Entre razão e emoção, afinal, o que dizem as palavras de nossos candidatos à presidência do país?

Por Jaqueline Zanon*

Dilma, à esquerda e Aécio, à direita. Foto: Ricardo Moraes/Reuters.

Dilma, à esquerda, e Aécio, à direita. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Os debates dos presidenciáveis transmitidos pela TV deram luz a diversos novos debates formados, porém, pelos eleitores. Dentre eles, a discussão acerca do discurso dos candidatos seja, talvez, o mais sem embasamento, uma vez que, para muitos, esta nem seja uma ciência. Mas, afinal, qual o papel da retórica no discurso político?

Retórica é a arte do bem-falar, de persuadir pelo discurso. E o que é persuadir? Persuadir é levar alguém a crer em algo. Tal aptidão pode ser inata ou ensinada a partir de técnicas retóricas, embora seja muito minimalista tratar tal ciência como “técnica”. É nela que apartamos a violência da fala – aqui, pois, não se ganha à força, mas sim a partir do domínio dos signos.

Quando falamos de retórica, adentramos ao universo da doxa, que é onde se encontram as opiniões das pessoas, levando-se em conta suas crenças, valores e características gerais. Um orador, ao construir sua fala, deve considerar tudo isso uma vez que a arte de convencer se funda no acordo, na harmonia entre influenciador e influenciado.

E o que é a verdade? Não se trata de nada absoluto – é, na verdade, um paradigma aceito como verdadeiro por determinado grupo. Persuadir aqui significa levar um auditório a crer que o contrário do que determinado orador diz não é apenas mentira, mas também falso, injusto, errado.

De maneira geral, dispomos a retórica em quatro partes cruciais para o sucesso em sua elaboração: 1) a invenção, isto é, a busca de argumentos e a compreensão do assunto em pauta; 2) a disposição, a ordenação, a organização interna do discurso; 3) a elocução, que trata do estilo, da redação, da vivacidade e da clareza presente no discurso; 4) a ação – talvez a maior qualidade de um orador –, a proferição do discurso considerando-se voz, dicção, mímica, gestos.

Ainda, consideremos a memória parte essencial do discurso oral, pois, associada à criatividade de forma a lidar com improvisos, é de suma importância para se construir a eloquência. Esta memória, aliás, deve tratar sempre de ser redundante – o auditório deve estar a par do que está sendo discursado o tempo todo, com repetições sutis –, possuir frases curtas e expressões familiares de forma a fazer com que seu auditório fixe ideias, repita seu discurso e amplie seu campo de ouvintes e adeptos.

Cabe também suscitar as figuras de linguagem, pensamento e construção, que funcionam como uma fruição para facilitar a aceitação do argumento. “Se argumento é prego, a figura é o modo de pregá-lo”[1].

Uma retórica efetiva requer ainda do logos, que trata da razão, da argumentação; e do ethos e do pathos, que tratam das emoções. A argumentação “constitui um método de pesquisa e prova que fica a meia distância entre a evidência e a ignorância, entre o necessário e o arbitrário”[2]. Argumentar é apresentar um ponto de vista de forma tão forte que o interlocutor aceita o que lhe foi passado como verdadeiro. Um texto argumentativo é feito visando a seu interlocutor. O objetivo deste tipo de texto é sempre convencer, persuadir, levar o ouvinte a concordar com o que lhe fora apresentado. Por isso, considera-se que a argumentação é eficaz quando chega a interagir com o outro, fazendo-o concordar, ainda que sem perceber, com os argumentos expostos. A necessidade de uma teoria acerca da argumentação nasce da demonstração, que é fundamentada na lógica formal. A demonstração se baseia na proposição de premissas indiscutíveis, tal como 2 + 2 = 4, ou o céu é azul. Para esta lógica, provas devem ser apresentadas para que seja efetiva. No entanto, quando não se pode, de fato, demonstrar, saímos da lógica e adentramos na argumentação. A argumentação não persegue o verdadeiro, mas sim a adesão de indivíduos por meio de artifícios do bem-falar. Argumentar é apresentar um ponto de vista de forma tão forte que o interlocutor aceita o que lhe foi passado como verdadeiro. O ethos corresponde ao caráter moral que o orador deve assumir (mesmo que não o tenha de fato) para ganhar confiança do seu público, pois sejam quais forem seus argumentos, eles nada significarão se ele não tiver a confiança do auditório. Ao mesmo tempo, o orador deve mostrar-se sensato, capaz de dar conselhos razoáveis e pertinentes; parecer sincero, sem dissimilar o que pensa ou o que sabe; e simpático, disposto a ajudar. Já o pathos mexe com as paixões, desejos e emoções do auditório.

A retórica provavelmente antecede os gregos, mas os estudos iniciam-se com eles já que não existem registros anteriores a tal período. Estes utilizavam dela como forma de recorrer à justiça. A palavra “retórica”, aliás, carregou por muito tempo conotação negativa e até perdeu um tanto de seu valor por ser entendida como uma prática de sedução que engana e convence por manipulação.

Tendo como base esta breve fundamentação, pode-se dizer que Aécio Neves apresenta um perfil bem traçado dentro deste campo de estudo. Seu ethos é formado bastante a partir da perspectiva de um salvador da pátria, como quando diz “sabe qual a palavra, candidata, que eu mais tenho ouvido? Libertação. ‘Aécio, nos liberte desse governo do PT’”[3]. O candidato peessedebista dialoga com seu público ao passo que repete em seus discursos o mesmo que o último conclama. Atribui-se condições de irredutibilidade, ou seja, ninguém mais poderá fazer aquilo que propõe uma vez que a oposição é a ocasião e, se até agora não fez, como virá a fazer? O senador é o candidato que vem para fazer diferente. E o que leva seu público a crer nisso? Justamente, o emocional. Para além da questão antipetista, Aécio conseguiu, ainda, anexar ao seu lado Marina Silva e Renata Campos, vice e esposa, respectivamente, do presidenciável Eduardo Campos, morto num trágico acidente de avião, em agosto. O apelo – que, a propósito, surgiu de todos os candidatos – mostra solidariedade, humanidade, compaixão e sintonia com um povo claramente emotivo e passional que é o brasileiro.

Por outro lado, o candidato apresenta forte presença do antiethos em sua fala, isto é, a depreciação da oposição para sua própria exaltação como quem diz “ora, o povo clama por mudanças e nós somos o partido da mudança!”. Com as constantes críticas ao governo atual, busca mostrar indignação e dividir do sentimento que sabe que seu auditório sente.

A verdade, tão presente em seu discurso, e a réplica à presidenta de que a mesma apenas fala “mentiras”, apresenta tanto o paradigma construído pelo candidato por meio do antiethos quanto no que diz respeito ao uso de repetições e redundâncias para que seu público-alvo adira e, principalmente, repita sua fala.

Ainda, direciona-se constantemente ao seu pathos, se colocando como um deles e causando a identificação, o casamento entre influenciador e influenciado como em “todos nós, brasileiros, acordamos a cada dia surpresos com novas denúncias”.

Figuras, como metáforas e ironias, são utilizadas de forma a zombar e diminuir a adversária. Marca-se pelo tom de voz agressivo e pela seleção de palavras do candidato. O efeito disso frente ao público pode ser de adesão por parte daqueles que são contra a candidata e estão revoltados com a atual situação política do país ou, então, de negação a um candidato que sobe a voz para uma mulher, que a coloca como inferior.

Aécio, por fim, apresenta uma estrutura retórica embasada em argumentos corroborados pelas falas de seu auditório. Perde-se em algumas pautas, como ocorrido quando indagado a respeito da violência contra a mulher, mas é vivaz e denota grande domínio na proferição de seu discurso, uma vez que seu tom de voz é convidativo, sua dicção, clara e seu ritmo, acompanhável e eloquente até mesmo quando trata de algo que não domina. Peca, no entanto, ao expor expressões faciais que transpassam um tom de superioridade, narcisismo e deboche para com Dilma, como apontado por Sergio Senna Pires, doutor em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e professor do Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal (leia mais aqui).

Dilma Rousseff, por sua vez, falha naquela que é característica inata de Aécio: sua ação não passa confiança. Sua dicção é um tanto quanto pausada e seus gestos denotam certo desconforto. Já inicia todo debate com um ethos mais abalado: é mulher. A parte emocional do discurso da presidenta é mais fraco, uma vez que afetividade é crucial neste ponto. Por outro lado, e retomando a questão de tratarmos de uma mulher, retrata a continuação da mudança, de vanguarda, de inovação, o que causa adesão daqueles que defendem o feminismo, a igualdade entre os sexos. Dilma vem buscando desenvolver este lado afetivo a partir de técnicas retóricas, porém perde adeptos ao seu discurso uma vez que, por previamente não ter confiança de determinados auditórios, seus argumentos nada significam para estes. Por isso, Dilma não usou mais vermelho em debates, por exemplo (exceto pelo último, dia 24/11, televisionado pela Globo). A candidata busca quebrar o estigma já criado sobre sua imagem, uma vez que, agora, pretende pescar os eleitores que ainda não sabem em quem votar. Para este pathos, a presidenta direciona suas propostas de continuidade e de desenvolvimento, todas embasadas em argumentos recheados de dados e números: prato cheio para quem busca razões para aderir ao seu discurso. A disposição de seus argumentos e a organização interna de seu texto se faz efetiva – a candidata não titubeia – exceto pelos gaguejos.

Também utiliza de figuras, como analogias (“como é que o senhor quer que eu acredite que com a mesma receita, o mesmo cozinheiro, vocês vão entregar um prato diferente do que já entregaram para o Brasil?”) que servem, aqui, para aproximar o eleitor da realidade política com um modelo bem simples de se associar.

Na contramão do tom agressivo do peessedebista, Dilma, em diversos momentos, pede desculpas ao candidato. Diz “o senhor me desculpa, mas eu não concordo com isso”, e, em outro momento, “o senhor me desculpa, mas nós não fizemos um programa Bolsa Família para cinco milhões, fizemos para 50 milhões”. Implicitamente, encontramos a ironia, no entanto, de forma sutil.

Dilma lança questões a seu auditório (“acredito que você que está agora para decidir, você deve se perguntar algumas coisas. Se perguntar: quem tem mais capacidade e experiência para garantir o que conquistamos e avançar nas mudanças?”), denotando, mais uma vez, que direciona seu texto falado aos indecisos.

Por fim, vemos que o discurso da candidata denota profundo embasamento e critérios seletivos para replicar aos ataques da oposição, embora careça de oratória.

À guisa de conclusão, para o indivíduo político não são apenas as ações que contam, mas, essencialmente, como estas são divulgadas. Ambos os discursos aqui retratados visam a uma construção futura – lidamos com hipóteses, promessas, sonhos. A retórica, por fim, não busca a verdade, mas sim a adesão de indivíduos a uma tese por meio de artifícios de convencimento. Desta forma, a elaboração de um discurso requer um domínio linguístico que muitas vezes falta para quem é ouvinte do mesmo. Entender destas peculiaridades da língua é de suma importância para qualquer indivíduo inserido na sociedade estar apto a distinguir as verdades e as mentiras contidas no texto e, assim, conseguir discernir acerca de qual projeto – e, claramente, qual discurso – casa melhor com os seus ideais. Entre razão e emoção, o que prevalece na sua opção de voto?

* Jaqueline Zanon é licenciada em Letras pela PUC-SP e desenvolve pesquisas na área da linguística. Permeia por diversos campos de conhecimento, focando essencialmente em cultura, artes e línguas.

[1] REBOUL, O. Introdução à retórica. 2 ed, São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 114.

[2] REBOUL, O. op. cit.. p. 91.

[3] http://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/15/confira-a-integra-do-debate-band-entre-aecio-e-dilma.htm

[4] MAINGUENEAU, Dominique. “Argumentação e Análise do Discurso: reflexões a partir da segunda Provincial”. Tradução de Eduardo Lopes Piris; Moisés Olímpio Ferreira. In: BARONAS, Roberto Leiser; MIOTELLO, Valdemir (Orgs.). Análise de Discurso: teorizações e métodos. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011. p. 69-86.

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Categorias: Política

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