Quem vencerá as eleições?

Por Samuel Ralize de Godoy*

Eleições 2014 - (Foto: Marri Nogueira/Agência Senado)

Eleições 2014 – (Foto: Marri Nogueira/Agência Senado)

A enxurrada de números de intenção de voto para o segundo turno das eleições presidenciais de 2014, por si só, já é algo que confunde: como é que eles chegam a esses números, mesmo? Mais que isso, o fato de a maior parte dos institutos ter errado as previsões em relação a quem disputaria o segundo turno e, mais recentemente, as enormes divergências entre os indicadores fornecidos pelos diferentes institutos de pesquisa – só na última semana antes do pleito, Ibope e Datafolha projetam Dilma Rousseff como vencedora, enquanto Sensus e Instituto Veritas projetam Aécio Neves à frente da atual presidenta da República – nos fazem perguntar: enfim, em quem podemos acreditar, ou, dito de outra forma, será que podemos confiar no que dizem as pesquisas de intenção de voto? Para responder a perguntas como essas e, assim, fazer previsões verossímeis, é necessário ter em mente algumas características das pesquisas de opinião em geral.

Validade e confiabilidade

Em primeiro lugar, é primordial que as pesquisas sejam, ao mesmo tempo, válidas e confiáveis. Validade diz respeito a medirmos efetivamente o que gostaríamos de medir. Confiabilidade diz respeito à proximidade entre o resultado obtido a partir de uma amostra e o valor que se quer medir para o conjunto da população – o sociólogo Rogério Barbosa escreveu um texto muito claro sobre isso (clique aqui). Portanto, as pesquisas precisam, ao mesmo tempo, medir o que querem medir, e reportar valores próximos dos valores referentes ao conjunto da população. Mas, para isso, precisamos falar sobre amostragem e também desenho e aplicação de questionários.

Técnicas de amostragem

Discussão infindável entre acadêmicos e profissionais do mercado de pesquisas, a escolha das técnicas de amostragem consiste numa das maiores fragilidades (ou forças) de uma pesquisa de opinião, pois diz respeito à sua confiabilidade. No Brasil, os institutos de pesquisa estabeleceram o consenso de que é inviável praticar a amostragem aleatória simples, em que os indivíduos amostrados pelas pesquisas são sorteados entre todos os indivíduos da população. Por isso, os institutos optam por diferentes técnicas que se concentram, principalmente, em dois tipos: a amostragem por cotas e a amostragem probabilística com cotas. O estatístico Neale Ahmed El-Dash publicou um texto muito objetivo sobre o assunto, explicando o funcionamento de cada uma dessas técnicas (clique aqui).

Em termos gerais, a amostragem por cotas é aquela em que os pesquisadores precisam primordialmente selecionar indivíduos que preencham cotas de sexo, idade e eventualmente cor ou raça e faixas de renda, concentrando-se em vias públicas ou locais movimentados. Já a amostragem probabilística com cotas parte de um sorteio baseado na localização dos domicílios, distribuindo pesquisadores pelo território das cidades sorteadas para que entrevistem indivíduos que, nos locais sorteados, preencham as cotas socioeconômicas. Conforme defende Neale El-Dash, a segunda técnica é estatisticamente melhor que a primeira. Em ambos os casos, as cotas devem contemplar as proporções encontradas na população brasileira. Para fazer isso, os institutos calculam o tamanho necessário para que a amostra seja representativa, isto é, para que os resultados encontrados sejam confiáveis, distribuindo-a entre determinado número de municípios em todas as regiões do País.

Uma observação importante deve ser feita sobre a margem de erro reportada pelas pesquisas: a famosa margem de “mais ou menos dois pontos” seria válida se estivéssemos realizando pesquisas por amostra aleatória simples. Uma vez que as amostras são estratificadas, a margem de erro dessas pesquisas, na prática, não é conhecida. O fato de que os institutos acertam, em média, se deve à existência do que se convencionou chamar de Lei dos Grandes Números, uma máxima estatística que, grosso modo, estabelece que quanto maior o número de indivíduos numa amostra aleatória, a média da amostra – ou, no caso das pesquisas eleitorais, a proporção de votos para o candidato X ou Y – estará cada vez mais próxima da média da população (clique aqui).

Desenho e aplicação de questionários

O instrumento de coleta de respostas – o questionário – também é produto e motivo de intensa discussão entre acadêmicos e profissionais do mercado das pesquisas, visto que ele determina diretamente a validade das pesquisas de opinião, havendo cursos inteiramente voltados a refletir sobre o desenho do questionário (clique aqui). Elaborar uma pergunta de uma maneira particular pode induzir ou não certa resposta. Outro fator que pode influenciar a resposta é a maneira como se dirige a pergunta ao entrevistado. Por isso, os entrevistadores de institutos de pesquisa são treinados para ler exatamente o que diz o questionário, com o objetivo de minimizar o chamado “viés do pesquisador”, cuja presença afeta diretamente a validade do resultado obtido. Numa pesquisa que envolva temas polêmicos ou passíveis de discussão, o pesquisador não pode deixar transparecer sua própria opinião sobre o assunto, nem alterar o conteúdo da pergunta de forma a incluir ou omitir qualquer informação que possa alterar o conteúdo “espontâneo” da resposta do entrevistado.

Uma vez coletadas e registradas todas as respostas, os institutos de pesquisa costumam checá-las – também por amostragem, numa proporção que em geral varia de 20% a 30% do total de questionários aplicados – por telefone ou com a presença de supervisores no próprio local da entrevista, logo após sua realização. Assim, se o verificador detecta que as respostas coletadas não conferem com aquelas obtidas no momento da checagem, o instituto pode tomar providências como a aplicação de novos questionários e alguma sanção ao entrevistador envolvido.

Mas dada a velocidade de registro, aplicação e divulgação das pesquisas durante essas eleições, e visto o tamanho das amostras levantadas – só o Datafolha, por exemplo, tem utilizado mais de quatro mil entrevistados por pesquisa nesta última semana – não sabemos em que medida esses procedimentos têm sido realizados como manda o figurino. É claro que, considerada a reputação dos institutos e o risco associado a errar uma previsão, temos indícios de que tudo ocorra conforme se espera. Até que os resultados comecem a divergir entre um instituto e outro.

Quem vai vencer as eleições?

Vistas as principais características e fragilidades das pesquisas de opinião por amostragem, e considerando que os institutos brasileiros empregam técnicas de amostragem parecidas, a variação entre os resultados de um e outro instituto só contribuem para estremecer ainda mais os ânimos já acirrados destas eleições. O estatístico Neale El-Dash tem trabalhado os resultados das diversas pesquisas de opinião de uma forma diferente da simples medida de intenção de voto fornecida por cada instituto: através do portal Polling Data (clique aqui) ele aglomera não somente os resultados de diversas pesquisas de opinião, consideradas na série histórica das eleições, mas também modelos estatísticos que incluem análise de opinião pública baseada na interação dos candidatos em mídias sociais como o Facebook (algo chamado de “sentiment analysis”, uma técnica de big data que leva em conta as “curtidas” e postagens dos candidatos tendo em vista eventos relevantes como a oficialização de candidaturas, debates televisionados, entrevistas dos candidatos e a repercussão de notícias que afetam as candidaturas). Com tudo isso em mãos, produz-se um índice de probabilidade de vitória de cada candidato a presidente do Brasil e governador de cada estado brasileiro.

Até o início desta semana, o Polling Data reportava que Dilma Rousseff tinha menos de 20% de chance de ser reeleita, tendo em vista as recentes denúncias à CPI da Petrobras. Com a realização dos debates televisionados da Rede Bandeirantes, do SBT e da Rede Record e a divulgação das novas pesquisas do Vox Populi e do Datafolha, que passaram a projetar um empate técnico com melhora da avaliação de governo de Dilma Rousseff e um grande aumento da rejeição ao candidato da oposição, esse índice subiu para 49% na quarta-feira (22/10).

Com a publicação dos resultados de Datafolha e Ibope na última quinta-feira (23/10), que projetavam Dilma com 6 e 8 pontos percentuais, respectivamente, à frente de Aécio Neves, e novo aumento da rejeição ao candidato da oposição, o sistema passou a sugerir que a presidenta teria 84% de chance de ser reeleita. Porém, com a publicação dos resultados mais recentes do Instituto Sensus nesta sexta-feira (24/10), a dois dias das eleições, a probabilidade de reeleição caiu para 62%.

Até domingo (26/10), ainda teremos os resultados das últimas pesquisas realizadas às vésperas do pleito e a repercussão do último debate televisionado, exibido pela Rede Globo nesta sexta-feira (24/10), que deverá incluir trocas de farpas entre os candidatos tendo em vista o processo de investigação de denúncias de corrupção na Petrobras que envolvem membros de ambos os partidos concorrentes. No entanto, se cabe a este texto um palpite fundamentado, o rápido aumento da rejeição ao candidato da oposição e a melhora dos índices de avaliação do atual governo sugerem a vantagem da presidenta frente a seu concorrente.

Portanto, a menos que o Vidente Carlinhos acerte (clique aqui) e as próximas 48 horas invertam todo o cenário de ascensão da candidata petista construído paulatinamente durante as últimas semanas, Dilma Rousseff será reeleita.

* Samuel Ralize de Godoy é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e mestrando em Ciência Política na mesma instituição. É pesquisador júnior do Centro de Estudos da Metrópole (CEM-Cebrap). Estuda políticas públicas urbanas.

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Categorias: Política

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um comentário em “Quem vencerá as eleições?”

  1. robson
    24/10 às 21:27 #

    Parabens pelo texto,realmente acho que Dilma Roussef será reeleita.

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