OPINIÃO | A Direita Pastelão

Por Pedro Jatene *  Mafalda de Quino

Quando apelida a parcela pouco ou muito rica da Esquerda de “Caviar”, a Direita Pastelão já escancara sua maior tática argumentativa, que é a desqualificação da pessoa com a qual conversa. Ela é incapaz de refutar de modo embasado a ideia central do argumentos. Para a Direita Pastelão, Niemeyer, por exemplo, teve sua obra comprometida por ser marxista, enquanto o rico que apoia o bolsa família ou a política de cotas não passa de um grande hipócrita que viajou para fora no ano passado e estudou em escola particular. As respostas nunca guardam relação com as perguntas, como uma criança que xinga de “boba e feia!” a mesa cujo pé chuta, sem querer, com o dedinho.

A Direita Pastelão chama os membros da esquerda que não são ricos de meros “esquerdistas”, denotando mais uma das características do seu discurso, que é a discriminação. Sinceramente, nunca ouvi um esquerdista ou um esquerdo-caviar chamando alguém de direitista, mas, no máximo, de “reaça”, o que guarda muito mais relação com uma visão retrógrada de mundo do que com uma visão política nefasta, vez que também se aplica, vez ou outra, aos próprios esquerdistas ou esquerdo-caviares. Até a diferença no uso da linguagem obsoleta e discriminatória, daquela época em que a Direita Pastelão pendurava no varal quem lhe olhava torto, é representativa de adultos e crianças.

Por trás das ofensas gratuitas, a Direita Pastelão prega o determinismo social, surdo, cego e mudo. Se você é rico, não pense nos pobres. Se você é homem, não pense nas mulheres. Se você é branco, não pense nos negros. Se você tem curso superior, não fale em analfabetismo. Se tem seguro de saúde ou médicos na família, não se atreva a falar da rede pública de saúde. A Direita Pastelão ignora que lutar pelos outros é a garantia de que um dia lutarão por você. Como se nascer assim te proibisse de pensar assim e também de pensar assado. Como se fôssemos obrigados desde o berço a viver e morrer como um idiota que não se importa com o bem comum. Ou como um pastel.

Todo o discurso da Direita Pastelão é baseado na confusão de categorias que não se relacionam na substância. Para a Direita Pastelão, o trabalho informal de uma doméstica não-registrada é igual à atividade ilegal de um traficante, desde que ele não trafique de helicóptero através de grandes latifundiários. Nesse caso, é mera questão de disponibilidade da sua propriedade, direito fundamental do cidadão! Para a Direita Pastelão, a casa de praia construída ilegalmente em área de proteção ambiental é tão ilegal quanto uma favela que demorou gerações para se estabelecer. Naturalmente, o primeiro pensamento da Esquerda Caviar sobre essa opinião é que faltou arroz e feijão na formação intelectual da qual a Direita Pastelão tanto se orgulha. Por sinal, tanto as favelas quanto o trabalho informal são netos da própria Direita Pastelão. De como ela dividiu o trabalho e como segregou o espaço público.

A Direita Pastelão diz que a Esquerda Caviar defende os bandidos. Realmente, a Esquerda Caviar defende os direitos humanos dos bandidos, reconhecendo a todas as pessoas o direito à vida e à dignidade, bem como a influência que a realidade social tem na formação de um comportamento bandido. Nesse ponto, a Esquerda Caviar é muito coerente e defende até os bandidos da Direita Pastelão, que não são poucos. Mas, sim, de fato, temos mais boa vontade com um ladrão de frango do que com um ladrão de poupanças. E não temos vergonha disso.

A Direita Pastelão berra pela liberdade econômica e pelo fim do protecionismo ao mercado nacional. Note, por gentileza, que quem sucateou o parque industrial brasileiro não foi a Esquerda Caviar, mas o longo continuísmo da Direita Pastelão no poder. Não é porque as siglas mudaram de nome que essa criança perdeu seus verdadeiros pais. Quem quis crescer o bolo sob a justificativa de que depois o dividiria e, na hora H, sumiu com a faca, foi a própria Direita Pastelão.

A Direita Pastelão defende com unhas e dentes o direito ao consumo. Por favor, lembre-se que quem vem lutando diariamente pelos direitos dos consumidores contra os fornecedores, vendedores e prestadores de serviço, desde a promulgação do seu Código de Defesa, são os esquerdo-caviares e os esquerdistas em geral. A Direita Pastelão reclama, sem vergonha nenhuma, que o Judiciário prefere os consumidores aos empresários, quando não blasfema que o consumidor é ignorante, estúpido e por isso é que acaba lesado. O que atesta o desconhecimento absoluto do que é a hipossuficiência jurídica em matéria de igualdade.

A Direita Pastelão reclama da abusiva tributação que sofre a pessoa física, considerando os precários serviços públicos que são oferecidos, o que é muito irônico. Não foi justamente por essa tendência nojenta em querer fazer parte do público e usar desses serviços, mesmo podendo arcar com os custos privados, que recebemos a alcunha de “Caviar”? Não se engane se escutar um digno Pastelão de direita dizendo que toparia pagar tantos tributos se os serviços fossem de qualidade. A Direita Pastelão simula que gostaria de usar dos serviços públicos como mera tática que justifique a desoneração tributária. Todos sabem muito bem que a Direita Pastelão não usa dos serviços justamente porque eles não oferecem o luxo e o conforto que merece os homens de família, as mulheres de bem ou os sujeitos distintos. Ou seja, serviços públicos não oferecem o caviar que a esquerda, com ele apelidada, dispensa  para subir num ônibus.

Se vocifera contra a sufocante tributação da pessoa física em troca da precariedade de serviços, a Direita Pastelão tem muito mais boa vontade com a tributação da pessoa jurídica. Ela escolhe a dedo quais impostos são alvo de campanhas publicitárias, com panfletos e transmissões em telões na entrada de seus edifícios pomposos em centros financeiros. E veja só que curioso: a mobilização ataca sempre os impostos “insonegáveis”, já que os outros podem ser bem manipulados por excelentes técnicos. A única explicação para essa postura dissimulada é que a sonegação da pessoa jurídica é exponencialmente lucrativa para o liberal na mesma proporção em que é prejudicial para a massa, sufocada pela tributação direta e indireta da pessoa física. Conseguir aumentar esse abismo num único gesto é a glória da Direita Pastelão. De novo, como uma criança, ela responderá ao esquerdo-caviar que ele quer a morte do Capital. Nós responderemos que não, que só queremos que você pague seus impostos.

A Direita Pastelão gosta de comparar o Brasil com as grandes potências internacionais. Como as coisas funcionam lá e não funcionam aqui. Que o ônibus na Holanda abaixa para você subir e o ônibus daqui cheira mal. A Esquerda Caviar acha isso muito interessante, aproveitando o que diz a Direita Pastelão sobre a abusiva tributação que sofre a pessoa física e a sua postura em relação à sonegação das jurídicas, controladas pela própria Direita Pastelão em sua maioria. Porque todas as potências internacionais aplaudidas têm o Imposto sobre Grandes Fortunas estabelecido, ao contrário do Brasil. Aqui, a Direita Pastelão permitiu que seu vulto entrasse na Constituição, mas proibiu que seu corpo e suas regras fossem objeto de lei em seguida. É muito cínica a estratégia que brada pela desoneração dos que ganham pouco para preservar inabalados os quinhões hereditários dos milionários que concentram metade da riqueza do país na mão de um milésimo das famílias brasileiras.

A Direita Pastelão propaga por todos os cantos a sua repulsa à corrupção e faz questão de definir a Esquerda Caviar como o principal suporte dela. A Direita Pastelão é esquizofrênica nesse aspecto porque é ela que capitaneia há séculos os principais grupos financeiros e industriais do país, além de ter ocupado preponderantemente o espaço público até a virada do milênio. Se existem corruptos e corruptores, a Direita Pastelão precisa assumir sua parcela de responsabilidade pela criação do aparato jurídico e institucional que reproduz a lógica da corrupção. E não adianta se defender dizendo que as regras foram produzidas através de processos democráticos.

Porque a Direita Pastelão ignora as diferenças que existem entre uma democracia formal e uma democracia de verdade; entre as instituições de fachada e as que funcionam de fato; entre o voto comprado que parece regular e a manifestação pública que recebe bala de borracha porque é vista como ilegítima. Subverte a máxima “governo do povo, pelo povo, para o povo” em “governo do poder econômico, pelos poderosos, para o povo que apoia e admira”.

E como lobo em pele de cordeiro, a Direita Pastelão se embrulha no manto da democracia, escondendo atrás das costas o porrete, como se fosse um buquê, para reclamar a guarda eterna das liberdades civis e denunciar como comunista todos aqueles que proclamam a igualdade em primeiro lugar. Tudo porque a Esquerda Caviar não tolera que o exercício das liberdades de uns seja pago pelos direitos suprimidos de outros. Enquanto isso, a Direita Pastelão é capaz até de comprar a feira para evitar que um pobre tome a sua garapa.

Nota do Autor: O texto foi escrito em fevereiro de 2014 e só tinha como pretensão aliviar a raiva, não elaborada em palavras, que uma pessoa querida sentia – e ainda sente – ao ler alguns blogueiros de extrema-direita. O exemplo de Oscar Niemeyer, por exemplo, já ficou obsoleto e poderia ser substituído pelo de Chico Buarque ou de tantos outros, como poderiam ser substituídos, também, vários dos parágrafos que foram escritos naquela época, com considerações mais atuais, dessas que afloraram nos últimos meses do debate público. No entanto, o objetivo do texto não é enriquecer ou aprofundar esse debate, muito menos discutir como funciona o debate entre a esquerda e a direita. Antes disso, o objetivo do texto é apresentar as incongruências do discurso político de uma parcela da direita, a partir da apropriação (e alguma subversão) da linguagem que ela própria utiliza – o que acredito que acaba por fazer o mesmo com a parcela da esquerda à qual me incluo, dado que estamos todos passíveis de erros, enganos e vícios, de linguagem ou não. Ninguém passa impune ao escrutínio da opinião alheia.

*Pedro Jatene é advogado formado pela PUC-SP e especialista em Infraestrutura pela FGV-SP, com breve passagem pela FFLCH-USP durante a graduação.

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Categorias: Opinião, Política

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