o atraso simplesmente deixou de fazer sentido. E daí uma sensação de orgulho muito diferente do nacionalismo alemão da primeira metade do século XX, como se dissessem: ”finalmente demos certo”, ”finalmente esse país encontrou, na prática, o lugar que sempre desejou em pensamento”, ”se erramos muito na história, agora não só aprendemos a jogar dentro das regras do jogo, como também propusemos modificações de sucesso” – para os alemães, claro: gregos, portugueses e espanhóis não estão provavelmente tão certos deste sucesso.

O sistema neoliberal arquitetado pela Alemanha substitui um modo de pensar que a chanceler Angela Merkel definiu como referente à ”Velha Europa” pelo da ”Nova Europa”, criando novas formas de dependências entre os Estados e enormes dívidas das nações mais pobres dependentes das mais ricas, para o seu processo de desenvolvimento, mas também das nações ricas com relação a seus bancos. Fato curioso, o Estado se vê como garantidor, mantenedor do sistema econômico bancário, ao mesmo tempo em que se encontra refém dele, não compartindo de seus lucros, mas sendo obrigados a salvá-los quando se encontram em crise: a lógica perversa de que os lucros dos bancos são privados, quando existem, mas os prejuízos públicos.

Nada mais significativo que a influência alemã na Grécia para entender esse ponto, e o modo como o Estado grego tentou fazer um plebiscito sobre sua possível saída da zona euro, ao qual prontamente a Alemanha interveio, dizendo que tal consulta não poderia ser feita, devido às dívidas gregas com bancos alemães; o que não favorecia em nada à população grega, mas também muito pouco à população alemã não-acionista dos bancos.

Incertezas

1989 foi o ano da suposta derrota do socialismo diante do capitalismo. Foi o ano em que a política neoliberal poderia romper fronteiras antes inimagináveis. Mas foi também um ano curioso, em que a festa capitalista por sua vitória contra o comunismo pouco durou.

O emergente debate ambiental internacional ganhou força que até então nunca tinha tido, e questionava a suposta hegemonia neoliberal a partir de seu interior. A vitória capitalista, representada pela Queda do Muro de Berlim, veio junto com a exposição de que a promessa de domínio total e ilimitado da natureza não se sustentava, e havia gerado terríveis contradições naturais e políticas. Claro, surgiram os ecocapitalistas tentando coordenar desenvolvimento capitalista com a preservação do meio ambiente.

Alguns falam em desenvolvimento sustentável, outros de antropoceno (entendendo a ação do homem na terra como um fator que passa a integrar o meio ambiente). O fato é que o neoliberalismo reinante no mundo pós-Muro de Berlim está longe de ser uma proposta apolítica, gerando novos modos de exploração do homem com relação ao homem, e tendo que enfrentar, mais do que nunca, a crise ambiental originária da exploração dos recursos visando lucros cada vez mais exorbitantes.

1Vide Michel FOUCAULT. O Nascimento da Biopolítica: Livro em inglês aqui, em francês aqui.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

Tags:, ,

Categorias: Política

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: