Opinião | A verborragia pós-eleitoral

Por Natália Pollachi*

Não falo do resultado – neste texto, o resultado não importa. Falo das chocantes manifestações golpistas, preconceituosas e separatistas, inclusive de pessoas formalmente educadas e com acesso a todo tipo de informação. Certamente estas pessoas chamariam de tentativa desesperada e deprimente de instalar uma “ditadura comunista” se, em todas as vezes que o resultado fora oposto, tivéssemos visto essa mesma pregação golpista e de desqualificação do eleitorado. Como isso que vemos hoje pode ser chamado?

A democracia pressupõe o aceite do resultado. O livre resultado do segundo turno mostra que a apertada maioria ainda acha que o governo atual vale a pena, ou pelo menos que é preferível à outra opção. Desqualificar tal escolha é, sim, dizer que alguns votos valem mais do que outros, é dizer que as necessidades e realidades em que vivem alguns valem mais do que as de outros.

Não ser parte da apertada maioria não quer dizer que estejam fora do jogo, não quer dizer que não tenham que ser contemplados pelo governo. Quer dizer apenas que não foram capazes de eleger seu candidato em um pleito majoritário, que têm que fortalecer democraticamente seu projeto enquanto cobram e fiscalizam a execução do atual com todo o rigor. O olhar mais distante da oposição é valioso e também é parte fundamental da democracia. Para todos que não elegeram seus candidatos, parece o fim do mundo. Mas são quatro anos contados e foi uma eleição extremamente acirrada, apenas 51,64%! É exatamente a democracia consolidada que permite esse prazo pré-determinado de reorganização para uma garantida próxima tentativa.

Tento me consolar pensando que esse discurso golpista, preconceituoso e separatista nada mais seria do que aquela verborragia eloquente e vazia resultante da sensação de anonimato da internet. Realmente espero que seja “apenas” um tanto de ignorância histórica somada à covardia que berra a plenos pulmões quando acha que só fala para seus pares, não sem um pouco de desespero por aprovação. O vazio das manifestações golpistas travestidas pelo uso aleatório da palavra impeachment felizmente reforçam essa percepção.

Sei que a geração a qual pertenço e o grupo social com o qual convivo, tanto os governistas quanto a atual oposição, podem fazer muito mais e muito melhor com as ferramentas incríveis a nossa disposição. Espero que todos façamos as escolhas atemporalmente dignas, que não compactuemos com nossos rótulos de geração mimada, egoísta e inconsequente. Que aceitemos as regras do jogo também quando não ganharmos sem espalhar as peças no tabuleiro. Que saibamos participar dele com a intensidade, inteligência e pluralidade que também nos definem.


*Mestranda em Relações Internacionais no IRI-USP e analista de advocacy no Instituto Sou da Paz.

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Categorias: Opinião

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