A campanha virou movimento?

Por Caetano Patta*

Mais de 30 mil pessoas percorrem as ruas de Recife em apoio à Dilma Rousseff.

Mais de 30 mil pessoas percorrem as ruas de recife em apoio à Dilma Rousseff.

O Brasil mudou. Quando um país muda, as visões de mundo e o comportamento político das pessoas também, assim como os partidos e discursos, cada qual no seu compasso. A campanha de Dilma, desde a segunda-feira que abriu o segundo turno, tem passado por inúmeras movimentações de grande significado. A esquerda ganhou mais espaço na campanha, no que se refere a “quem está”, “o que diz” e “como age”.

Algumas movimentações devem ser destacadas. Dentre elas, as articulações locais e setoriais de categorias profissionais, estudantis, de artistas e agentes da cultura, e de residentes no exterior que se traduziram, na maior parte dos casos, em manifestos bastante politizados e articulados pelas próprias categorias e setores por meio da internet. Além disso, cresceram e atingiram milhares de pessoas as manifestações públicas organizadas, ao mesmo tempo, pela estrutura oficial da campanha e por outros agentes, por cima e por baixo, gerando resultados surpreendentes nas ruas de todo o Brasil, entre comícios e churrascões. Por fim, destaca-se a formação de uma frente com personalidades que pesam a gangorra da candidatura à esquerda e estabelecem, ao centro, uma fronteira programática mais clara.

Cabe uma ressalva. As alianças não param pelo centro e isso não é segredo a ninguém. A referência aqui não são “acordos para governabilidade”, mas adesões públicas e ativas em relação a um programa político e projeção social da candidatura. Quem insiste em enxergar apenas um ou, o que é ainda mais nocivo para a análise, tomar ambos como a mesma coisa, deixará pelo caminho elementos da política que são fundamentais, especialmente, em momentos de polarização e potencial mobilização social como o que vivemos. A esquerda ganhou espaço na campanha petista, em seu discurso, repertório e planejamento de ações, ou seja, na forma como o projeto político se relaciona com a sociedade.

Podemos fazer menção à tomada pública e contundente de posição de artistas, como Otto e Emicida, Tulipa Ruiz, Nação Zumbi e Chico Buarque, este um velho conhecido do palanque petista. A nova geração ensaia fazer hoje o que a geração da redemocratização fez na sua época: emprestar a popularidade da cultura de massas à política. Conta também o envolvimento inédito dos mais expressivos quadros do PSOL, como Marcelo Freixo e Jean Wyllys, com direito a gravação para inserções de televisão, com críticas e reconhecimentos, e presença em atos de campanha, oficiais ou não. Podemos falar da adesão programática de Roberto Amaral, ex-presidente do PSB, e de Bresser Pereira, fundador do PSDB. Ressalta-se que o envolvimento dessas figuras em nada tem a ver com negociação de cargos num eventual governo e nem, muito menos, se dá em prejuízo de sua crítica e independência. Ainda, atos públicos e de ocupação do espaço público com novos formatos – muitas vezes lúdicos, mas longe de serem despolitizados – ganham espaço na cara que o projeto vai ganhando pelas ruas das cidades brasileiras, nos centros e periferias. Essas manifestações prescindem da mídia tradicional, mobilizando os recursos que a internet proporciona no que diz respeito à organização, divulgação e visibilidade. São atos organizados por diversos movimentos dinâmicos e criativos que possuem sua própria agenda e que, embora jovens, têm intensa experiência nos últimos anos em diversas capitais do país.

O que marca todas as movimentações de grupos sociais, personalidades e movimentos culturais e políticos é uma relação de duas mãos com o núcleo oficial da campanha, não mediada por protocolos e contratos. O partido não está encomendando à sociedade. Importantes setores estão falando e, ainda que com críticas, fazendo da candidatura Dilma o seu barco nesse momento de acirramento e definição do futuro. Não se está aqui argumentando que a campanha do PT “volta às suas origens”. A profissionalização, o dinheiro e o marketing não foram jogados para escanteio e seguem tendo grande papel, especialmente na comunicação de sínteses veiculadas na televisão que buscam o conjunto da população e não grupos específicos. Ocorre que o núcleo oficial está sendo obrigado a conviver com outros agentes e modos de comunicação e mobilização na construção pública da imagem de Dilma perante a sociedade brasileira.

A produção de discursos, o lançar de luzes sobre pautas e a ocupação de espaços sociais é ininterrupto e pulverizado, de modo que não se pode falar que, a esta altura da disputa, a campanha que tem Dilma à frente está sob controle absoluto de sua coordenação oficial. Imagine o seguinte: um novo apoio surge e é anunciado por “conta e risco” do apoiador (ou de uma categoria); as redes o amplificam; a peça se torna, naquele dia, mais relevante do que a peça que a campanha oficial havia lançado inicialmente. Torna-se impossível manter sob mão de ferro de uma coordenação oficial o tom da campanha neste contexto. O mesmo vale para eventos públicos e críticas ao adversário. Havendo aceitação da sociedade, a campanha do partido se vê incorporando e sendo incorporada por tal manifestação. Soma-se a isso a existência de espaços híbridos, presenciais ou nas redes, que tem forte ligação com o partido e, ao mesmo tempo, são muito mais sensíveis e permeáveis que a estrutura oficial de uma campanha a esta produção que vem de baixo ou por todos os lados.

Para garantir que não fique uma impressão diferente da pretendida aqui: o clima não é de cabo de guerra e disputa agressiva da linha da campanha por diferentes setores, embora preferências por um ou outro caminho sempre existam. Mais adequada é a imagem de composição de forças heterogêneas que extrapolam os limites do controlável por um único centro, o que empresta criatividade, um pouco mais de ousadia e aumenta a dimensão de um projeto político que segue sendo moldado por estes instigantes dias de outubro.

Não podemos observar tal fenômeno de forma descontextualizada. É possível enxergar a olho nu os efeitos que o aumento da temperatura política causaram na sociedade brasileira nos últimos dois anos: a intensa produção e exposição de discursos e demandas.

O espaço político à direita já está fechado com Aécio Neves, cuja campanha acaba por realizar também suas afinidades com movimentos e redes anteriormente estabelecidos, mas com característica diversa de ocupação do espaço público e reduzido envolvimento de movimentos coletivos e contestatórios – o que diz respeito à diferença entre a mobilização social da esquerda e da direita. Tucanos também começam a ocupar as ruas, mas em resposta à esquerda. Nessa dinâmica, se a esquerda ocupa a rua de forma mais descentralizada e heterogênea, com inúmeras estruturas agindo de forma combinada e não inteiramente subordinada à campanha oficial, a direita apresenta um movimento muito mais verticalizado e reativo. Ainda assim, é preciso reconhecer que há tempos o PSDB não era tão bem sucedido em reunir e mobilizar em torno de si a direita social.

Estando a direita mobilizada em torno dos tucanos, a sustentação e o julgamento do PT, no espaço político, vem da esquerda e de parte mais específica do centro. Assim, a candidatura de Dilma tem sido levada a adotar posicionamentos da campanha e redefinir suas fronteiras no espaço de duas semanas, tornando-se talvez a mais progressista dos últimos tempos, em forma e conteúdo. À esquerda, os direitos humanos e a luta contra preconceitos tem ganhado espaço, vide a mobilização que se deu na sociedade, e se condensou em torno da campanha petista neste segundo turno, contra a xenofobia ou a favor da criminalização da homofobia, por exemplo. Discursos em defesa da comunidade negra, LGBTT e feminina ganham espaço na boca da própria candidata em atos públicos. Ao centro, o discurso desenvolvimentista – que está longe de ser uma unanimidade e se choca com a questão ambiental e dos direitos dos povos indígenas – consolidou-se como fronteira do projeto que Dilma representa, o que fica claro nas declarações de Bresser Pereira, Roberto Amaral e no manifesto dos economistas. Sem apoios cegos, esquerda e centro reunidos em torno da candidatura Dilma se toleram taticamente.

Uma última questão chama atenção e merece ser pontuada. Inicialmente, a campanha petista adotou um discurso voltado para “os pobres”. No entanto, a estratégia parecia ter esquecido (como paradoxalmente o próprio governo e a campanha nunca deixaram de lembrar) que o Brasil deixou de ser um país de miseráveis e o imenso grupo emergente fez da camada média da sociedade não apenas a maior em número e consumo, como também em número de votos. Ao longo de toda a campanha, foi justamente esse setor que causou as maiores ameaças ao projeto de continuidade, alinhando-se com Marina ou Aécio. Possivelmente após recalcular a rota, a campanha de Dilma resolveu se dirigir a este setor. Para dizer o mínimo, é uma camada que consome e trabalha muito e tem muitas reclamações justas a fazer em relação aos serviços que necessita.

Mas a questão não se encerra na tomada de decisão de se dirigir a este setor. É preciso escolher se o discurso será feito a “trabalhadores” ou à “(nova) classe média”. E é justamente neste ponto que o desafio passa a ser político e estabelecer os contornos dos compromissos da campanha. A campanha de Dilma, e neste caso a sua coordenação oficial, resolveu se dirigir majoritariamente aos “trabalhadores”. Rompeu assim, inclusive, com a publicidade oficial do governo que trabalha com a ideia de um país de classe média. Essa opção é uma das movimentações mais ousadas e cheia de significados (e responsabilidades) desse momento da campanha. Dilma tem colocado como pivô de seus discursos o trabalho e tem tratado os programas de governo, perspectivas de futuro e críticas à oposição de uma perspectiva classista.

Tais características da movimentação social em torno da reeleição de Dilma Rousseff conformam – arriscamos dizer – um embrião de movimento de massas, com base social, plataforma política, lideranças sociais espalhadas por um espectro longo e uma multiplicidade de estruturas e ferramentas coletivas com capacidade de mobilização que guardam certa autonomia entre si. Ao invés da dispersão, característica do período recente pelo qual passamos, o momento parece ser de convergência. A polarização social cobra responsabilidade dos setores e a convergência se dá, ao que tudo indica, não em torno da candidatura petista, mas em torno de uma plataforma política ampla que foi puxada mais à esquerda, levando consigo, inclusive, a candidatura. Ou seja, o PT segue sendo peça central e com enorme relevância, mas o sentido dessa movimentação não é a defesa do PT, e sim de uma plataforma político-social mínima que encontra eco e plausibilidade de realização no partido. A plataforma mínima que reuniu setores e ferramentas em torno de Dilma parece ser o desenvolvimentismo ao centro e a defesa dos direitos humanos à esquerda, tendo como elemento unificador o trabalho. Vale pontuar que a questão ambiental e a questão indígena ficaram de fora da articulação que se conformou.

Todo embrião pode não vingar. O amadurecimento e fortalecimento deste movimento passa, caso Dilma saia vitoriosa do pleito, pela sinalização do novo governo à esquerda, por exemplo, pela manutenção do comprometimento com a Reforma Política com participação popular. Incentivos para sinalizar ao movimento e não à “governabilidade” nos termos dos últimos anos não faltam, uma vez que a legislatura recém eleita é a mais conservadora de nossa experiência democrática, marcada pelo compromisso de “acabar com a raça” do PT. Seguir com este exercício, para além desses pontos, seria entrar no campo da vontade e da futurologia. Este é o limite deste pequeno ensaio regado a sensibilidade da rua, do calor do momento e da curiosidade que precede um período que cobrará enormes reflexões. Aguardemos um intenso 2015.

Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Tags:, , , ,

Categorias: Política, Sociedade

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: