OPINIÃO | Pau que bate em Xico

Por Pedro Jatene *

Primeiro foi a Maria Rita Kehl, em 2010, e depois o Xico Sá, no último fim de semana, que foi desvinculada e se desvinculou do jornal Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, respectivamente, por causa de desorientações políticas ou partidárias. Ela foi mandada embora porque escreveu uma coluna polêmica na qual exaltava o voto do pobre ao mesmo tempo em que tripudiava sobre o discurso corrente que o costuma ridicularizar. Já ele pediu demissão, depois de ver a sua intenção de voto em Dilma, a ser publicada no caderno de Esportes no sábado, vetada pelo jornal. A Folha comenta que ofereceu um espaço recusado em seu primeiro caderno, Tendências e Debates, reservado para quem não é funcionário da casa.

Mas sobre isso Xico Sá nem comenta. Seu desabafo pelo Twitter vem carregado da emoção do garoto de 18 anos que se rendeu à imprensa que ele próprio chama de burguesa e acusa de sequer investigar os outros partidos como publica contra o PT, mesmo sem investigar tanto. De lá dentro, Xico Sá fala do alto da sua experiência, em muito mais de 140 toques, que a máxima da salsicha se aplica à cobertura jornalística de eleições: você gosta, mas não quer saber como se faz. E ele sabe como se faz.

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Talvez Xico Sá queira dizer algo na linha daquilo que o Manchetômetro publicou na semana passada (http://bit.ly/1BMIlM8). Todos os jornais, revistas e canais de televisão têm suas preferências políticas, determinadas lá em cima, onde estouram champanhe os seus donos. A Folha, por exemplo, que é o jornal de maior tiragem do país e supostamente não apoia ninguém, tem o PT como o partido que mais recebe manchetes negativas e o que menos recebe manchetes positivas, enquanto tem o PSDB como o partido que mais recebe manchetes positivas e menos recebe manchetes negativas. Com direito a distâncias imensas nos dois quesitos.

Seria plausível que todo o tom decorresse do desgaste natural do poder ou da situação econômica atual. Não representa, necessariamente, um alinhamento partidário específico, contrário ao PT. Seria plausível se, em 1998, quando a economia ia pior do que hoje e FHC também pleiteava reeleição, a lógica se invertesse. Só que ela não se inverte: a oposição petista já recebia mais manchetes negativas do que a situação tucana, que por sua vez também recebia mais manchetes positivas do que a oposição petista. E aquelas 30 milhões de pessoas que a ONU comentou ainda estavam passando fome naquela época. Está no link do Manchetômetro.

Todos os canais, de todos os meios de comunicação, têm suas preferências políticas. Meia dúzia de famílias muito ricas e educadas gastaram décadas e décadas de trabalho para construírem seus impérios de alcance. Perímetros nos quais a informação que sai de seus locutores alcança a condição de verdade, de justificativa. Aécio Neves, por exemplo, não ganhou uma concessão de rádio de presente do Presidente Sarney quando tinha 25 anos, expandindo sua rede pelo interior mineiro? Claro, informação é poder puro. Justificamos boa parte das nossas opiniões a partir de informações que pegamos em rádios como essa, em jornais como a Folha e o Estado.

E não estaríamos em tão maus lençóis se a preferência política que sorrateiramente se impregna nas fotos e nos textos fosse apenas a dessa meia dúzia de famílias ricas e importantes para o país. São também as preferências de suas próprias alianças. Suas próprias redes de corrupção e facilitação, do tráfico de influência que lubrifica a máquina que depois ela mesma vem chamar de podre. Sem falar nas preferências de todos os seus anunciantes, empresas milionárias, que não importa quantas propagandas alegres com crianças negras veiculem no horário nobre, não enganam: gastam mais com a publicidade de programas sociais do que com eles de fato e anunciarão seu outro produto na Veja se o escritor polêmico e sem conteúdo não ganhar uma coluna durante a semana.

 É difícil formar opinião, sobretudo, pela grande imprensa. A gente tem que ir compondo uma constelação de pessoas que confiamos e que nos receberão de braços abertos e com palavras de alento quando ela não fizer sentido. Pessoas que estão espalhadas pelas tentativas de mídia independente, pelos grupos de amigos e de conhecidos mais sabidos sobre aquele assunto e, frequentemente, espalhadas até pela grande imprensa. Porque também não é como se ela fizesse sua propaganda eleitoral velada por maldade ou censurasse seus autores por capricho, embora Xico Sá e Maria Rita Kehl discordem bastante. A grande imprensa faz sua propaganda e administra seus autores porque depende disso para sobreviver poderosa, dominante e lucrativa. Porque precisa disso para continuar servindo de justificativa. Senão deixa de ser um bom investimento para a família.

Vai da gente perceber a crueldade que mora nesse pequeno detalhe.

*Pedro Jatene é advogado formado pela PUC-SP e especialista em Infraestrutura pela FGV-SP, com breve passagem pela FFLCH-USP durante a graduação.

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Categorias: Imprensa, Opinião, Política

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