Os efeitos perversos dos deputados federais mais votados

Por Veridiana Domingos *

No último domingo, os resultados para a Câmara Federal confirmaram que o povo brasileiro não estava apenas “testando” a possibilidade de vitória de Tiririca em 2010. Há, de fato, um eleitorado fiel ao ex-palhaço, que lhe concedeu 1,3 milhão de votos nas eleições passadas e cerca de 1 milhão neste ano. Embora Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, não tenha faltado em nenhuma sessão na Câmera, muito provavalemente não foi por este motivo que foi reeleito. Tal qual Celso Russomano (recordista de votos no estado de São Paulo, com 1,6 milhão), Tiririca teve sua imagem bastante explorada na mídia antes de ser deputado. Russomano e Tiririca vieram da televisão: um trabalhando com humor e o outro, com quadros sobre denúncias em programas da tarde.

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Foi se valendo de sua popularidade midiática que o Partido Republicano (PR) apostou na campanha de Tiririca fora dos moldes convencionais. Sem propostas políticas e com apenas dois programas eleitorais gravados (um que satirizava o cantor Roberto Carlos e outro em que imitava o jogador Pelé)[1], Tiririca foi o único candidato apresentado pelo PR no horário eleitoral gratuito. Na página inicial do site do partido, é a foto de Tiririca que aparece, ocultando os outros deputados que acabaram sendo levados à Câmara pelo expressivo número de votos que obteve o deputado humorista. Nesta eleição, o PR elegeu seis deputados, sendo que cinco deles (Marco Alvino, Milton Monti, Paulo Freire, Capitão Augusto e Miguel Lombardi), embora sem grande votação, foram beneficiados pelo sistema de lista aberta.

É plausível que questionemos o sistema de lista fechada (adotado por vários países europeus), em que o eleitor vota numa legenda e os candidatos são eleitos de acordo com a lista previamente escolhida internamente pelo partido correspondente. Em uma situação de lista fechada, não incorreríamos em casos como esse: eleição de seis candidatos de um partido que provavelmente não conseguiria tal feito se não fosse pela campanha apelativa de Tiririca. Isso porque possivelmente a intenção de votação no PR seria reduzida, se comparada com o expressivo número de votos que Tiririca recebeu.

Não nego aqui o direito de um comediante ser eleito. Estamos em uma democracia e qualquer cidadão pode se candidatar a representar uma parcela da população. Coloco apenas a reflexão sobre a condução da campanha de um candidato (e de um partido) que apresenta esquetes de comédia com um personagem e não com o candidato que irá atuar na Câmara de fato. Diante da campanha e atuação que parecem satirizar o sistema eleitoral e a arena representativa, parece que os resultados expressivos de Tiririca são uma forma de protesto do eleitorado. Contudo, estaríamos diante de um paradoxo das consequências (ou dos “efeitos perversos” como anuncia o título): a ação de um eleitorado, supostamente em protesto, tem como consequência não apenas a eleição de um, mas de seis candidatos não representativos. O PR, muito espertamente, se demonstrou desonesto com a população concedendo todo o tempo de propaganda eleitoral a Tiririca e ocultando seus outros candidatos que, apostando na configuração do processo eleitoral de lista fechada, levando outros cinco candidatos desconhecidos pelo eleitorado.

Até que ponto o PR foi honesto com seu eleitorado apresentando um personagem em vez da identidade real do candidato que irá atuar na Câmara? Quem faz a campanha é Tiririca, mas quem assume a cadeira na Câmara é Francisco Everaldo. Afinal, é possível que um personagem se candidate? Esta discussão continua no texto “Eleições Bizarras”.

*Socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da USP e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Memória e Violência.

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[1] Veja a propaganda política de Tiririca aqui: https://www.youtube.com/watch?v=qC4gShlZ1pM

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Categorias: Política

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