O Contramanifesto dos Economistas

Por Guilherme Riccioppo Magacho* e André Bueno Rezende de Castro**

Na sequência de um manifesto a favor da presidenta Dilma Rousseff, outro manifesto, dessa vez contra o atual governo, foi escrito por 164 professores universitários de economia que, segundo eles, tem por objetivo “desconstruir um dos inúmeros argumentos falaciosos ventilados na campanha eleitoral”. A proposta parece bastante interessante, uma vez que, conforme alegam os manifestantes, os programas eleitorais apresentam realidades bem distintas daquilo que é entendido pelos economistas como fatos.

Não há dúvida de que eles estão no seu mais legítimo direito de expressar sua indignação. No entanto, ao contrário do que poderia se imaginar, o manifesto surpreende pelo caráter extremamente eleitoreiro (muito mais por causa do tom da argumentação do que pelos argumentos) e pela falta de proximidade com a realidade, talvez tão grande quanto os próprios programas eleitorais que criticam. A surpresa se torna ainda maior ao se verificar que os professores que assinaram o manifesto são, na sua grande maioria, extremamente respeitados pela sua produção acadêmica e pelo empenho com que discutem questões relevantes para o desenvolvimento do país. Ao mesmo tempo em que se reconhece a notoriedade dos autores, é espantoso perceber que um posicionamento político sobre economia ignore os avanços que o Brasil passou nos últimos doze anos em educação, saúde e redução das desigualdades sociais – particularmente esta última, algo praticamente inédito no país. Isso para não falar na continuidade da estabilização macroeconômica começada no governo Itamar Franco, sob a batuta do então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.

O texto, em forma de tópicos, começa questionando a existência de uma crise mundial. Segundo o manifesto, “entre as 38 economias com estatísticas de crescimento do PIB disponíveis no sítio da OCDE, apenas Brasil, Argentina, Islândia e Itália encontram-se em recessão. (…) Como todos os países fazem parte da mesma economia global, não pode haver crise internacional generalizada apenas para alguns”. Ora, os autores do manifesto deveriam esclarecer a diferença entre crise e recessão, e não confundir o leitor. Uma recessão é, sim, caracterizada por taxas de crescimento negativas. Já crises, não necessariamente. Tecnicamente, um país está em recessão se apresenta por dois trimestres seguidos taxas de crescimento negativas. A existência de uma crise, porém, deve considerar outros aspectos, como o comércio e o desemprego.

A queda da taxa de crescimento anual da China de 10% no final da década de 2000 para esperados 7% em 2014 e 2015, segundo o FMI, a desaceleração do crescimento dos nossos vizinhos latino-americanos (com economias menos complexas e com um parquen industrial menos variado que o brasileiro), que cresceram em média 4,4% entre 2003 e 2008, e hoje crescem 2,5%, segundo o Banco Mundial, e a estagnação da Zona do Euro, cujo crescimento não passará de 1% após dois anos de queda, com destaque especial para Alemanha, principal país do bloco, que deve entrar em recessão neste trimestre, segundo a The Economist, configuram, sim, um período de crise. Aliás, a própria revista britânica, que apoia Aécio, afirma que praticamente em todos os lugares do mundo a situação é problemática e os mercados financeiros têm piorado suas expectativas. É importante reconhecer isso, pois parte da queda da taxa de crescimento do Brasil (que deve ser próxima a zero este ano) é justificada por esses fatores.

Isso para não mencionar as importações mundiais, que segundo a OMC (Organização Mundial do Comércio), cresceram apenas 2% em 2012 (último dado disponível), caracterizando uma desaceleração relevante vis-à-vis o crescimento médio anual de 3,5% entre 2005 e 2012, além do desemprego atingindo recordes no mundo desenvolvido, apesar da perspectiva de pequena melhora nos últimos meses (segundo a EuroStat, o desemprego na Europa antes da crise atingia 6,8% da força de trabalho e, em 2013, atingiu 10,9%, seu recorde). Dessa forma, diante do fato exposto, fica difícil crer que a taxa de crescimento brasileira se manteria nos níveis da década de 2000, quando sua média anual foi de 3,6%, ainda que se reconheça que o Brasil tem problemas internos que precisam ser superados, o que explica sua taxa de crescimento ser menor.

O texto se torna mais parcial ainda ao considerar apenas as taxas de crescimento projetadas para 2014, não levando em conta os últimos três anos do governo Dilma, quando o Brasil cresceu 2,1% ao ano em média. O Brasil passa hoje por um aperto monetário (com elevação das taxas de juros para conter a inflação), o que ajuda a explicar também a baixa taxa de crescimento deste ano. No ano passado, vale lembrar, o país cresceu 2,3%, enquanto o México e os Estados Unidos cresceram, respectivamente, 1,1% e 2,2%, e a Zona do Euro decresceu 0,4% depois de ter decrescido 0,7% em 2012. Não é digno de economistas tão renomados ignorar fatos como esses. Se não reconhecermos que houve uma importante desaceleração no crescimento global e que grande parte do baixo crescimento do Brasil se explica por esse fator – além de que os países normalmente não estão no mesmo ponto do ciclo econômico –, o discurso se torna tão eleitoreiro quanto o criticado pelos autores do manifesto. Por fim, caso a China seja excluída do bloco de países emergentes, nota-se que não há descolamento do crescimento econômico brasileiro:

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Indo além do primeiro tópico, a manifestação “neutra” dos economistas prossegue com frases como “a semente do desemprego está plantada”, “perspectiva de retrocesso nas conquistas sociais”, além da mais forte: “O atual governo ressuscitou os fantasmas da inflação e da instabilidade macroeconômica”. Ainda bem que temos tipos menos alarmistas de economistas críticos à política do atual governo, como Delfim Netto que, ponderadamente, afirmou em sua coluna na Folha de São Paulo: “[a inflação] continua a namorar o limite superior de tolerância da meta (6,5%), mas, obviamente, não está fora de controle”. Os economistas sabem que não há fantasma da inflação rondando por aí, o que há, e isso seria ponderado de se dizer, é um governo mais complacente com a inflação, que prefere mantê-la acima do centro da meta a arcar com seus custos, principalmente o custo do aumento da taxa de desemprego.

É um fato que a inflação está sistematicamente acima do centro da meta, no entanto o Banco Central opta, no trade-off de curto prazo entre inflação e desemprego, por priorizar a contenção do segundo, isto é, não abre mão das baixas taxas de desemprego para que a inflação seja reduzida. O importante é que, aos poucos, com o ajuste dos preços administrados e um maior rigor fiscal, a inflação convirja para o centro da meta sem prejuízos ao nível de emprego.

O manifesto continua com críticas defensáveis, tal como a crítica à política de crédito subsidiado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) às grandes empresas, mas mantém um tom extremamente eleitoreiro, sem ponderar sequer seus efeitos positivos sobre a economia e sua importância para um país com mercado de crédito de longo prazo ainda incipiente. Afirma-se que essa política de crédito é arbitrária e que é feita de forma discricionária e irresponsável, e que o governo atual amedrontou os investimentos. Apesar de muitos economistas discordarem das políticas de subsídio ao setor industrial, espera-se de um manifesto que visa desconstruir argumentos falaciosos das campanhas eleitorais argumentos mais substanciosos que embasem afirmações tão peremptórias. Ou que pelo menos indiquem alguma referência que desconstrua os alvos de suas críticas. Sequer mencionam se as propostas do oposicionista Aécio Neves seriam as mais adequadas para resolver os problemas apontados.

Ainda que tenham tido impacto limitado, as desonerações setoriais do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) não foram feitas para tornar o Tesouro um balcão de negócios, tal como afirmado pejorativamente pelos autores. O objetivo era recuperar a competitividade da indústria perante o excesso de oferta de produtos manufaturados no mundo (a maioria originados das potências asiáticas) devido à crise internacional. O que se deve criticar nessa política é a falha de não ter se perseguido uma reforma tributária mais abrangente – algo, aliás, que será muito difícil com um Congresso ainda mais fragmentado (de 22 subiu para 28 o número de partidos) e conservador. Se houve mudanças das regras do jogo, sem dúvida houve mudanças para melhorar a burocracia de negócios, destinadas à economia como um todo, e devidamente ignoradas pelos autores.

A política industrial, tecnológica e de comércio exterior, reunida no Plano Brasil Maior, é composta pelo Reintegra (benefícios fiscais a exportadores), pelo Programa de Sustentação do Investimento (o PSI é a isenção fiscal e a concessão de crédito para a aquisição de máquinas e equipamentos e para investimentos em pesquisa e inovação), pelo fortalecimento dos mecanismos de defesa comercial (leis antidumping, combate a importações fraudulentas), pelo aperfeiçoamento do marco regulatório da inovação e pela desoneração da folha de salários, visando reduzir os tributos dos setores industriais que geram mais empregos, como têxteis e transformados plásticos, e das indústrias que possuem maior valor agregado, como a siderúrgica e a de transformação. Além disso, o Simples Nacional reduziu a burocracia e a carga tributária das micro e pequenas empresas, e houve redução dos custos financeiros dos investimentos com a queda da TJLP (taxa de juros de longo prazo), que é a taxa de referência para os empréstimos do BNDES.

Infelizmente, o manifesto dos professores universitários de economia contribui muito pouco para o debate, mostrando-se extremamente partidário e, muitas vezes, sem embasamento crítico, com frases superficiais como “fantasma da inflação”, além de informações incompletas, como os dados sobre inflação e crescimento, se comparados com o histórico do Brasil, com o resto do mundo e com a gravidade da crise mundial – que cremos ser ainda cedo para decretar seu fim. Há muito o que criticar à atual política econômica, e é isso que se espera de economistas importantes, como grande parte dos que assinaram o manifesto, mas é uma pena que isso não tenha sido feito de forma coerente e consistente. O manifesto é tão falacioso quanto os argumentos apresentados na campanha eleitoral, o que é triste, pois empobrece em vez de enriquecer o debate.

 —

*Guilherme Riccioppo Magacho é formado em Economia pela FEA-USP, mestre em Teoria Econômica pelo IE-Unicamp e doutorando pela University of Cambridge.

**André Castro é economista pela Universidade de São Paulo (FEA-USP), pós-graduado em Economia pelo Birkbeck College da University of London e mestrando no MSc Globalisation and Development da University of Manchester.

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Categorias: Economia

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19 Comentários em “O Contramanifesto dos Economistas”

  1. 28/03 às 18:45 #

    Não seria o caso de agora, a luz dos fatos, os autores escreverem um texto se retratando das bobagens que escreveram aqui?

    • André Castro
      29/03 às 16:54 #

      Prezado Luis Meloni.

      Primeiramente agradecemos pela sua audiência ao ler nosso artigo e seu comentário também, chamando-nos ao debate.

      Como toda análise de conjuntura econômica, ainda mais feita em período eleitoral e às vésperas de uma conturbada crise político-econômica, é fato que algumas de nossas colocações precisam ser requalificadas como passar do tempo.

      A crise política que se armou após as eleições e ainda sem data para terminar é um evento extremamente imprevisível em sua extensão e magnitude, ainda mais em termos de seus efeitos sobre a economia. A crise política agravou sobremaneira o desempenho da economia, paralisando os agentes econômicos e derrubando a taxa de investimento. Some-se a isso o comportamento errático das políticas econômicas propostas pelos Ministérios da Fazenda e do Planejamento em relação ao que o PT propõe, o que apenas agrava a situação de “stalemate” do Congresso, que ou sabota os planos de ajuste propostos pelo governo, ou paralisa ou adia as votações. Alinhado a isso, apesar de extremamente positivo para a democracia e para o ambiente salutar de negócios do país no longo prazo, o efeito da operação Lava Jato sobre os investimentos também foi muito maior do que poderia se prever quando da campanha eleitoral de 2014.

      No entanto, houve uma mudança de sinal do setor externo, que até o fim de 2014 contribuía negativamente para o PIB (via um déficit grande na conta corrente), porém a partir de 2015 esse efeito sofreu uma reversão com a desvalorização cambial e a leve recuperação dos preços das commodities, agora já contribuindo positivamente para o PIB. Um caveat sobre isso: é fato que o cenário externo, tendo em vista a evolução preocupante das economias dos EUA, Zona do Euro e China, ainda é bastante instável: não devemos nos basear unicamente no impulso externo para sairmos desta crise.

      Assumimos que devemos fazer um mea culpa no sentido de que deveríamos ter sido mais enfáticos à época sobre o impacto negativo no médio prazo sobre a economia advindo do desajuste das contas fiscais; de fato ele foi maior do que pensávamos e, ademais, esse fator ajudou a engatilhar e aumentar a crise política, criando essa bola de neve da qual o país ainda não encontrou uma saída. Somado a isso, apesar de termos criticado a qualidade e a falta de cobrança de resultados das políticas de desonerações tributárias e dos créditos concedidos pelo BNDES, deveríamos ter posto mais ênfase no fato de que ambas essas políticas contribuíram demasiado para a corrosão da base tributária junto a um aumento preocupante da relação dívida pública/PIB. Logo, elas precisam ser revistas, porém sem prejudicar o estímulo a indústrias que contribuem na agregação de valor e de tecnologia à cadeia econômica e sem prejudicar o estímulo ao mercado de crédito de longo prazo. Cremos que, neste sentido, na época da análise não vimos esses problemas mencionados como eles de fato se apresentam hoje em dia.

      Atenciosamente,

      André Castro e Guilherme Magacho

  2. 09/11 às 22:32 #

    Olá!
    Como os autores estão vendo as medidas tão inovadoras e corajosas da presidente Dilma Rousseff em seus primeiros dias depois das eleições, especialmente no que diz respeito à defesa intransigente de políticas sociais?
    Acredito que desta vez o país realmente elimina a pobreza, além de desmistificar de vez todo o pessimismo inventado do candidato oposicionista, não?
    H.

  3. 06/11 às 13:26 #

    só para relembrar o post a luz dos resultados economicos desastrosos. Parabéns a todos os envolvidos.

  4. João Pimentel Beltrano
    31/10 às 10:26 #

    Que discussão terrível, aqui nos comentários. Um fazendo perguntas pertinentes, apesar das alfinetadas desnecessárias, e o autor do blog respondendo só às alfinetadas.

  5. Cadu
    24/10 às 20:38 #

    Olá Guilherme,

    primeiramente gostaria de elogiar a contribuição sóbria ao mercado de ideias, apesar de não concordar em essência com a mesma. Contudo, gostaria de fazer uma ressalva. Julgo ser errôneo atribuir a pecha de eleitoreiro ao manifesto dos professores. Acredito que a intenção destes foi de traduzir um conjunto de ideias embasadas por um conhecimento altamente técnico para o grande público. Não tenho dúvidas de que as ideias ali expressadas estão corroboradas por análises robustas acerca da atual realidade econômica do país.

    Dito isso, gostaria de passar para a parte principal do meu comentário. Sou estudante de doutorado em economia assim como você. A partir de uma busca rapida no Google vejo que você é especialista em macroeconomia, então provavelmente tem mais recursos para analisar o cenário que descreverei adiante do que eu, que sou da área de economia do trabalho, por isso peço sua reflexão. Vou propor, então, um exercício simplório de reflexão acerca do futuro do Brasil com Dilma.

    Creio que você já tenha percebido que o mercado internacional não nutre nenhum apreço pela política econômica adotada nos últimos 4 anos aqui. Dada a situação fiscal complicada em que nos encontramos, haja vista o iminente não cumprimento da meta de superávit primário, e o fato de que as agencias de classificação de risco já sinalizaram com a perspectiva negativa para o Brasil, creio que a probabilidade de o país perder o grau de investimento num futuro breve seja bastante elevada.

    Somado a isso, o mercado americano já prevê o liftoff das taxas de juros americanas para o segundo ou terceiro trimestre de 2015. Quando esses dois eventos se realizarem, sofreremos profundamente com a fuga de capitais do Brasil. Invariavelmente, a já baixa taxa de investimento privado despencará, prejudicando ainda mais o crescimento da economia e apertando ainda mais o lado da oferta. Ademais, os dois fenômenos levarão a um aumento sensível do dólar. A restrição de oferta no contexto de estímulo a demanda que vivemos nos últimos 12 anos, bem como o aumento do dólar, somada à correção dos preços administrados como a eletricidade pressionarão ainda mais a já elevada taxa de inflação, trazendo aí sim de volta o fantasma.

    Nesse cenário, como Dilma sinaliza que não pretende abandonar a atual matriz macroeconômica, é possível prever sua resposta. O Banco Central, sob a batuta do planalto operará fortemente no mercado de câmbio de modo a tentar estabilizar o dólar crescente, o que levará a um esvaziamento das reservas cambiais do país. Quanto à queda do investimento, os bancos públicos serão estimulados a prover cada vez mais credito subsidiado para os campeões nacionais escolhidos pelo governo de modo a tentar segurar essa queda. Mais uma vez o governo tentará tomar em suas mãos o papel do mercado, e fazendo isso promoverá uma redistribuição altamente regressiva da renda nacional. Isso retroalimentará a deterioração da situação fiscal do país e entraremos num círculo vicioso, assim como nos anos 80, à época da “economia em marcha forçada”. Infelizmente, se esse cenário, que julgo provável, se realizar, voltaremos a ter estagflação, e aí sim estará plantada a semente do desemprego e estarão ameaçados os programas sociais. E nesse cenário, provavelmente veremos sucumbir de volta à pobreza a grande massa de pessoas que ainda se encontra em situação de renda vulnerável no Brasil.

    Aguardo pelo seu feedback. Imagino que você seja mais otimista quanto ao futuro, mas eu não consigo enxergar nada além de treva no futuro no Brasil com a atual gestão temerária da economia, como disse o Schwartzman.

  6. temp
    23/10 às 13:44 #

    O cenário externo do Lula era de máxima bonança. Ninguém está dizendo que agora não é pior do que antes. Obviamente é pior. Quão pior era comparado às seguidas crises do sudeste asiático, Rússia e Argentina no fim dos anos 90 é matéria de debate. Mas na propaganda populista do governo, a justificativa pela mediocridade dos resultados econômicos é que estamos vivendo o armageddon. Não juntemos Lula e Dilma no mesmo balaio. Com o primeiro a política macroeconômica foi virtuosa na maior parte do tempo. Quem dera poder dizer o mesmo da última.

    Agora, vamos com calma:

    – Falar que vivemos um aperto monetário (Oi? Estamos a 12 anos expandindo crédito para consumo!) e que por isso não estamos crescendo é fantasioso. Ao contrário do que se queira acreditar, não estamos crescendo porque o nível de investimento privado (não-subsididado) e os índices de confiança da indústria e do comércio foram ao chão desde o abandono do tripé (que Lula preservou) em favor da dita “nova matriz” (no atual governo), mesmo com juros mais baixos do que deveriam estar (já que a inflação de preços não administrados ronda 8% ao ano); (1)

    – Falar que após o ajuste dos preços administrados a inflação vai convergir pro centro da meta? Os preços administrados estão defasados. Quando ajustar, a inflação vai é subir ainda mais, principalmente considerando o efeito cascata sobre o setor produtivo e de serviços do reajuste das tarifas de eletricidade. A sorte é que o preço do petróleo caiu de modo a corrigir a defasagem da gasolina. Mas os prejuízos históricos da Petrobrás e a falência do setor sucroalcoleeiro ficam de legado dessa manobra; (2)

    – Fechar os olhos para o fato de que a desigualdade de renda parou de cair nos últimos 3 anos (apesar das “reduções” nas estimativas pontuais, não é possível rejeitar a hipótese de estagnação da mesma), e que o número de miseráveis aumentou em 2013 (motivo da polêmica no IPEA), e ao mesmo tempo bradar as melhoras destas estatísticas durante o governo Lula como conquistas do governo Dilma; (3)

    – E principalmente, juntar o crescimento de 2009 e 2010 do governo Lula com o crescimento da Dilma pós 2011 pra maquiar o fracasso desta; (4)

    Tudo isso [(1), (2), (3), e (4)] é um misto muito nefasto de desonestidade intelectual com dissonância cognitiva.

    • temp
      23/10 às 14:08 #

      Putz, agora que reparei que também tem um gráfico comparando 95 a 2002 com 2003 a 2013. É pior do que eu pensei.

      Triste ver gente com pós-graduação em economia atribuindo valor à comparação ingênua entre resultados em 2 períodos históricos diferentes sem controlar para nada… Eleitoreiro é o manifesto… tsc tsc..

      Do mesmo jeito que eles fazem PT vs PSDB, talvez eu faça um gráfico incluindo o crescimento do Costa e Silva e do Médici junto com o do FHC… Ainal, é tudo do balaio da direita. Aí vai ser crescimento com os direitosos VS crescimento com os esquerdopatas.
      Mal versus bem, respectivamente é claro. Talvez assim o mal vença…

    • Guilherme Riccioppo Magacho
      24/10 às 09:04 #

      Prezado(a),

      Obrigado pelos seus comentários. Porém, tenho que fazer alguns adendos:

      1) Realmente, a propadanda do governo coloca a culpa completamente na crise, e não é bem assim, ela não justifica uma taxa de 0,3%. Mas não podemos cair no mesmo erro e dizer que não tem crise, isso é tão falacioso quanto. A crise tem algum impacto, mas não a ponto de explicar completamente os 0,3%.

      2) O aumento dos juros para 11% é um aperto monetário. Se não fosse, por que seria feito? Apenas para aumentar os custos dos empréstimos do BNDES? Isso se reflete no fato do crédito ao consumo ter desacelerado e até parado de crescer nos últimos meses

      3) Concordo que há a necessidade de se ajustar os preços administrados, aliás, até o governo concorda. Porém, isso não pode ser feito de uma hora pra outra e, por conta disso, a inflação vai demorar para convergir para o centro da meta. Os preços não administrados não estão mais a 8%, e os administrados tem crescido mais do que a inflação (a energia, por exemplo, teve importantes choques de aumento). Há, no entanto, uma defasagem histórica que está sendo reduzida e vai impactar na inflação. Porém, isso não significa que “o fantasma da inflação” está de volta. Dizer algo assim é desonesto, falacioso e populista.

      4) Segundo a PNAD, a desigualdade continuou caindo nos últimos três anos. O IPEA se utiliza de dados da receita, os quais são bastante viesados, pois o aumento da formalidade nos estratos superiores leva a resultados que sugerem o aumento da desigualdade. Não acho que a PNAD seja limpa de viés, mas acredito que este é muito menor.

      5) É importante juntar os dados de 2009 e 2010, pois muito do resultado negativo do governo da Dilma se deveu às medidas expansionistas durante a crise (sim, elas tem seu preço). Foi em 2009, diante da crisse, que a “matriz” começou a sofrer alterações. O gráfico não tenta maquear nada, mas apesentar os resultados da mudança de estratégia, que buscou mitigar os efeitos da crise sobre o emprego e a renda da população mais pobre (em oposiçaõ a uma possível estratégia que manteria a matriz como antes).

      6) Com relação a sua última frase não vou me dar o trabalho de comentar, pois é extremamente estúpida e de mal gosto, dissonate do resto do seu texto. Acho que os pontos (1), (2), (3), (4) e (5) deixam claro isso.

      • temp
        24/10 às 10:20 #

        Bom, infelizmente prevejo que isto caminha para um debate eleitoral do tipo que vimos nas ultimas semanas:

        “Candidata, a senhora está enganada, não seja leviana…”

        Fica apenas a minha tristeza por testemunhar o comparativo ingenuo PT e PSDB por alguém da sua formação. E não, não é possível rejeitar a hipótese nula de estabilidade do índice de gini calculado pela PNAD. Imagino que você tenha conhecimento de STATA e possa replicar você mesmo os resultados para os últimos anos.

        Por fim, vou lhe conceder o beneficio da duvida e assumir que você é bem intencionado, por isso retiro meu comentário de que seu argumento é intelectualmente desonesto. Lamentavelmente não posso dizer o mesmo da dissonância cognitiva.

      • Guilherme Riccioppo Magacho
        24/10 às 12:22 #

        De fato, não é possível negar a hipótese nula de de que a o índice de Gini caiu, mas também não se pode afirmar que ela parou de cair. Imagino que você tenha conhecimento da diferença entre erro do tipo 1 e erro do tipo 2. Sua afirmação “a desigualdade de renda parou de cair nos últimos 3 anos” é errada também. O certo seria dizer que não sabemos se a desigualdade parou de cair ou não, os dados não permitem afirmar nem uma coisa nem outra.

        E se você me disser aonde no texto há comparação entre PTxPSDB, agradeço. Há um gráfico, mas isso não é utilizado como argumento no texto para dizer que PT é melhor ou pior que PSDB, apenas ilustra que a taxa de crescimento brasileira é bastante elevada desde 2003 (se você acha que isso é culpa do Lula é problema seu, eu não acho.)

        Por fim, com relação ao que disse sobre a dissonância cognitiva, você está no seu direito. Porém, isso só demonstra sua incapacidade de argumentar descentemente, precisando apelar. Eu, diferentemente de você, não vejo todas as leituras que diferem da minha como “discconância cognitiva”. Conheço muita gente da PUC-Rio e da FEA-USP, inclusive alguns dos professores que assinaram o manifesto, e discuto bastante com eles. Felizmente eles tem mais capacidade do que você de compreender diferentes perspectivas, não precisando baixar tanto o nível.

      • Guilherme Riccioppo Magacho
        24/10 às 12:25 #

        Ah, e se você não tem vergonha do que está falando, você poderia se identificar, ajudaria a saber quem você é.

  7. temp
    23/10 às 13:02 #

    Vou tomar as dores de meus ex-professores e de meus colegas que assinam a lista. Não entendi qual a crítica do texto que, para mim é, parágrafo a parágrafo, um resumo do manifesto seguido de uma observação de que “esperava-se mais de um manifesto de professores de economia tão qualificados, isso não contribui para o debate”. O que contribui para o debate, uma peça com a propaganda voando da mesa das crianças?
    O único ponto em que os autores realmente criticam o manifesto, é quando falam da política industrial. Aqui não tem muito o que discutir (ou como discutir): os autores tem uma visão desenvolvimentista, justificada pela formação de um deles. Paciência. É discutir teoria econômica com quem só leu Furtado.
    O que não ficou claro para mim são quais as “defesas” dos autores a todos os outros pontos criticados no manifesto: os autores não acham que a falha de comunicação do Banco Central e a ingerência política no COPOM prejudicam as expectativas de inflação? Não reconhecem que a inflação só está no atual patamar de 7% graças ao represamento dos preços administrados? Não reconhecem que o ambiente de incerteza e ingerência criado pelo governo Dilma tem sido responsável por queda nos investimentos?
    Honestamente, tenho uma certa dificuldade de entender essa defesa ferrenha de alguns jovens estudantes de economia ao governo da Dilma. Entendo que é bonitinho votar no PT, faz parte da ingenuidade da juventude. Mas é muita prepotência se julgar mais capaz de julgar o cenário econômico do que o universo dos professores de economia sérios do Brasil.
    Talvez o comentário seja inútil. Talvez só horas de estudo levem os autores a começar a entender um pouco de economia.

    • Guilherme Riccioppo Magacho
      23/10 às 15:26 #

      “os autores tem uma visão desenvolvimentista, justificada pela formação de um deles. Paciência. É discutir teoria econômica com quem só leu Furtado.”

      Bom, vejo que você é mais um daqueles que buscam desqualificar o outro ao invés de discutir. Não tenho saco para discutir com esse tipo de gente, mas vou abrir uma excessão, afinal, o texto é de minha autoria também.

      Para sua informação, não li só Furtado, mas li também Furtado. Não sei quem você é, mas tenho certeza que li mais (e melhores) autores que se posicionam contra política industrial do que você (inclusive o livro recente do Bacha com a Mônica). Porém, os estudos que são apresentados pelo mundo afora qualificam (e muito) a importância de uma política industrial para o desenvolvimento de setores estratégicos. Vale ressaltar a política americana com o gás de Xisto, que é vendido internamente a 1/3 do preço internacional. Se isso não é política industrial para desenvolver a petroquímica, é o que?

      Com relação aos outros pontos, não negamos no texto que não há preços administrdos represados, ou negamos? O que não é possível dizer é que o “fantasma da inflação” está de volta.

      Por fim, seu comentário que “Talvez só horas de estudo levem os autores a começar a entender um pouco de economia” mostra um pouco seu caráter, voltando a desqualificar, ao invés de argumentar. Acho que foi um dos cometários mais ridículos que já li, não apresenta nenhum argumento e as críticas são vazias.

      • temp
        23/10 às 15:55 #

        Jovem,

        Não tem muito o que argumentar. O texto de vocês não apresenta critica nenhuma ao manifesto – aliás, que puta arrogância o título. O texto tenta apenas fazer alguma defesa da atual política industrial a partir de ideias de um departamento que estuda teorias econômicas atrasadas em décadas. É inútil qualquer discussão.

      • Guilherme Riccioppo Magacho
        24/10 às 08:34 #

        Que bom que você entendeu o texto. Ao contrário do que você tenta se fazer crer, não se trata de uma defesa cega da atual política econômica, mas um ponderamento sobre o que é dito no manifesto. Mais precisamente, uma crítica a frases falaciosas como “não há crise” e “o fantasma da inflação está rondando”, que são facilmente desmentidas, bastando ler o WEO, do FMI.

        Quanto a sua frase “departamento que estuda teorias econômicas atrasadas em décadas”, vou relevar, é ridícula.

  8. s
    23/10 às 12:57 #

    ss

    • Guilherme Riccioppo Magacho
      23/10 às 15:25 #

      “os autores tem uma visão desenvolvimentista, justificada pela formação de um deles. Paciência. É discutir teoria econômica com quem só leu Furtado.”

      Bom, vejo que você é mais um daqueles que buscam desqualificar o outro ao invés de discutir. Não tenho saco para discutir com esse tipo de gente, mas vou abrir uma excessão, afinal, o texto é de minha autoria também.

      Para sua informação, não li só Furtado, mas li também Furtado. Não sei quem você é, mas tenho certeza que li mais (e melhores) autores que se posicionam contra política industrial do que você (inclusive o livro recente do Bacha com a Mônica). Porém, os estudos que são apresentados pelo mundo afora qualificam (e muito) a importância de uma política industrial para o desenvolvimento de setores estratégicos. Vale ressaltar a política americana com o gás de Xisto, que é vendido internamente a 1/3 do preço internacional. Se isso não é política industrial para desenvolver a petroquímica, é o que?

      Com relação aos outros pontos, não negamos no texto que não há preços administrdos represados, ou negamos? O que não é possível dizer é que o “fantasma da inflação” está de volta.

      Por fim, seu comentário que “Talvez só horas de estudo levem os autores a começar a entender um pouco de economia” mostra um pouco seu caráter, voltando a desqualificar, ao invés de argumentar. Acho que foi um dos cometários mais ridículos que já li, não apresenta nenhum argumento e as críticas são vazias.

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