Editorial: Ceteris Paribus

O plenário do Senado Federal. (Foto: Geraldo Magela/Senado)

O plenário do Senado Federal. (Foto: Geraldo Magela/Senado)

O PT, supondo constante o apoio que lhe garantiu o Planalto nos últimos 12 anos, bateu mais em Marina do que em Aécio ao longo da campanha para o primeiro turno. Deu-se mal e leva para o segundo turno uma briga acirrada com o tucano, que correu por fora.

Marina, supondo constante a vontade brasileira de mudança, expressa em junho de 2013, insistiu no discurso vazio e frágil da terceira via e viu-se esborrachar em terceiro lugar. Deu-se mal e acaba de declarar voto em Aécio, rachando a Rede (o partido que nunca foi), o PSB (uma esquerda que não mais será) e a confiança de quem supunha possível pensar política sem PT e PSDB.

Aécio, supondo constante a ojeriza sólida de parcela considerável do eleitorado nacional ao PT e sua natural tendência conservadora, bateu em Dilma e posou de bom moço e, pasmem, novo agente da ética na política nacional. Deu-se tão bem que o PSB jogou a história pela janela e Marina mandou às favas a coerência, tamanha a ansiedade de verem-se, partido e ex-candidata, partícipes de um governo agora mais plausível.

“Tudo o mais constante” – ou “ceteris paribus”, como preferem os cientistas – é um instrumento metodológico utilizado na economia e na ciência política para isolar um conjunto restrito de variáveis e buscar relações de causa e efeito (A causa B, sem considerarmos C, D, E etc.). No debate eleitoral – seja o oficial ou o do dia a dia – o “tudo o mais constante” é como um câncer: simplifica as análises, as estratégias e a ação política.

De um lado, parte do eleitorado nacional julga constante a corrupção petista. Ao fazê-lo, ignora o trabalho da Controladoria Geral da União, a intensificação da atuação da Polícia Federal, bem como a validade de iniciativas como o Portal da Transparência – gestadas, em sua forma atual, no governo do PT. Ignora, ainda, a profunda e necessária discussão – encampada pelo PT e ignorada por Aécio – sobre a reforma política e, especificamente, sobre o financiamento privado de campanhas.

De outro lado, parte julga constante o sucesso petista, a tal ponto que as alianças escusas com a base governista viram males necessários e, por isso, plenamente aceitáveis. Aplaudindo o partido, ignora-se a incapacidade de se fazerem reformas estruturais e estruturantes, como a política, a agrária e a tributária. Reconhecendo o valor do crescimento da renda per capita, releva-se o sucateamento da indústria e a baixa taxa de investimento nacional.

A postura comprometida com o ceteris paribus é simplista: ela apequena a realidade nacional, resumindo-a, no mais das vezes, a apresentação de preconceitos e julgamentos rasteiros.

O bom debate precisa de coragem para se perceber que, de uma ponta a outra do espectro partidário, há tetos de vidro. Essa percepção não é mera constatação: é um salto civilizatório, que deve balizar a verdadeira luta, a determinar o apoio aos representantes que estão dispostos a encampá-la. Um salto que não tem nada a ver com a “nova política” de Marina; tem a ver com um exercício duríssimo de perceber que a política é a arte do possível, não do desejável; é o pesar e sopesar de milhares de pequenos compostos que, misturados, resultam no ato sagrado do voto, que não se faz apenas de “por quês”, mas também de muitos “apesar de…”.

O voto, assim, não vai para o melhor. Vai para o menos ruim. Exigir mais que isso é ilusão. Votar supondo que estamos fazendo diferente disso, é burrice. Aceitar a dura realidade da política, comprometer-se com a cobrança de resultados e a crítica aguçada: eis aí, ceteris paribus, uma política nova.

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Categorias: Opinião

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um comentário em “Editorial: Ceteris Paribus”

  1. Marc
    18/10 às 01:08 #

    É absolutamente falacioso apresentar como evidência de um suposto combate à corrupção a ação daqueles órgãos. A Dilma nem pode interferir na ação de delegados da PF, funcionários concursados que gozam de independência funcional.

    A CGU e a Polícia Federal são instituições de Estado, nada tem a ver com as decisões que os partidários indicados tomam em ministérios e estatais. Ou seja, se houve um aumento no número de prisões associadas à corrupção, é porque houve um aumento na corrupção por parte dessa parcela de partidários indicados, sob controle direto da Presidenta. Evidente.

    Quando ela diz que demitiu o PRC, por exemplo, ela não tem mérito algum nisso, já que juridicamente ela tem responsabilidade objetiva por seus indicados. Ou seja, se ele praticou crimes, ela é punível por extensão, dada a sua culpa in vigilando.

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