Cidade do México: onde inexistem linhas planas

Por Fábio Zuker*

No ônibus que tomei, dessa vez sozinho, de San Cristóbal de las Casas (Chiapas) à Cidade do México, um sonho muito estranho me acompanhou durante o longo percurso de 16 horas.

Estrada mexicana. Foto de Veridiana Domingos

Estrada mexicana. Foto de Veridiana Domingos

Uma imagem nada convencional de uma cidade moderna sobreposta à cidade antiga Azteca. Embaixo da Catedral Central encontravam-se enormes templos, preservados, como aqueles que eu acabara de ver dois ou três dias antes, em Palenque, com turistas subindo as escadas frontais. Tudo estava mais ou menos nublado, chovia e relampejava. Eu não conseguia entender direito se estava caminhando em uma cidade moderna ou se caminhava por ruínas. Tudo se confundia, e era ao mesmo tempo muito real.

Isso, é claro, era um sonho, uma fantasia influenciada por muito do que as pessoas me contavam do que era a Cidade do México. Esse aspecto específico ao qual o sonho remetia, o fato dos colonizadores espanhóis terem construído sua cidade por sobre a Azteca, que então estavam arruinando, talvez fosse o ponto que mais me despertava curiosidade. Esse procedimento de sobreposição de uma cidade a outra, de uma estrutura física e simbólica tentando impor-se a todo custo, e por meio de processos extremamente violentos, diz muito sobre as lógicas envolvidas nos processos colonizatórios das Américas: os espanhóis construíram a Catedral Central realmente em cima do que era o coração da cidade Azteca – mas, como viria a descobrir alguns dias mais tarde, o Templo Maior não existe mais como tal, apenas algumas pedras permitem ver os resquícios de sua estrutura, daquilo que um dia fora.

Mas o que talvez seja mais interessante pensar a respeito do processo colonial, e de todos os processos de dominação em geral, é que a imposição nunca ocorre de maneira totalitária. A dominação apenas existe enquanto potência, constantemente frustrada por atos de resistência e subversão, por parte dos colonizados, e observar as tensões entre esses dois polos nos permite uma perspectiva muito mais crítica a respeito dos processos de hibridização – que não me parecem, aliás, de modo algum, uma exclusividade da realidade colonial, mas que se encontram no seio das sociedades ocidentais.

Cidade do México. Foto de Veridiana Domingos

Cidade do México. Foto de Veridiana Domingos

Apesar de toda a expectativa, minha chegada à Cidade do México foi marcada por alguns infortúnios: a instabilidade da relação que venho mantendo a distância estava me afetando de modo particularmente forte naqueles dias (talvez pela solidão da viagem, talvez por estar entrando em um contexto sociocultural completamente novo, e com o compromisso de começar a trabalhar imediatamente, em paralelo ao mestrado) e, do ponto de vista físico, mas certamente não independente daquilo que me passava no plano emocional, uma pesada infecção alimentar decorrida de um pozole (sopa azteca à base de porco e grãos) que me deixou uma semana de cama.

Alguns quilos mais magro, e com uma vontade louca de começar a trabalhar e conhecer a cultura local – o meu chefe já havia me dado uma semana para conhecer o Sul do país, e logo que cheguei estava impossibilitado de trabalhar – assim que pude, comecei a me aventurar pela cidade. Nada de festas, nem de bebedeiras em bares; acabei entrando de cabeça em visitar museus, centros culturais, andar pelo centro e ler muito a respeito da história e cultura mexicana: da revolução e muralistas às revoltas de Chiapas e uma mistura entre pensamento pós-colonial, crítica da modernidade e arte contemporânea que é exatamente o campo que me interessa trabalhar.

Comecei, igualmente, a acompanhar aulas na na Universidade Autônoma do México (UNAM), cujo título me parece muito sugestivo: Das vanguardas estéticas às vanguardas políticas. Centrado no debate latino-americano, com um professor chileno no mínimo controverso, as aulas, por um lado, me entediam de modo absoluto (e lá estava eu novamente ouvindo esse blá-blá-blá a respeito da história dos intelectuais – tema que, infelizmente, domina a área de sociologia da cultura na USP, faculdade da qual venho) e me deixavam completamente fascinado (é impressionante o desconhecimento que temos das produções culturais mais canônicas de nossos países vizinhos). A tese defendida pelo curso é de que as vanguardas no Novo Mundo começam como movimentos estéticos e logo se convertem em movimentos políticos.

Pouco a pouco fui desenvolvendo uma forte amizade com Ale, uma artista peruana a princípio muito silenciosa e tímida, e com quem eu viria a trabalhar algumas semanas depois, na montagem de sua exposição. A sua figura, logo de início, me fascinava: passava o dia em seu ateliê, desenhando, frente ao computador em que passavam filmes dublados em espanhol e que lhe serviam ao mesmo tempo de distração e inspiração para a composição dessas figuras deformadas, que lembram a uma mistura entre cubismo e figuras ameríndias e linhas tortuosas – uma combinação entre um mundo fantástico e subjetivo.

ale

Obra de Ale Wendorff, exposta em Inestable (Setembro, 2014, Cidade do México)

Conheci muita gente relativamente rápido, e logo nas primeiras semanas comecei a organizar o ciclo de filmes Cinemasoquismo (clique aqui para ver programa completo), uma parceria entre [R.A.T.], o centro cultural em que trabalho, e El Cráter Invertido, um espaço independente gestionado por artistas. A ideia da mostra veio a partir de uma série de leituras sobre o modo como filmes trazem diferentes questionamentos a respeito da violência, de como abordá-la nas telas.

Existe um debate já bem estabelecido no campo do pensamento estético e político sobre quais seriam as possibilidades de aceder a traumas e tragédias por meio de imagens, que poderia, ou não, suplantar uma incapacidade de verbalizar tais situações. O ciclo propõe uma inflexão a essas reflexões, ao projetar filmes cuja temática sadomasoquista, ou que estabeleçam uma relação sadomasoquista com o expectador ao expor a violência de modo cru. A proposta é pensar os desdobramentos dessa inflexão para um pensamento político crítico, inspirado no sadomasoquismo, e que será objeto de outro texto por aqui.

Falando em cinema, uma das mais claras diferenças entre a Cidade do México e outros lugares que visitei é a sensação de frescor no campo da cultura: tudo muito jovem, e com muito menos ranço do que países como Itália e França. A diferença entre as cinematecas francesa e a da Cidade do México é muito ilustrativa. Embora as duas tenham arquitetura arrojada, a de Paris parece estar demasiadamente centrada na história do cinema (o que é na realidade incrível) e em filmes consagrados (como os indicados ao Palma de Ouro em Cannes e de cineastas conhecidos), com muito pouco espaço para jovens criadores e um público muito velho. Na Cidade do México, por outro lado, a atmosfera da cinemateca se confunde com a de um show a céu aberto, com muitos jovens sentados na grama, esperando os filmes começarem, tocando violão e bebendo. Não tenho dúvidas que a diferença entre os ambientes se deve ao fato de que a Cineteca Nacional de México, para além de história do cinema e cineastas consagrados, exibe muitas produções de jovens diretores nacionais e internacionais.

O numero de bolsas disponíveis para jovens criadores do meio cultural é impressionante, e está historicamente associada a uma tentativa de manter intelectuais e artistas juntos ao governo. Tal política, implementada pelo PRI (Partido Revolucionário Institucionalizado, vejam bem, o nome não é mero acaso), fez com que se desenvolvesse um rico campo cultural no país, mas que também tivesse uma grande parte dos artistas próxima ao governo, como foi o caso dos escritores Octávio Paz, Carlos Fuentes, e do pintor Rufino Tamayo, entre outros. Não por acaso, os críticos ao PRI falam na existência de uma ditadura perfeita, justamente por não ser visível.

Sobre os muralistas, e em especial as leituras dos textos de Siqueiros, e suas obras, vou tratar em outro artigo. Termino apenas citando uma curiosidade: a inexistência de linhas retas na Cidade do México. Construída sobre outra cidade (Azteca), que por sua vez estava em cima de um lago localizado em uma zona altamente sísmica, tudo por aqui é torto, e leva um certo tempo até entender isso. A vizinhança (uma espécie de quinta do período porfiriano) em que vivo (a construção data de 1905) sobreviveu, não sem abalos, ao terremoto de 1985, que destruiu praticamente toda a Cidade do México.

Sede do [R.A.T.] Residências Artísticas por Intercambio. Um edifício porfiriano que sobreviveu a inúmeros tremores de terra e terremotos

Sede do [R.A.T.] Residências Artísticas por Intercambio. Um edifício porfiriano que sobreviveu a inúmeros tremores de terra e terremotos

Coisas das mais simples, como deixar uma caneta sobre a mesa para escrever os rascunhos dessas linhas, convertem-se em atividades que demandam a reeducação dos sentidos.

PS: tudo é tão torto, que o centro histórico parece, por vezes, um cenário de filme do impressionismo alemão. O processo de restauração da Catedral Central foi alucinante. Ao invés de tentar reerguer a catedral, que estava afundando, decidiu-se que os esforços de arquitetos e engenheiros deveria ser para que ela afundasse de maneira reta, certinha. Assim, instalaram algumas dezenas de andaimes, que funcionavam como um aparelho dentário, e cada vez que a catedral abaixava em um ponto, eles moviam as engrenagens para que ela afundasse reta.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

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