Jogando com o vídeo: Beatriz Santiago Muñoz

Beatriz Santiago Muñoz é uma videoartista portoriquenha nascida em 1972. Seu trabalho põe em tensão os limites de documentais e ficção. Sua obra está atualmente exposta na Sala de Arte Público Siqueiros, na Cidade do México, até o dia 23 de Novembro.

Em uma das passagens que mais chamou minha atenção no livro Esculpindo o Tempo, o cineasta russo Andrei Tarkovsky, então desempregado por não conseguir obter dinheiro do estado para fazer filmes, traça uma reflexão sobre a veracidade da imagem cinematográfica. Incomodava-lhe a ideia de mise-en-scène, pois justamente pretender a organização daquilo que no mundo encontrava-se desordenado.

Com os vídeos de Beatriz Santiago Muñoz não estamos nem no plano do cinema ficcional, nem do puro documental. São trabalhos que por falta de definição, ou justamente por questionarem definições estanques, chamemos de videoarte. Trabalhos que se pretendem documentários, no sentido que trazem uma reflexão objetiva sobre algo que existiria no mundo real. Trabalhos que se pretendem ficções, no sentido em que realizam, encenações, artíficos imagéticos ou narrativos para demonstrar que a ”realidade” para qual apontam está sendo recriada, reencenada em filmes.

Não se trata de organizar o mundo real, tal como existiria independente de sua câmera; mas de criar situações em que se intervenha nele, refletindo sobre essa realidade social específica. Existe algo de antropológico em seu interesse, mas aqui, novamente, sem pretensão de que se poderia aceder às questões que lhe interessam tal como existiriam sem seu projeto específico.

O filme é, antes de mais nada, questionado em sua própria fisicalidade, naquilo que se encontra impresso na película, para além do que ocorre quando de sua projeção. Tal é o tema da série de 36 diapositivos projetados na parede, e que trazem fotos de 36 diapositivos encontrados pela artista em uma base militar norteamericana abandonada em Porto Rico. Onde antes existiam voos de pilotos de caça e testes com helicópteros, vemos resquícios em meio a borrões, remanescências que persistiram à humidade, calor e luminosidade aos quais essas películas ficaram expostas por mais de vinte anos.

daipositivos

Essa preocupação com as reminiscências também se faz presente em La cueva negra (2012). Dois meninos exploram uma zona encoberta por uma densa floresta, que é na realidade um sítio arqueológico sobre o qual se construiu uma autopista. Brincando, no meio da mata, e com um constante e incômodo ruído de automóveis, a exploração das crianças aponta, com certa inocência, para um contexto social que ignora rastros do passado para construir seu futuro, aqui concretizado em autopistas.

Outros são os jogos propostos por Beatriz Muñoz ao longo da exposição. Em Post-Military Cinema (2014), uma base militar norte americana abandonada (não fica claro se a mesma na qual foram encontrados os diapositivos ou outra) é filmada durante o anoitecer. Em um procedimento quase impressionista, durante os pouco mais de dez minutos do vídeo, a mudança de luz apresenta também uma mudança em tudo aquilo que se vê, quase como se por esse procedimento fílmico intensificasse a sensação de passar do tempo, e de transformação do local.

Em Este es un mensaje explosivo (2010), a forma como a fronteira entre ficção e realidade é interpelada ganha uma outra dimensão. O vídeo narra a história de Carlos Irizarry, um artista portoriquenho que na década de 80, em meio a conturbada história política do subcontinente latinoamericano, finge ter uma bomba para explodir um avião que ia aos Estado Unidos, solicitando a libertação de todos os presos políticos de seu país. Após ser preso, a defesa do artista afirmou que aquilo se tratava de uma performance. O registro do que aconteceu foi vendido, e a acusação aceitou a defesa de que se tratava de um projeto artístico. Na obra de Beatriz, em um primeiro momento assistimos ao artista contando sua história. Em um segundo, bailarinos são convidados para pensar, através de coreografia e gestos, como se referir ao caso.

Nesses vídeos, a realidade é recoberta por uma densa camada de instabilidade, as reflexões são propostas por meio de jogos e exercícios imaginativos, e o espectador encontra-se diante de um refinado questionamento acerca dos meios utilizados no projeto.

Por fim, o local em que se encontra a exposição é a Sala de Arte Público Siqueiros (SAPS), e que conta com murais de um dos três grandes muralistas mexicanos, ao lado de Rivera e Orozco. Na realidade o espaço era seu ateliê pessoal, e foi pensado pelo próprio artista para se converter em uma Sala de Arte Pública, condizente com a sua reflexão sobre uma que estabelecesse uma posição crítica com relação ao panorama socio-cultural em que se inseria. Sobre Siqueiros, seus escritos e sua obra dedicaremos, em breve, um outro post.

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Categorias: caos-america

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