A naturalização do desrespeito: sobre machismo, violência e medo

Por Laís Azeredo Alves*

Recentemente, temos nos deparado com inúmeras notícias, depoimentos e histórias sobre os desafios que em pleno século XXI nós, mulheres, ainda somos obrigadas a enfrentar. A candidata Luciana Genro foi presenteada com uma chapinha pelo apresentador Rafinha Bastos – que parece bastante desocupado pra se preocupar com o estilo de cabelo da candidata. Ainda durante o primeiro turno das eleições, a candidata Marina Silva referiu-se a si própria como “carapanã” e à candidata Dilma, “mangangá”, por ser mais “fortinha”. Além disso, o mês de setembro foi marcado pelo julgamento do massacre das mulheres de Queimadas (PB), que foram estupradas e logo depois assassinadas ao reconhecerem seus algozes, conhecidos delas. Para piorar o caos, as famílias das vítimas sofrem hostilidades por parte de pessoas ligadas aos mentores do crime e há ainda alguns que tentam legitimar tamanha violência argumentando que as “vítimas mereciam o acontecido”. Outro fato marcante ocorreu com a atriz Emma Watson: após proferir um discurso de igualdade de gênero nas Nações Unidas e propor o engajamento dos homens na resolução das desigualdades por meio do Projeto “He for She”, foi ameaçada de ter fotos íntimas expostas em uma tentativa doente de deslegitimar seu discurso e seu caráter. Por fim, um caso de agressão verbal contra uma estudante carioca, que dentro da universidade (UFRJ), foi vítima de violência verbal e moral absurda, que representam sim a realidade que nós, mulheres, vivenciamos: de medo.

Dito isso, façamos algumas reflexões. É interessante (ou absurdo) como existe uma preocupação com os aspectos físicos das candidatas à presidência e não há o mesmo empenho nesta questão quando tratamos dos homens. Tampouco criticamos os homens com adjetivos que remetam a sua beleza, roupa, cabelo, tipo físico ou vida sexual. Por outro lado, é comum ler críticas com adjetivos como “vaca”, “puta”, “ET” ao se referir às mulheres. Teoria da conspiração? Eu diria que se trata de uma constatação dos fatos.

As mulheres sofrem abusos diariamente. O desrespeito é gratuito e tornou-se tão comum que nem percebemos quando o praticamos. Normalizou-se a ideia perturbadora de que nossos corpos são públicos, então não se deve estranhar que ao estar em uma festa tenhamos alguma parte de nosso corpo tocada, tampouco ser beijada contra nossa vontade. Mas que vontade? Não fomos nós que provocamos?

O machismo mata (Foto: Lorena Pajares)

O machismo mata (Foto: Lorena Pajares)

Aparentemente, nós, mulheres, estamos sempre querendo. Sempre provocando. Se formos estupradas ou se fotos nuas são divulgadas sem nossa permissão, a culpa foi nossa, que “nos submetemos a isso”, que “fomos burras”, “estúpidas” e “vulgares”. Não é isso que escutamos? Somos sempre culpadas pela violência verbal, física e moral que sofremos diariamente. Quantas meninas vão precisar cometer suicídio por não suportar o julgamento de não ter “se dado ao respeito?” quando, na verdade, são os outros que não nos respeitam.

Normalizou-se a perpetuação de pensamentos machistas hipócritas e retrógrados como o de “mulher tem que se dar ao respeito”, “mulher precisa ter mais livros do que sapatos”, “menina de família não anda com roupas assim”, “se vai sair vestida é porque tá querendo” (dentre outras asneiras), que ainda permeiam o ideário social de todas as classes sociais, de todos os níveis de educação e formação.

Infelizmente, aceitamos a ideia de que tudo isso é normal. Naturalizamos o desrespeito. Consideramos uma atitude comum escutar palavras de baixo nível de um desconhecido no meio da rua. Até porque para muitos, mulher adora escutar esse tipo de “elogio”, não é?  Imaginem alguém fazendo o mesmo com sua filha, irmã ou mãe?

Parece normal também que as ofensas sempre estejam relacionadas à imagem da mulher mesmo quando dirigidas aos homens, “filho da puta”, por exemplo. E mais, quando a intenção é ofender a mulher, recorre-se constantemente a atributos de beleza ou a comportamento sexual. Por que é tão difícil aceitar que o papel da mulher na sociedade é onde ela quiser?

Achamos normal o medo de sair sozinha por medo de ser estuprada. Naturalizamos nossa ausência de liberdade.

Não, não temos liberdade de ir e vir, porque parece que só nos respeitam ou só “nos damos ao respeito” quando estamos acompanhadas por homens. Também não temos liberdade de nos expressar, de amar, de viver, e nem sequer de nos vestir sem que nosso caráter seja julgado.

Tentaram implantar em São Paulo um vagão exclusivo para mulheres no metrô, que já existe no Rio de Janeiro, inclusive. Quão perturbadora é essa ideia de que os homens precisam ser separados das mulheres porque não conseguem reprimir seus instintos? Ainda não alcançamos a civilização?

Não, isso não é normal. Nada disso é normal. Também não é normal julgar o caráter de uma mulher pela roupa que ela usa. Não, o tamanho do short, do vestido ou do decote não tem nada a ver com você. Não, o meu corpo, o que faço ou deixo de fazer com ele também não tem. Não, não te interessa se tenho mais livros ou mais sapatos. Isso não define quem sou, nem minha inteligência. E não, eu não tenho que me dar ao respeito de acordo com prerrogativas hipócritas de ninguém. Qual a dificuldade em aprender a respeitar e a tratar as mulheres como iguais, como humanas? Até quando vamos continuar julgando a moral de uma mulher pela roupa que ela usa? Pela quantidade de experiências sexuais e pelos amores?

Parem. Parem de retroceder. Parem de perpetuar esse ideário machista, violento e massacrante. Isso é cruel. Mais que isso, é deprimente.

*Internacionalista formada pela Universidade Estadual da Paraíba. Atualmente é mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas, trabalha como voluntária na Caritas Arquidiocesana de São Paulo e desenvolve pesquisas nas áreas de Migração Internacional e Segurança Internacional.

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Categorias: Opinião, Sociedade

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2 Comentários em “A naturalização do desrespeito: sobre machismo, violência e medo”

  1. Mary
    14/11 às 20:00 #

    Muito mfe incomodou a história do vagão exclusivo para as mulheres. E ouvir que a mulher q não quiser usá-lo está disponível. Eduquemos nossos filhos para que nossos netos vivam com respeito.

  2. Sheyla
    05/11 às 22:32 #

    Muito boa colocação!
    Me impressiona quando os homens são sempre vitimados socialmente e estimulados a nao controlarem seus “instintos”, enquanto eles próprios dizem que as mulheres são o” sexo frágil” e tal.. Fragilidade é nao ter ou buscar desenvolver ou se esconder atras da sociedade que o apóia em dizer q os instintos sexuais ainda são maiores que a vida em sociedade! Ahhh,me poupe desse discurso!

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