O país do futebol sem amanhã

Por Aníbal Chaim*

Brazil fans watch World Cup (Foto: Ben Tavener)

Brazil fans watch World Cup (Foto: Ben Tavener)

Gol da Alemanha. Gol da Alemanha. Gol da Alemanha. Gol da Alemanha. Gol da Alemanha. Gol da Alemanha. Gol da Alemanha. Gol do Brasil.

A Copa de 2014 serviu para mostrar ao mundo ao vivo, a cores e às lágrimas, que o futebol brasileiro atravessa uma grande crise. Após o ‘Mineirazzo’, como alguns batizaram a humilhação sofrida pelo escrete nacional nas semifinais, a pergunta que ainda não calou é: “Qual a solução para o futebol brasileiro?”.

Eu acredito que a formulação da pergunta acima seja problemática pelo seguinte motivo: ao fazê-la, subentende-se que exista uma solução, e que ela somente não foi encontrada ainda. Eu não acho que esse seja o caso. Talvez a pergunta mais apropriada seja: “O futebol brasileiro tem solução?”. Se fosse feita a mim, a resposta seria: “Idealmente sim; pragmaticamente não, pelo menos no curto prazo”.

Não existe solução no curto prazo porque a crise é estrutural. Assim sendo, então, a solução só pode ser estrutural, certo? Pois bem, em termos ideais, a solução é muito simples: basta que se desloque o fundamento administrativo do nosso esporte da política para a técnica. Esse deslocamento (uma mudança estrutural) aparenta ser o caminho mais sensato para que vivamos dias melhores dentro de campo. Em termos pragmáticos, entretanto, a implementação da mudança estrutural que necessitamos é extremamente difícil – para não dizer impossível. Tentarei dar conta desse problema nos próximos parágrafos.

A condução administrativa do futebol em nosso país, desde que ele passou a ser jogado profissionalmente por aqui, é feita estritamente por questões políticas, e não técnicas. Há uma miríade de exemplos que podem ilustrar a frase anterior: a) a profissionalização do nosso futebol aconteceu “de cima para baixo”, por decreto do então presidente Getúlio Vargas, em 1933; b) foi no governo desse mesmo presidente que o futebol foi incorporado e propagandeado como elemento genuíno da cultura brasileira; c) o Campeonato Brasileiro foi instituído pela CBD a pedido do presidente Garrastazu Médici, como um elemento da política de “Integração Nacional” da Ditadura Militar; d) excetuando os quatro estados mais ao Sul do país (RS, SC, PR e SP), os maiores estádios de futebol de cada estado são obras públicas, em sua maioria construídos durante a ditadura e, em boa medida, reformados para a Copa que assistimos neste ano. Há mais exemplos, mas é melhor parar por aqui.

Os quatro pontos colocados acima evidenciam o seguinte fato: iniciativas de transformação do esporte por aqui foram sempre estatais e de fundo político, nunca de fundo técnico. Isso diz muito sobre o caráter da entidade administradora do ludopédio nacional: uma mediadora entre interesses estatais e interesses privados (de clubes e/ou federações estaduais). A única técnica requerida para isso é a de conciliar interesses; como os interesses mudavam conforme os governos passavam, a CBF se tornou um “órgão político privado”, pois era a única coisa que poderia ser.

Isso mudou após a redemocratização do país. No período pós-ditadura, toda e qualquer interferência estatal no esporte passou a ser absolutamente malvista. Eis então que o controle da maior paixão nacional caiu no colo dos dirigentes da CBF, que, desde então, sequer precisaram prestar contas de suas atividades (bancadas pelo dinheiro do torcedor, diga-se), fazendo sempre questão de ressaltar o caráter privado de sua instituição. Era a chance de ouro para que o nosso esporte finalmente fosse estruturado de forma séria, independente e eficiente. Infelizmente, a única mudança notável foi que a entidade que era máquina de produzir apoio político para governos se transubstanciasse em máquina de produzir dinheiro para seus administradores.

O enriquecimento dos dirigentes pôde ser conciliado com a gestão esportiva por muito tempo, principalmente com o advento dos títulos mundiais de 1994 e 2002. A questão é que faz pelo menos 20 anos que o Estado não interfere no futebol brasileiro, e até hoje nosso esporte vive de medidas paliativas: os clubes seguem se endividando acima de sua capacidade, a formação de jogadores é feita de forma pífia e orientada para a revenda internacional, os presidentes de clubes raramente têm o mínimo preparo para a função e os torcedores possuem influência mínima sobre a direção de seus clubes. Enquanto isso, a seleção nacional manda seus jogos nos EUA, onde o presidente da CBF leva sua namorada para passear com o dinheiro da entidade. Não precisa ser Sherlock Holmes para constatar que está tudo errado.

Entendo que a “guinada” técnica na CBF só pode acontecer de duas formas:

A primeira seria vertical; de cima para baixo: o Estado (agora democrático) reassume a liderança esportiva de outrora e decide que os descalabros administrativos no futebol já não podem ser mais aturados e que o ludopédio deve ser administrado definitivamente de forma eficiente, transparente e sustentável no longo prazo. Cria leis que regulamentem de verdade a gestão dos clubes e acaba com a festa na CBF. Receio, porém, que nenhum presidente da República dispor-se-á a colocar a mão (ou tocar fogo, de vez) nesse vespeiro, já que o custo político disso seria muito alto. Seria essa a única solução de curto prazo.

A segunda seria horizontal e interna, conduzida por atores insiders ao futebol: sindicatos de jogadores, dissidentes políticos da CBF, clubes e torcedores se unem para derrubar a atual estrutura de comando por inteiro e constroem de forma autônoma outra completamente nova, livre de todos os atuais vícios. Essa seria, porém, uma solução ainda menos viável que a anterior por dois motivos: em primeiro lugar, porque são poucos os que podem fazer algo que não têm rabo preso com a tradicional estrutura de poder da CBF. Em segundo lugar, porque os recursos ao alcance desses poucos são mínimos em relação aos daqueles que detêm o controle da máquina. Seria uma batalha absolutamente inglória.

Se nenhum dos atores está disposto a arcar com os custos de romper com o status quo, a tendência é que fique tudo como está, de forma que o torcedor é quem mais apanha. Enquanto isso, goool da A… chega.

* Aníbal Chaim é mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo com a dissertação “A bola e o chumbo: futebol e política nos anos de chumbo da ditadura militar brasileira”. Atualmente cursa doutorado na mesma instituição.

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Categorias: Esporte, Opinião

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