O desafio do segundo mandato

*Por Mateus Lessa

Nada menos do que conturbados serão os momentos finais de 2014 e os primeiros meses do novo mandato da recém-reeleita presidenta Dilma Rousseff. Logo após a vitória apertada nas urnas, com uma diferença de pouco mais de 3% dos votos, Dilma deverá contornar uma situação extremamente custosa para si: conter um princípio de rebelião no Congresso Nacional, capitaneada pelo deputado peemedebista Eduardo Cunha (RJ).

Cansados da falta de diálogo com o Planalto, alguns congressistas do PMDB começam a tecer uma nova rede de alianças, formada por PTB, PR, PSC e SD, a fim de constituir bancada de maioria numérica na Câmara e, assim, suplantar o PT. Isso significa uma ruptura nos rumos da aliança PT-PMDB, construída durante o governo Lula para garantir a chamada governabilidade do Poder Executivo e mantida na figura de Michel Temer (PMDB) na vice-presidência da República. Temer, inclusive, tem tido trabalho para conter a ruptura da legenda no Congresso.

Entre as dificuldades para a solução do impasse pesam i) a inabilidade da presidenta em lidar com o jogo político de Brasília, ii) a falta de um bom articulador entre o Planalto e o Congresso desde a saída de Antonio Palocci do Minstério da Casa Civil e iii)  o interesse do PMDB em descolar-se do PT visando uma possível candidatura do partido à corrida presidencial de 2018 [1].

Desde o pleito de outubro, já foram dois os reveses sofridos pelo governo no Congresso, a saber: queda do Decreto 8.243/2014, que instituía a Política Nacional de Participação Social (PNPS), e a convocação dos ministros Edison Lobão (Minas e Energia) e Neri Geller (Agricultura), ambos da base aliada (PMDB), para prestar esclarecimentos à Comissão de Agricultura da Casa. Lobão foi convocado para explicar a venda de 51% das Centrais Elétricas de Goiás (Celg) à Eletrobras, e Geller, pela decisão da pasta em transferir para o Lanagro/MG (Laboratório Nacional Agropecuário) a tarefa de fazer o controle de qualidade oficial para a vacina contra a febre aftosa [2].

Dilma Congresso

Além do Congresso, Dilma ainda terá a dificílima missão de se reaproximar do PT. Se em seus primeiros quatro anos de governo, Dilma fez questão de deixar bem claro ao Partido que o mandato era seu, ela agora se vê em situação bem diferente. Tem consciência de que sua reeleição deve-se em grande parte à militância e ao poder de mobilização do Partido dos Trabalhadores, e que deverá ceder na adoção de bandeiras tradicionais do Partido, como a reforma política e a regulação econômica da mídia [3].

Vale lembrar que a presidenta não é petista orgânica, tendo iniciado sua trajetória política no PDT do Rio Grande do Sul, do qual participou da fundação e onde obteve sua primeira experiência na administração pública, como Secretária de Fazenda da Prefeitura de Porto Alegre. Nas palavras de Daniela Pinheiro, na Revista Piauí de outubro, Dilma é vista como uma forasteira dentro do partido, por conta de seu passado de militância nas fileiras de Leonel Brizola [4].

A partir de 2015, espera-se de Dilma uma mudança no estilo de governar. O cargo de presidente, acima de tudo, é um cargo político. Se a Dilma “gestora” já se mostrou competente ao longo de sua vida pública, a Dilma “política” deixou muito a desejar em sua relação com o Congresso, partido, e empresariado. Como indicativo de mudança, a presidenta anunciou, já no discurso da vitória no dia 26 de outubro, um maior diálogo com a oposição e com os movimentos sociais, e futuramente deverá discutir propostas para recuperação da indústria com representantes do segmento [5].

Algumas das mudanças do segundo mandato deverão passar pela maior participação de um “núcleo duro” de Dilma, homens de confiança da presidenta que tiveram participação fundamental na corrida eleitoral e que provavelmente farão o meio campo da presidenta com o Congresso e com o PT, entre eles os Ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Miguel Rosseto (Desenvolvimento Agrário), além do ex-governador da Bahia Jaques Wagner, que já teve o nome cotado para ocupar inúmeras pastas [6].

Para reverter o quadro atual, Dilma deverá reinventar-se. Perfeccionismo, centralismo e intransigência deverão dar lugar à flexibilização, diálogo e maior autonomia a seus subordinados. O grande feito do presidente Lula foi ter colocado Brasília embaixo de seu guarda-chuva político. Ninguém espera de Dilma a mesma desenvoltura, mas todos cobram dela um esforço maior.

 —

* Mateus Lessa é graduando em Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Referências: 

[1] http://oglobo.globo.com/blogs/ilimar/posts/2014/10/16/o-pt-pede-agua-552168.asp – acessado em 05 de novembro de 2014

[2] http://www.istoe.com.br/reportagens/390080_CAMARA+CONVOCA+MINISTROS+LOBAO+E+GELLER+PARA+ESCLARECIMENTOS – acessado em 08 de novembro de 2014.

[3] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/11/1542054-dilma-aposta-em-uma-nova-formula-para-ponte-com-pt.shtml – acessado em 11 de novembro de 2014

[4] PINHEIRO, Daniela. “A AFILHADA REBELDE”. Revista Piauí, outubro de 2014

[5] http://www.agenciacti.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6505:mercadante-propoe-encontro-com-industria-para-discutir-propostas-para-alavancar-o-setor&catid=1:latest-news – acessado em 09 novembro 2014

[6] http://noticias.r7.com/eleicoes-2014/reforma-ministerial-mercadante-jaques-wagner-e-cardozo-devem-formar-tripe-de-suporte-a-dilma-03112014 – acessado em 11 de novembro de 2014

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Categorias: Política

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