Massacres estudantis no México: 1968 e 2014

Fábio Zuker*

25 de setembro de 2014, Iguala, estado de Guerrero, México. No estado com maior taxa de homicídios no país, quarenta estudantes da Escola Normal de Ayotzinapa desaparecem após, além de enfrentamentos com a polícia, tomarem três ônibus sem pagar. Nesta semana, foram descobertas as covas com quarenta corpos e sinais de tortura. Não se sabe ao certo o que aconteceu, mas tudo indica que os jovens tenham sido assassinados por policiais de Guerrero ligados ao narcotráfico. Manifestações populares em apoio aos estudantes estão marcadas para essa semana, em meio ao clamor por uma investigação por parte do governo mexicano.

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Auxílio Lacoutre, a poetisa uruguaia que vivia exilada no México, é uma das personagens que o escritor chileno Roberto Bolaño descreve em Detetivas Selvagens. Ou melhor, uma das vozes desesperadas que narra a história da dupla Belano e Ulisses.

Se nesse livro Auxílio é uma entre tantas outras personagens, em Amuleto ela ganha um romance inteiro para narrar sua experiência de fuga e resistência em um banheiro da Universidade Autônoma do México (UNAM), durante a invasão do exército. Essa talvez seja a imagem mais clara que os brasileiros tenham do que foi o massacre dos estudantes em 1968 no México – o fato de muitos de nós apenas conhecermos a existência de tal acontecimento histórico pelas frases de um grande escritor de romances, que é Roberto Bolaño, é um dos indícios da barreira simbólica que separa o Brasil do resto da América Latina.

No livro, Auxílio permanece escondida em um banheiro na Cidade Universitária por dias a fio, com medo e alimentando-se única e exclusivamente da água da torneira, até começar a tremer e sentir-se fraca. Em sua cabeça, passavam pensamentos como: “resista, você é latino-americana, e este é seu destino. Lutar e resistir!”; “não ceda, não saia do toalete, senão você será a próxima”.

O contexto é 1968, e a autonomia da universidade foi justamente violada quando o exército mexicano invadiu a Cidade Universitária durante as repressões que levaram, junto com o massacre da Praça das Três Culturas de Tlatelolco, ao assassinato de duzentos estudantes. O assassinato dos jovens que participavam do movimento de esquerda ocorreu no dia 2 de outubro, um dia após a saída do exército da UNAM.

Desconheço os detalhes da história política mexicana contemporânea. Mas o avanço da violência decorrido do narcotráfico é um dos temas centrais para entender a realidade do país.

Vivos lhes levaram, vivos lhes queremos

Vivos lhes levaram, vivos lhes queremos

No último dia 25 de setembro, ou seja, na mesma semana em que se relembra o assassinato dos estudantes da UNAM em 1968, quarenta jovens que estudavam para serem professores na Escola Normal de Ayotzinapa desaparecem. No dia 26, alguns poucos corpos são encontrados, e reconhecidos como sendo dos estudantes, com sinais de tortura: pele do rosto arrancada, e olhos esmagados. Um sinal, segundo a polícia, de quem mandaria nessa terra de ninguém chamada Iguala.

Nessa cidade de 120 mil habitantes, no coração do violento estado de Guerrero, a noite de sexta-feira, 25 de setembro, foi extremamente violenta por parte da polícia e de organizações criminosas, terminando com seis mortos, dezessete feridos e o desaparecimento de quarenta estudantes.

A hipótese mais plausível que havia sido levantada era de que os estudantes tinham se escondido para evitar represálias e fugir da violência. Mas a descoberta de uma cova coletiva com dezenas de corpos, essa semana, desbancou completamente essa versão. Existem relatos de que os jovens haviam sido capturados pela polícia, e a história se torna mais e mais complicada com o passar das horas: membros das forças de segurança da cidade, bem como administradores públicos, parecem estar envolvidos na ordem de desaparecer com os jovens – tudo isso relacionado, de algum modo, com o narcotráfico, que domina a região.

Tudo é muito confuso. Os estudantes pertenciam a uma das chamadas Escolas Normales Rurales, que se identificam com ideologias de esquerda e trabalham, sobretudo, no campo educacional, formando professores. Eles haviam entrado no ônibus sem pagar para, justamente, irem à Cidade do México participar das manifestações do 2 de outubro, em homenagem aos estudantes mortos de 1968. Segundo os motoristas dos ônibus, a entrada dos estudantes sem pagar é uma prática cotidiana, e tolerada pela companhia. Enfrentamentos com a polícia marcaram o trajeto, com estudantes descendo dos ônibus e defendendo-se com pedras, ao que a polícia respondeu, em seguida, segundo testemunhas, com tiros de fuzis AR-15 e levando dezenas deles, não se sabe para onde.

Muitos discutem a famosa frase de Marx a respeito de Luís Bonaparte, de que a que a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Em solo latino, a tragédia parece se repetir, indeterminadamente.

PS: hoje (dia 08/10) fui à manifestação que ocorreu no centro da Cidade do México. Não havia sequer um policial. Não houve nenhum incidente. Fiquei impressionado com a mescla de grupos sociais: muitos indígenas do Sul vieram protestar na cidade (reparei que muitos não se comunicavam entre si em espanhol). Faixas e gritos homenageando aos jovens desaparecidos/assassinados misturavam-se a gritos e referências a Emiliano Zapata e Pancho Villa. Estudantes de universidades urbanas junto com estudantes das chamadas Normales Rurales gritavam para que o governo punisse os culpados. Camponeses (com sombreros e facões na mão) falavam de terra e liberdade, ao lado de trabalhadores urbanos e sindicalistas. Em San Cristóbal de las Casas (temática do post anterior dessa série), bases de apoio do Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) tomaram as ruas da cidade, em solidariedade aos normalistas de Guerrero.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

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